No reinício das aulas, acompanhei em grupos de WhatsApp dos quais faço parte muitas famílias preocupadas com a inserção de filhos diferentes no ambiente escolar. Neste contexto estão crianças e adolescentes que não correspondem aos padrões a que as escolas estão acostumadas e que precisam de uma atenção maior. Aqui vou falar especialmente de pessoas com nanismo. A preocupação passa pelo medo de que sejam ridicularizadas, marginalizadas e acreditem que não têm capacidade para acompanhar os colegas, o que pode intimidá-las e fazer com que desistam de suas escolhas. Mas afastá-las da convivência, escondê-las ou colocá-las em uma bolha, é negar uma inserção necessária para que esta condição não seja vista como um problema. O trabalho que precisa ser feito é coletivo e envolve os familiares, as escolas e as comunidades. Só a convivência cotidiana e a busca por acessibilidade, inclusão e respeito podem fazer com que essas crianças e adolescentes não tenham medo da sua diferença.
“Há quem olhe para os outros, inclusive para aqueles que não cabem nas caixinhas do padrão, com um olhar de menos-valia” – Altair Sousa.
O psicanalista Altair Sousa diz, com sensibilidade e sabedoria “que cada pessoa lida com o mundo a partir das próprias vivências. Há quem olhe para os outros, inclusive para aqueles que não cabem nas caixinhas do padrão, com um olhar de menos-valia. Atitude que diz muito mais sobre quem olha e julga do que sobre quem é julgado. Dificilmente alguém que nunca cultivou jardins dentro de si saberá apreciar flores. Não é sobre o que o outro é. Não é sobre as escolhas do outro. É, sobretudo, sobre o que essas escolhas despertam numa alma que ainda não aprendeu a lidar com as diferenças. E, sobretudo, sobre pessoas que, talvez, não tiveram a coragem de seguir os seus desejos”.
Aprender a conviver com as diferenças é fundamental. Portanto, diretores, professores e auxiliares de escolas precisam estar preparados para lidar com a diversidade sem espanto, buscando ajuda, é claro, mas jamais fugindo do compromisso de educar para a vida. E educar é descortinar horizontes, apontar caminhos, respeitar os limites de cada um, eliminar barreiras e todo tipo de discriminação. Só assim teremos uma educação libertária.
Enfrentei alguns problemas por conta do tamanho quando fui para a escola. Voltei para casa chorando no primeiro dia porque algumas crianças começaram a rir quando me viram. Mas meus pais, avós e tias, sempre atentos, enfatizaram que eu não precisava me esconder, mesmo com toda a minha timidez e o meu medo. Ensinamento básico e essencial porque assim não renunciei aos meus desejos e fui criando coragem para pisar onde queria e ir atrás dos meus sonhos, mesmo que o medo muitas vezes me fizesse companhia. Foi confiando na minha capacidade e nas minhas escolhas que cheguei à universidade, fiz o curso de jornalismo e encarei o mercado de trabalho. Entendi e assumi a minha diferença, não no sentido de me encaixar à lógica normativa, mas de enfrentar a discriminação e viver a minha condição com transparência. Comecei a ler muito sobre leis e questões relacionadas ao nanismo para entender melhor e, num determinado momento, decidi escrever sobre acessibilidade, inclusão e diversidade, o que foi, e é, libertador. Não é fácil viver o preconceito cotidianamente, mas como já disse muitas vezes desistir é um verbo que não cabe no meu dicionário.
Como canta o compositor Walter Franco, “tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”.
É o que faço cotidianamente porque o preconceito não dá folga.
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Foto da Capa: Reprodução / TV Clube

