Você já parou para duvidar de uma versão sua do passado?
Uma versão que lhe parece ficcional, quem sabe uma possessão de alguma entidade?
Aquelas pessoas que eram você, mas ao mesmo tempo não eram, agindo de uma forma que lhe causa espanto e surpresa, muitas vezes amor e terror?
Eu canso de me surpreender com as Mônicas que existiram até aqui nesse Multiverso chamado passado.
Eu não estava acontecendo em diversos momentos, em várias dimensões, mas até que poderia ser, visto a estranheza de como eu acontecia.
Sou alguém que acha o seu alguém de antes bastante curioso e quase desconhecido, não pior ou melhor, mas com coisas piores e melhores.
Como fui cair dura, vestida de Mortícia Addams, bem em frente ao meu super crush, na festa a fantasia da minha melhor amiga, depois de entornar um Natu Nobilis, com mais duas amigas, dentro de um Fiat 147 amarelo, indo para a festa?
Detalhe aterrador: bebíamos no gargalo e eu dirigia tarde da noite.
Uma das amigas jamais soube se a festa estava boa ou ruim, ficou lá no banco traseiro do Fiat amarelo, toda brilhos, dormindo o sono dos copos, até o sol surgir e voltarmos para casa.
Dormi em uma cama dentro da casa.
Usando saltos agulha, afundei um deles e o meu próprio rosto na tenra grama que contornava a bela piscina.
Mesmo na minha alucinação alcoólica, lembro de estraçalhar qualquer chance com o garoto ao ver, há poucos instantes antes do tombo, a cara de desprezo dele perante o meu circo particular.
Uma Mortícia pra lá de embriagada.
Hoje consigo rir ao lembrar de me recompor, sentar no banco de jardim ao lado do vazio deixado por ele.
Hoje penso ter sido um livramento, pois o cara nem para ajudar?
E ainda estava sem fantasia, o chato.
Também nesse Multiverso, resolvi vender badulaques, com um cara sem senso nenhum do ridículo, contatando pessoas que eu conhecia, condescendentes, ao olhar o meu catálogo de cisnes, querubins e vasos de cerâmica.
Eu estava endemoniada, só pode ser.
E já falei que tive dois namorados ao mesmo tempo e que, ah que vergonha, um descobriu o outro dentro de um bar? E fiquei triste pra caramba por aquela Mônica desalmada ter magoado o Leonardo (esse era o nome, viu só me dói até hoje) e ele ter apenas sacudido a cabeça (linda e bondosa) e com um meio sorriso, abandonar a cena do meu crime.
Também desci do carro de um garoto que eu adorava, que era piloto (como meu pai).
Ele morava no Rio de Janeiro e, em uma das nossas saídas noturnas, parou para abastecer.
Encontrou um amigo que não via há tempos, deixou o carro e eu no banco do carona, parado ao lado das bombas, se sentou no capô do carro do amigo e ficaram ali brindando com suas cervejas long neck.
Nisso um táxi vazio parou do meu lado. Abri a porta e entrei.
Vejo, juro que vejo, até hoje os olhos arregalados dos dois enquanto eu passava por eles.
E assim, por puro ímpeto de brabeza, sepultei a minha paixão.
Todas essas versões moram dentro de mim, mesmo aquelas que se humilharam para ter carinho e atenção.
Aquelas que fugiram com o namorado, a irmã e amigos para uma festa na praia vizinha e arrebentaram o carro do pai da amiga em uma daquelas valetas de beira de praia.
Eu tinha só 14 anos.
Mesmo as versões mais lindas que tinham um amor infinito para conseguir caminhar noites inteiras com um bebê choroso perto do seio e junto do coração.
Casei aos 23 anos.
Eu era tão cheia de futuro, colágeno, brilho e esperança de que o mundo fosse mais suave do que era a minha casa.
Ainda vejo o dia pós casamento, em que eu acordei no hotel, antes de embarcar para a lua de mel, e olhei para a minha mão esquerda.
“Você é uma senhora casada.”
“Você pertence a algo”.
“A um homem”.
“E um homem pertence a você”.
Naquela ainda ingênua vontade de contos de fadas.
Se eu fechar os olhos agora ainda sinto o calor no peito ao olhar para o meu dedo vestido de dourado.
E depois comecei a virar outras pessoas, ainda continuam aparecendo novas e sei que isso vai durar até o dia em que eu fechar os olhos para sempre.
E o homem acabou virando outros também.
Mônica Becker Dahlem é publicitária, jornalista, escritora. Barbara, Frida, Caderno Literário Ajuris, Casos de Sucesso SEBRAE.
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Foto da Capa: Norma Morteson / Pexels

