Certamente você já viveu ou soube de fatos estranhos, que alguns chamam de acaso, outros de coincidência, e há quem tenha certeza de que são coisas do destino. Afinal, qual a diferença entre esses conceitos? Vou te contar dois fatos que eu não sei dizer se foram obras do acaso, coincidência ou coisas do destino. São situações que me levaram a pensar: será que somos autores ou atores nas nossas vidas?
Existem tradições religiosas, científicas e filosóficas que negam a existência de algum destes conceitos e explicam os “fatos estranhos” na sua perspectiva. O “acaso”, por exemplo, é descrito como evento que ocorre sem um propósito. As religiões negam o acaso, pois consideram que tudo ocorre pela vontade de Deus ou de uma ordem superior. Já a ciência e parte da filosofia olham o que parece aleatório e dizem: “isso decorre da ignorância das variáveis iniciais”, ou seja, existe uma causa que desconhecemos.
Já a coincidência, na perspectiva da ciência, seria uma probabilidade estatística que se realizou. Carl Jung chamou as coincidências de sincronicidades. Para as tradições religiosas, coincidências podem ser sinais, mensagens ou manifestações divinas.
E o destino? Há quem acredite que a nossa história já está escrita nas estrelas e, portanto, somos meros atores. Embora na visão religiosa existam diferentes interpretações, predomina esta visão, de que as coisas já estão traçadas, ou seja, existe uma força divina, cósmica ou natural, que conduz a vida em uma direção específica. Numa das visões filosóficas, nada está traçado, somos autores do próprio destino. Para a física quântica, os eventos ocorrem de forma probabilística, não determinista.
Bem, vamos aos “casos estranhos” que quero compartilhar com você. Eu conheço duas pessoas que participaram de uma eleição muito disputada, desgastante, em que o vencido ficou muito chateado e resolveu comprar um apartamento numa praia para relaxar e se afastar daquele ambiente. Na primeira semana, feliz com a nova vida, abre a porta do apartamento e quem ele encontra? O adversário! Se tornaram vizinhos de porta. O que seria isso? Uma ironia cósmica? Uma intervenção divina para forçar a reconciliação? Ou simplesmente uma das probabilidades possíveis?
Outra história: reencontrei uma amiga que eu não via fazia anos. Eu sabia que, depois de 20 anos de muita dedicação a uma instituição privada, ela havia sido demitida de forma muito desrespeitosa, ficou muito chateada etc. Fiquei feliz em reencontrá-la e saber que tinha conseguido outro emprego, que estava muito bem e feliz da vida. Conversa vai, conversa vem, me contou mais detalhes da história. Ela havia sido demitida pelo seu chefe, que viu nela uma sombra ameaçadora. Depois do trauma, ela renasceu, conseguiu um novo emprego e, com a indenização que recebeu, comprou um belo apartamento.
Você pode estar se perguntando: mas onde está a coisa estranha? Peraí, já te conto! Logo que mudou para o novo apartamento, passou a receber queixa do síndico e do porteiro de que fazia muito barulho na madrugada e estava incomodando os vizinhos. Sim, ela dormia cedo e se levantava às 5h da madrugada, se arrumava para sair e caminhava dentro de casa com salto alto. Eis que, certo dia, entra no elevador e dá de cara com o cara que a demitiu. Subiram juntos no elevador e o seu ex-chefe deixou o elevador no andar logo abaixo do seu. Era ele quem havia se tornado “ouvidor” dos barulhos noturnos e sentia-se “pisado” por ela todas as madrugadas. Coincidência cruel? Vingança do universo? Ou só outra probabilidade estatística se manifestando?
Bem, se só eu conheço duas situações que envolvem desafetos que se tornam vizinhos, não creio que sejam probabilidades estatísticas. Tenho outras histórias que aconteceram comigo e com pessoas que conheço, que podem ser atribuídas ao acaso, coincidência ou às forças do destino. Quando uma coisa boa inesperada acontecia, minha mãe dizia: “Foi o anjo protetor que apareceu naquele momento”. Às vezes, essa explicação basta, aquece o coração. Outras vezes, queremos mapas e fórmulas para decifrar o enigma.
Talvez não tenhamos mesmo a capacidade de entender estes “fatos estranhos”, e que eles aconteçam para nos mostrar que há um mistério na vida, e nos convidar para olhar o cotidiano com mais atenção, de forma mais leve e humildade. E você, como reage frente às coisas estranhas que acontecem com você?
Epitáfio (Titãs)
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar
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Foto da Capa: Freepik

