Entro na estação
Estação rodoviária.
Estou ansioso.
Corro ao guichê.
Não ao que vende bilhetes,
ao que vende cigarros
Um maço de Cowboys Light, por favor
Analiso a frente do maço.
Com receio, viro.
Estampado,
o Natimorto.
Voo até a plataforma de desembarque.
Aguardo ansioso.
Tiro um pequeno bloco de notas.
Mentalizo:
o Natimorto.
Aguardo.
Estudo os novos arcanos.
Creio em meus pensamentos.
Ontem foi:
“A Rainha despreza o Rei pelo que sai de sua boca.”
E hoje me encontro aqui, esperando a cantora.
Mesmo advertido de que
“Em gestantes, o cigarro provoca partos prematuros e nascimento de crianças com peso abaixo do normal e facilidade de contrair asma.”
acendo um cigarro.
O celular anuncia o chamado, numa velha sonata.
Muita gente já teve alguma ideia engraçada e/ou cretina ao comprar seu cigarro e receber a caixinha com aquelas imagens grotescas e educativas sobre os malefícios do fumo (isso quando mais gente comprava cigarros, imagino, dado o quanto o tabagismo foi sendo socialmente menos tolerado nos últimos 20 anos, entre outras coisas pela lei que obriga os cigarros a trazerem no verso esse tipo de imagem, em campanhas desenvolvidas pelo Ministério da Saúde, desde 2002, prática, aliás, na qual o Brasil foi pioneiro). Alguns, fiéis à missão da arte de plasmar um pouco do espírito do tempo, resolveram levar isso para suas obras.
Talvez vocês não conheçam, mas há um filme. Não, há o filme sobre o livro do Mutarelli, do qual ainda falaremos, mas há outro. O autor deste texto assistiu, em 2003, enquanto trabalhava na cobertura do Festival de Gramado, à apresentação do curta-metragem No Bar, dirigido por Cleiton Stringhini e Paulo de Tarso Mendonça, e que captura com humor um pouco daquelas primeiras discussões a respeito das fotos nos versos das carteiras de cigarro. Um jovem freguês e uma senhora de certa idade (vivida pela maravilhosa Laura Cardoso) ficam enchendo o saco de um bolicheiro português enquanto querem escolher entre os cigarros disponíveis aqueles com as imagens menos terríveis. Há uma reviravolta que é pra ser engraçada, mas revendo hoje achei só meio bobinha. Em todo caso, vocês podem ver por vocês mesmos o curta na íntegra nesse link (dura oito minutos, talvez uns sete se vocês pularem os créditos).
Um dos elementos engraçados do filme é que ele funciona como uma câmara de preservação histórica, já que mostra em seus primeiros minutos alguns dos avisos de saúde mais populares do período – e hoje indisponíveis, dado que outras campanhas foram sendo apresentadas nos maços. Muitas dessas novas imagens, aliás, mais fortes e grotescas do que aquelas primeiras mensagens, que traziam fotos até bucólicas e acolhedoras, como a de uma mulher grávida ou de um pai e um filho em um momento de integração no qual o guri se sente encorajado a experimentar um dos cigarros do pai.
Chama a atenção que, no filme, a certa altura, o personagem do freguês jovem recusa o maço com a imagem do “bebê morto”, quando o bebê apresentado não estava realmente morto, apenas havia nascido prematuro. Não sei se essa mesma confusão não atacou uns tempos depois o escritor e quadrinista Lourenço Mutarelli, que também fez das imagens no verso das carteiras de cigarro o mote de seu romance O Natimorto. Eu não fumo cigarro, na época nem fumava cachimbo ainda, então posso estar errado, mas não me lembro de um natimorto entre aquelas primeiras imagens, e sim desse bebê prematuro, o que claramente não é a mesma coisa.
Mutarelli
Quando O Natimorto – o livro, não o maço de cigarros – saiu, ali pelo segundo semestre de 2004, Lourenço Mutarelli ainda era mais conhecido no nicho dos apreciadores de quadrinhos, como eu, também impressionado pelo seu traço barroco e maneirista. Na época, ele já havia publicado seu primeiro romance, O Cheiro do Ralo, mas a primeira edição do livro havia saído por uma editora que também ela era mais conhecida pelo público de quadrinhos, a Devir, e, de qualquer modo, ainda demoraria um par de anos até que esse livro em particular se tornasse amplamente conhecido após virar o filme do Heitor Dahlia com o Selton Mello.
Mutarelli lançou O Natimorto pela Editora DBA, em ótima companhia, em um momento em que a editora, especializada em livros de design, buscava se firmar como uma casa publicadora de ficções fora do tradicional, tanto as mais recentes quanto resgates e reedições de gemas esquecidas. Na mesma fornada de O Natimorto, a editora também largou Gozo Fabuloso, obra póstuma e inédita de Paulo Leminski; A Idéia de Matar Belina, uma coletânea com contos de um pioneiro da literatura policial no Brasil, Luiz Lopes Coelho – que eu mencionei, aliás, no meu texto do Eternauta umas semanas atrás (leia aqui) e Estudos de Interiores para uma Arquitetura da Solidão, contos intimistas da jornalista e escritora paulista Cecília Prada.
Nessa mesma série Risco: Ruído, que marcava a entrada da DBA no mercado de ficção literária, viriam a público ainda o mítico Phutatorius, de Jaime Rodrigues; o romance romeno Por que a Criança Cozinha na Polenta, da autora Aglaja Veteranyi; o primeiro romance de Daniel Pellizzari, o ambicioso, mas algo disperso Dedo Negro com Unha, e Cavernas & Concubinas, livro de contos curtíssimos de André Czarnobai, então famoso como Cardoso, criador do fanzine online CardosOnline. Era uma coleção com uma proposta bacana, mas que desceu pelo ralo (com trocadilhos, se quiserem) e foi interrompida em meio a vários problemas de distribuição. Demoraria anos até que a DBA retomasse seu projeto de publicar ficção, e aparentemente agora as coisas andam bem, mas confesso que a distribuição deles aqui em Porto Alegre ainda me parece algo problemática, já que achar os livros é meio complicado.
Oráculo
Mas voltando aos maços de cigarro: o lance é que Mutarelli faz das fotos antitabagismo (como vocês puderam ler no trecho lá do início, que agora vocês finalmente entendem o que é) o oráculo particular de um anti-herói desajustado no mundo e na própria pele, um sujeito ao mesmo tempo frágil e monstruoso, um escroto desesperado — um pouco como o protagonista de O Cheiro do Ralo, mas com uma certa ternura maior, digamos assim. Caçador de talentos musicais, o personagem tenta prever seu futuro (e o de seus empreendimentos) nas figuras macabras estampadas em maços de cigarro, associando-as com figuras do tarô.
Um dos aspectos mais impactantes do livro é o modo como essa aparente mania inocente compartilhada por muitos, como comentei no início, faz parte de uma estratégia desesperada do protagonista, um homem vulnerabilizado por um mundo cada vez mais áspero, de manter um mínimo de controle sobre a sua vida. O protagonista faz dos cigarros seu oráculo às avessas, transformando as imagens que o acaso lhe oferece na compra de um novo maço em uma forma retroativa de “ler” os eventos do dia como predeterminados, tirando assim o peso do absurdo cotidiano e da agressão miúda diária que sofre todos os dias (e que ele projeta na figura idealizada da cantora que decide agenciar e cuja voz ele — e este é o ponto importante que vocês vão entender lendo o livro, só ele — considera angelical).
O Natimorto também foi transformado em filme, dirigido por Paulo Machline, com Simone Spolladore e o próprio Mutarelli como o protagonista. Infelizmente, embora tenha se provado um bom ator em papéis coadjuvantes, ao ser encarregado de segurar a onda de um filme inteiro, Mutarelli não está à altura do texto que ele próprio escreveu e que ele muitas vezes declama como se o estivesse lendo em um jogral, e não interpretando em uma cena.
Naturallização
Com os anos, as campanhas dos versos de cigarros se tornaram tão naturalizadas que foram alteradas já mais de uma vez para garantir que o consumidor preste atenção na mensagem e não a naturalize. Aquelas primeiras campanhas do início deste século vinham emolduradas em um borda vermelha e tinham fotos que de início não eram tão chocantes. Já tivemos a era do “pé podre em fundo preto” e ainda há pouco circulavam versões mais recentes com a mensagem principal em uma faixa amarela larga em cima e embaixo e que, apreciadas na devida sequência, podiam ser elas próprias lidas como um miniconto: VOCÊ SOFRE, VOCÊ ENVELHECE, VOCÊ ADOECE, VOCÊ INFARTA, VOCÊ MORRE. Ano passado, foram substituídas pelo modelo corrente, que preserva os campos em amarelo com fotos comparando dois elementos em momentos “antes e depois” do cigarro. Abdicou-se dos verbos, também, e hoje os substantivos é que passam o recado: morte, agonia, sofrimento etc.
Sem a novidade de quando surgiram, as figuras nos maços de cigarros parecem hoje não despertar mais a curiosidade ou o interesse da ficção (ao menos que eu tenha visto). Pena. Adoraria ver algum dos autores contemporâneos com um pé naquela linha tênue que separa a comédia de costumes da comédia sexual apresentar uma novela bombástica com o título VOCÊ BROCHA.
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.
Foto da Capa: Reprodução

