Participei nessa última terça-feira na posse da Deputada Estadual Bruna Rodrigues como Procuradora Especial da Mulher da Assembleia do RS e não pude deixar de me emocionar. Foi um bálsamo estar reunida entre muitas mulheres de diferentes origens para celebrar esse momento histórico, quando pela primeira vez uma mulher negra e periférica assumiu este cargo. Um espaço simbólico num estado marcadamente racista e machista.
Viva o diálogo entre as diferentes
Assistir deputadas de diferentes matizes ideológicas como Silvana Covatti (PP) e Stela Farias (PT) celebrando a Bruna e a presença de ex-deputadas como Jussara Cony e Manuela D’Avila, saudando-se mutuamente e se comprometendo a atuar em grupo pela causa das mulheres, foi um exemplo da capacidade do diálogo de mulheres na política, que me trouxe à lembrança os tempos do “Lobby do Batom”, quando o grupo de deputadas federais na Constituinte de 1988 se uniu em prol das pautas da mulher a despeito das cores partidárias (Na Globoplay há um excelente documentário a respeito).
Por mais mulheres na política e liderança
Essa lembrança me obriga a fazer um parêntese nesse texto, pois acredito que se tivéssemos mais mulheres na política, não veríamos tantos debates infrutíferos sem conexão com os interesses públicos e encontraríamos mais projetos voltados para a vida real da população, pois as grandes usuárias e também servidoras dos serviços públicos somos nós, mulheres. Principalmente, conseguiríamos negociar a ponto de evitar as guerras que vemos espalhadas pelo mundo. A sabedoria ancestral, onde cabe a nós carregar a vida, também nos conecta com a compreensão do valor que ela possui e de que guerra nenhuma, não importa a causa, vale a perda de filhos e filhas.
A falácia da fofoca
E essa união entre mulheres sobre a qual contei acima coloca por terra os mitos da inveja e da competição feminina, tão bem alimentada por séculos para servir como fonte de divisão feminina. Na Idade Média, derivado do inglês arcaico, a palavra “gossip” (fofoca) significava originalmente madrinha / padrinho. Na Inglaterra, já no início da era moderna, se tornou um termo para amigas, quando as mulheres gozavam de autonomia social e de trabalho. Ao longo da Idade Média, foi ocorrendo todo um processo de subjugação masculina através de leis e da Igreja (com a Caça às Bruxas) que, entre outras transformações, tornou o termo “gossip” de afetuoso para algo difamador. Leia aqui o capítulo do livro Mulheres e Caça às Bruxas, da Silvia Federici, sobre a história oculta da fofoca.
Afinal, quer forma melhor para nos enfraquecer e nos deixar vulneráveis, do que nos separar? Um galho sozinho quebra fácil, mas um feixe não. Nós, mulheres, por mais que apontem os dedos para desqualificar nossa sabedoria, sabemos o quanto de potência somos capazes de produzir e compartilhar quando estamos umas com as outras.
Precisamos umas das outras mais do que nunca
Vivemos um momento em que, mais do que nunca, precisamos que mulheres se reconheçam e se unam, como mostram os resultados do relatório da 5ª Edição da Visível Invisível – A Vitimização de Mulheres no Brasil, pesquisa nacional conduzida pelo Fórum Nacional de Segurança Pública com o objetivo de medir a violência contra a mulher brasileira, divulgados na semana passada. Esse documento, produzido desde 2017, constatou que nesse último ano houve um salto acima da média em todos os índices medidos.
Entre os resultados desse relatório, há muitos dados alarmantes (quase todos, eu diria) que requerem atenção. Mas, para uma visão geral, apresento aqui alguns deles para reflexão:
- 37,5% das mulheres vivenciaram alguma situação de violência nos últimos 12 meses. Em números absolutos isso representa ao menos 21,4 milhões de brasileiras de 16 anos ou mais. Esta é maior prevalência já identificada, desde 2017.
- Mulheres vítimas relataram, em média, mais de três tipos diferentes de violência no último ano.
- Entre os tipos específicos de violência:
- Em 1º lugar, 31,4% das brasileiras sofreram ofensas verbais (insulto, humilhação ou xingamento), crescimento de 8 pontos percentuais em relação à pesquisa de 2023. Uma das formas mais perversas e ocultas de violência, pois destrói a autoestima, a confiança e a sensação de segurança da mulher, mas que a sociedade tende a naturalizar.
- Em 2º lugar, 16,9% relataram ter sofrido agressão física por meio de batida, tapa, empurrão ou chute, maior prevalência registrada desde a primeira edição da pesquisa. Isto significa que ao menos 8,9 milhões de brasileiras sofreram agressão física no último ano. Em 3º lugar, 16,1% foram ameaçadas de sofrer algum tipo de agressão física e 16,1% foram vítimas de “Stalking”, 8,5 milhões de vítimas. Estas práticas de violência são importantes de observar porque ocorrem no âmbito de uma relação quando algo mais grave pode ocorrer, como abuso físico severo e feminicídio.
- De modo inédito, a pesquisa questionou as brasileiras com 16 anos ou mais sobre terem tido fotos ou vídeos íntimos divulgados na internet sem seu consentimento. 3,9% das respondentes relataram ter sofrido esta violência. Isto representa 1,5 milhão de mulheres. Chamada de “pornografia de vingança”, é um delito que é de difícil investigação, porém merece grande atenção das autoridades porque os danos causados para as vítimas vão desde o trauma psicológico, humilhação pública, até a perda de emprego, danos financeiros e quebra de laços familiares.
Quem são as mulheres vítimas de agressão
- Observando a faixa etária das mulheres, a violência ocorre em diferentes momentos e práticas ao longo da vida, não sendo uma experiência marcada em uma fase dela.
- Com relação à escolaridade, ela também atinge mulheres em todos os níveis. Entretanto, irá variar o tipo de violência de acordo com o contexto educacional. Mulheres com ensino superior estão mais sujeitas a “xingamentos/humilhações/insultos”, enquanto que mulheres de mais baixa escolaridade possuem elevados índices de vitimização por “espancamento, tentativa de estrangulamento, ameaças com faca ou armas de fogo e até ferimentos por faca e arma de fogo”.
- Sob o prisma de raça/cor, as mulheres que mais sofreram violências foram as de cor preta (41,5%), seguidas pelas pardas (35,2%) e brancas (35,4%).
- Entrecruzando-se a cor com o tipo de violência, se constata que mulheres negras (pretas e pardas) revelam um padrão persistente de desigualdade social com as demais edições da pesquisa. Não é possível dissociar questões estruturais como o racismo, a desigualdade econômica e social e a menor proteção institucional sobre esse grupo. Reflexo das desigualdades históricas da sociedade brasileira.
- Por meio dos dados da pesquisa, é possível saber que são necessárias políticas e programas gerais para mulheres, reconhecendo-se as necessidades específicas de cada grupo.
O que mais podemos saber a respeito: localização, fé, situação conjugal, agressor
- As mulheres das capitais e regiões metropolitanas são maioria entre as vítimas de violência, com 40,4%, do que as que vivem no interior, com 35,3%.
- Sobre a situação conjugal, é importante observar sob o ponto de vista das políticas públicas, que as mulheres separadas/divorciadas são as mais vulneráveis (46%), já que o término da relação as deixa mais desprotegidas.
- Outro fator de exposição à violência de mulheres é a maternidade, pois 38% das mães se declararam vítimas no último ano, enquanto entre aquelas que não têm filhos o percentual foi de 36,2%.
- Já com relação a religião, 38,7% das mulheres que se declararam evangélicas e 33,2% das católicas afirmaram ter passado por situação de violência ou agressão. Dado que, associado ao fato de que 47,4% das vítimas nada fizeram após episódio de violência e 6% terem ido procurar a igreja, faz refletir sobre o papel da Igreja na prevenção, manutenção, acolhimento e estancamento do ciclo de violência familiar, num país majoritariamente cristão.
- Importante salientar que a grande maioria das violências contra a mulher acontece nos relacionamentos íntimos dela (por exemplo, mais de 66,8% são maridos/ex-maridos, namorados/ex-namorados, companheiros/ex-companheiros).
A roda volta a girar
- Quanto à presença de testemunhas, 91,8% das brasileiras vítimas sofreram violência na presença de terceiros. Em 47,3% dos casos, quem presenciou foram amigos ou conhecidos; em 27%, os filhos, e em 12,4%, outros parentes. Um aspecto delicado citado no relatório da pesquisa é “o elevado percentual de mulheres que sofreram violência em frente aos filhos levanta a questão sobre os impactos da violência doméstica e familiar na vida de crianças. Pesquisas sugerem que as consequências do testemunho da violência entre os pais podem ser tão ou até mais prejudiciais do que a violência direta contra a criança. A convivência com conflitos intensos dentro de casa está associada a distúrbios emocionais, cognitivos e comportamentais, além de contribuir para uma percepção da família como um ambiente inseguro e caótico. As evidências científicas também sugerem que crianças que testemunham violência doméstica têm maior probabilidade de serem afetadas pela violência na vida adulta, seja como vítimas ou como agressoras. A violência doméstica pode se perpetuar entre gerações.”
O que elas fazem?
“A principal “atitude” em relação à agressão mais grave sofrida é, na verdade, não fazer nada (47,4%). Esse é um padrão que se repete desde a primeira edição da pesquisa, em 2017, e que sugere a persistência de barreiras estruturais, emocionais e institucionais que dificultam a busca por apoio e proteção.
Depois do “não fazer nada”, a segunda atitude mais frequente é a busca por ajuda de um familiar (19,2%), em terceiro a procura por amigos (15,2%), e, somente em quarto lugar, aparece a busca de ajuda em algum órgão oficial do sistema de Justiça, no caso, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (14,2%), seguido pela busca de atendimento em uma delegacia comum (10,3%). Com percentuais menores, estão, respectivamente, a procura por igreja (6,0%), a ligação para a Polícia Militar (2,2%), a ligação para a Central de Atendimento à Mulher (1,8%) e a denúncia à polícia via registro eletrônico (0,7%).”
Para não buscar ajuda, as mulheres alegam ter resolvido sozinhas (36,5%), a falta de provas (17,7%), a descrença na atuação policial (14%), não querer envolver a polícia (14%), medo de represália (13,9%), acreditar que o fato sofrido não era importante (13,7%), o que indica a naturalização da violência sofrida.
E daí?
Resgato aqui a importância de nós, mulheres, nos acolhermos e sairmos da solidão da violência e buscarmos umas às outras. Na rede, na potência do encontro, no compartilhamento da dor, das pequenas vitórias, dos tropeços e fracassos também, que a gente encontra a coragem necessária para enfrentá-la.
Uma sociedade boa para mulheres é uma sociedade boa para todos e todas. Para chegarmos a ela, é primordial que queiramos uma sociedade com igualdade de direitos, onde sejam reconhecidas as camadas de desigualdades e privilégios entre homens e mulheres e entre as mulheres.
O quanto há de disposição de mudança na sociedade para que essa igualdade de direitos aconteça ditará o ritmo da história. Qual é a sua?
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.
Foto da Capa: Ilustração da 5ª Edição da Visível Invisível