Nos últimos dias, acessei notícias que me deixaram com sentimentos mistos, entre a raiva, indignação e o desalento. Um gosto na boca que só piora quanto mais velhas nos tornamos. Com um grito de basta de tanta hipocrisia.
Para refletir sobre as conexões entre essas notícias, compartilho-as com você.
Funcionária de 58 anos se recusa a treinar jovem de 25 anos promovida em seu lugar
Jennifer Schroeder, uma estadunidense atualmente com 59 anos, com uma aparência comum para sua idade, com todas as marcas de expressão, rugas e “pelancas” esperadas para sua fase de vida, após 20 anos de muito trabalho na empresa por uma promoção, viu sua colega com 25 anos receber o cargo pelo qual sempre havia almejado. A seguir, a chefia solicitou que ela treinasse a colega recém-promovida, sem qualquer tipo de remuneração adicional, diga-se. Então, frente a tal humilhação e desrespeito, ela se negou. Por isso, o RH chamou e disse que não estava sendo uma profissional colaborativa, participativa. Tempos depois, foi removida dos projetos dos quais estava responsável e, finalmente, desligada da empresa.
Ciclista de 64 anos com cara de 80
A coluna da Miriam Goldemberg dessa última 3ª feira na Folha de São Paulo trouxe questionamentos sobre comentários de seguidoras que a fisiculturista Monica Bousquet, 63 anos, recebeu ao postar um vídeo em suas redes sociais enquanto estava pedalando:
“Velha toda murcha credooo”
“Vai se vestir, sua velha ridícula”
“Vai se vestir, véia!!! Está muito vulgar.”
“Pra que isso? Tem que ser pelada?”
“Que horror, acha que está linda. Ridícula”
“Ela só quer mostrar as pelancas kkkk”
“Coitada, tá caduca”
“Ridícula, totalmente ridícula, velha murcha”
“Mas a cara não nega que tá velha. Essa mulher parece que tem 80 anos, está com o rosto muito envelhecido.”
Reparem. Esses comentários foram feitos por mulheres para uma mulher ativa, esportista, mas que não esconde suas marcas do tempo aos 63 anos. O que acontece aqui?
Juliana Paes, madrinha da Viradouro, 46 anos, com corpo melhor do que aos 28.
Durante o Carnaval, assisti à atriz Juliana Paes ser entrevistada sobre seu retorno após 18 anos ao posto de Madrinha da Escola de Unidos da Viradouro do Rio de Janeiro, que veio a ser a campeã do certame.
A repórter chamava atenção de que o corpo da atriz está “muito melhor e mais definido” agora do que há 18 anos atrás, quando Juliana contava com 28 anos e ainda não tinha tido seus dois filhos, hoje com 12 e 15 anos. A entrevista encerrava com a atriz afirmando que mulheres como ela, com mais de 45 anos (Sabrina Sato, 45, Viviane Araújo, 50), assumindo papéis de destaque eram um exemplo para todas as outras mulheres contra o etarismo e que demonstrava uma abertura aos novos tempos. Te pergunto, novos tempos do quê?
Tudo isso misturado, o que uma coisa tem a ver com a outra? TUDO!
Ao refletir sobre a atitude da empresa que preteriu a Jennifer, o idadismo é claro. Um etarismo escrachado quando a empresa preteriu a funcionária que claramente era mais capaz, mas a convidou para treinar a colega mais jovem que foi promovida no seu lugar.
No entanto, mesmo tendo sido preterida por causa da sua idade na promoção, a Jennifer continuava sendo útil e a empresa somente a demitiu porque ela não permitiu jogar o jogo da hipocrisia corporativa. Usou sua autonomia para dizer não quando a empresa, que já tinha a desrespeitado, quis tomar seu conhecimento como se ele fosse seu por direito, demonstrando um sentimento de posse e controle. Algo que, para nós, mulheres, julgam que faz parte do “pacote”. Porém, ela disse não. Isso é inaceitável numa mulher. Não se deixar manipular. Reconhecer seu valor intrínseco.
No Brasil, 86% da população com mais de 60 anos afirma já ter enfrentado algum tipo de preconceito no mercado de trabalho, segundo levantamento do Instituto Locomotiva divulgado em 2024.
Mesmo com recorde de geração de empregos em 2024, profissionais com mais de 50 anos viram 160 mil postos de trabalho serem fechados para sua faixa etária, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
Segundo a AARP (Associação Americana de Pessoas Aposentadas), 64% dos trabalhadores com mais de 50 anos já presenciaram ou sofreram preconceito por idade no ambiente corporativo. Supor que pessoas mais velhas não sabem usufruir da tecnologia, fazer piadas sobre a idade e dar preferência aos funcionários mais novos são alguns exemplos do idadismo. 79% das pessoas que já vivenciaram alguma dessas situações as consideram comuns.
Tudo isso num contexto machista, sexista, no qual os homens levam vantagens sobre as mulheres nos processos seletivos, o que faz com que eles sejam maioria nos cargos de chefia, por exemplo, e recebam – em média – um salário 25% maior. E a peneira vai ficando cada vez mais fina para mulheres com o passar do tempo.
Esse fato me fez lembrar a série Younger, na Netflix. Nela, Liza Miller (Sutton Foster) é uma mãe recém-divorciada de 40 anos. Com sua filha adolescente estudando na Índia, Liza tem que descobrir uma maneira de se sustentar e sustentar sua filha, já que se vê num buraco financeiro. Ela tenta conseguir um emprego, o que se mostra difícil para uma mulher de sua idade. Surge a ideia de dar uma repaginada no visual de Liza para que ela se passe como uma mulher de 26 anos de idade, quando consegue uma vaga. Por fim, ela precisará lidar com a mentira no ambiente de trabalho, na editora Empirical Press.
Na ficção, a solução foi a mentira da idade. Mas vamos combinar, não estamos muito longe disso.
Aqui, coloquemos um outro “tempero” porque, historicamente, sabemos que “mulheres envelhecem mais cedo”. E os sinais de envelhecimento para as mulheres são imperdoáveis, feios, enquanto que para os homens o cabelo branco, as linhas de expressão do rosto dignificam sua experiência e trajetória. Eles envelhecem como o vinho, elas como vinagre.
E aqui gostaria de incluir na reflexão o efeito de discursos ditos “anti-idadistas” de celebridades como a Juliana Paes, que contribuem para que mulheres se vejam presas a um padrão distorcido de si mesmas e em busca de um ideal que nunca chegará a ser atingido.
Promovem e oferecem como “inspiração” anti-idadista Julianas, Sabrinas, Vivianes, que bombam seu corpo para se fazer parecer com 20 anos, para mulheres comuns como a gente? Qual é o efeito disso? Um sentimento de que estamos “erradas”.
Afinal, o que vemos nas rotinas dessas celebridades são mulheres que trabalham numa escala 6×1 para ficarem com o corpo absolutamente “jovem”, impecável, bombado, e totalmente modificado ao longo do tempo, que com certeza não foram moldados apenas à base de alimentação e exercício físico. Conforme matéria que encontrei na internet, especificamente para esse desfile de Carnaval, a Juliana Paes fechou contrato com uma empresa na área da dermatologia para efetuar procedimentos “tecnológicos”.
Além de nos deixar com a ideia de que nossos corpos estão errados, ainda ficamos com o sentimento de que precisamos aparentar cada vez mais juventude Performar. Performar. Performar. Isso é fomentar o Idadismo!
Existe limite?
E isso alimenta uma indústria dos absurdos, como ocorreu com a musa da bateria do Tatuapé, escola de São Paulo, Wanessa Félix, que “investiu” R$ 70 mil na retirada de quatro costelas para “brilhar” na passarela do Anhembi, conforme ela mesma conta, totalmente normalizado na matéria a respeito.
Como se já não bastasse a loucura pelas tais “canetas emagrecedoras” (Ozempic, Wegovy, Saxenda, Victoza, Mounjaro), que oferecem diversos riscos para a saúde e que podem levar à morte, li uma matéria sobre um outro “método emagrecedor” que me causou uma mistura de medo, asco e compaixão: mulheres estão comprando na deep web comprimidos com ovos de tênias. Compram no mercado clandestino, desprezando os problemas que o parasita pode trazer ao corpo humano. A pessoa até chega a emagrecer, porque a tênia se alimenta justamente do que o hospedeiro ingere. Um caso foi parar nas redes sociais, pois a jovem ignorou os primeiros sinais de que algo não estava dando certo no método — as cólicas estomacais — e acabou tendo danos no cérebro.
Toda mulher já teve seu momento de loucura em busca de um corpo ideal e compartilha histórias de amigas e conhecidas em busca dele. Sabemos o quanto essa perseguição causa sofrimento, danos à saúde e, até, dívidas.
O pior é que mulher alguma chegará lá, porque o padrão estético sempre mudará. Se ontem o ideal eram sobrancelhas finas, hoje serão grossas. Se ontem eram corpos curvilíneos, agora são magérrimos. E assim, muda o padrão das unhas, dos cabelos, dos cílios, nunca para.
O que não muda, até agora, é que a valorização da juventude, no corpo e na performance, é valor na sociedade. Todos querem.
O mercado é insaciável. Ele precisa lucrar sobre nossos corpos.
Por que a fisioculturista Monica Bousquet, que possui um corpo para competições, moldado pelo esporte, com barriga tanquinho e pernas super torneadas, sofreu ataques? Ela não está disfarçando a idade, ela é uma mulher de 63 anos enaltecendo a idade e a trajetória de vida que tem.
Ela mantém suas rugas no rosto e linhas de expressão. Ela não é vítima de tratamentos e procedimentos estéticos. Ela está mostrando, da maneira única que encontrou, o fisiculturismo, como está fazendo para viver mais e melhor. E isso requer mostrar o corpo, e isso também é subverter o que se espera de uma mulher, em especial o que se espera de uma mulher velha. Onde o que se espera é a invisibilidade, o recato, a discrição.
Daí que, inclusive, muitas de nós ficamos revoltadas com essa rebeldia, ousadia, “pouca vergonha” de manter rugas intactas, pelancas sem cirurgias, marcas na pele. Pois digo que precisamos de mais mulheres “sem vergonha” como a Mônica.
Não vejo ninguém reclamar de quando homens pelancudos e barrigudos saem a caminhar pelas ruas sem camisa, só de calção, esse é um direito que precisamos reivindicar pra nós mulheres!
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.
Foto da Capa: Younger - Netflix / Divulgação

