Não entendo nada de astrologia, mas adoro. Não acredito acreditando, mais ou menos como faço diante de uma narrativa ficcional. Uma boa parte delas, a gente que escreve sabe, não é invenção. Tem um documentário sobre o poeta Manoel de Barros chamado Só Dez por Cento é Mentira. O cálculo é mais ou menos esse. Eu adoro dizer a verdade quando escrevo. Escrever é registrar. Documentar. Minha mãe, com seu temperamento cauteloso, dizia: cuidado com as palavras. Por que motivo exatamente não sei. Talvez porque eu escrevesse muitas cartas para minhas avós e falasse um pouco mal dela e da família. Um Nelson Rodrigues me habita. Ontem à noite, assisti ao filme Gêmeas, de 1999, baseado em uma história dele. Direção do Andrucha Waddington, roteiro de Elena Soarez, atuação da Fernanda Torres. Ela faz as irmãs Marilena e Iara, univitelinas em todos os sentidos, até uma delas se apaixonar por um homem e se negar a compartilhá-lo. Um lance pesado e um pouco excitante. Bom para o território das fantasias, principalmente as eróticas. Erotismo é um assunto que interessa a minha mente e ao meu corpo, uma demanda de ambos. Os livros Um Mais Além Erótico: Sade e A Dupla Chama Amor e Erotismo, do Octavio Paz, estão entre as minhas leituras recorrentes. Tal qual ele diz, também penso que o sexo é para todos, o erotismo para alguns e o amor para poucos, sendo o erotismo o sexo criativo, desprendido da função reprodutiva e da obrigação de um apego mais profundo. Eu não faço parte do time de mulheres, não quero falar em nome dos homens, que precisam mais de amor que de cama. Amor sem cama, para mim, é amizade. E por amigos não sinto desejo, mesmo quando admiro a beleza e o charme. Entre amigos faltam malícia e mistérios. Há confiança demais, revelações demais, uma espécie de irmandade. E irmandade não faz bem para relacionamentos. Todas as vezes que ela me pegou, o vento levou o que eu sentia. Perdi o interesse pelo cheiro, pele, voz, saliva, tudo da pessoa em questão. Uma pena, alguns dirão. Ou uma incompetência. Ou um jeito masculino de se estar no mundo. Vai ver, eu não sou tão feminina quanto pareço. Ou pouco me importo com padrões. Há muitos anos, uma astróloga dessas megarrecomendadas falou que, no meu mapa, eu era meio um homem. Não duvido. Como eu disse, não entendo nada de astrologia e não acredito acreditando, o que não é bom, nem ruim. É interessante.
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Foto da capa: do filme Gêmeas / Divulgação

