Água mole em pedra dura tanto bate até que fura, é o que diz o ditado aprendido lá atrás. Nessa terça-feira se celebrou o Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher. Como no geral acontece, foram divulgados muitos dados a respeito da violência contra a mulher, fruto de pesquisas e estudos a respeito do tema, lançadas campanhas e anunciados programas de combate ao feminicídio. Porém, pelo que indicam os números, estas estratégias não têm sido suficientes. Afinal, os dados de violência contra a mulher aumentam a cada ano e o Brasil vai ficando nos últimos lugares nos rankings entre os países de maior violência, de uma maneira vergonhosa.
Duvido da existência de uma mulher que nunca tenha sofrido algum tipo de violência. No que acredito é em mulheres que ainda não têm consciência das violências ou microviolências que sofrem, e as que são mais preservadas do que outras dessas violências. Mas todas somos alvos pelo fato de existirmos e sermos mulheres. Tempos atrás escrevi uma coluna sobre o “jogo da desigualdade” e muitas amigas e leitoras me trouxeram seus tristes depoimentos a respeito.
Sofremos violência sem perceber:
· Quando não podemos sair sozinha na rua, à noite, ou para uma viagem.
· Quando pedimos para a amiga avisar se chegou bem em casa, com receio de que algo tenha ocorrido com ela no caminho pelo fato de ser mulher.
· Quando amarramos a blusa na cintura para não deixar a bunda à mostra, porque isso pode parecer uma atitude facilitadora de violências.
· Quando pensamos que aprender uma prática de defesa pessoal é uma medida necessária para nossa proteção, em vez de investir numa prática de dança ou qualquer outra que nos faça sentir prazer.
· Quando deixamos de colocar uma blusa ou saia ou short porque achamos que ficamos “parecendo” fáceis e, assim, a gente busca uma peça no guarda-roupa que nos encaixe num padrão que não chame tanta atenção.
· Quando cuidamos para não beber do copo de alguém ou desconfiamos se alguém pode colocar algo em nossa bebida.
Que outro cuidado você acrescentaria para proteger mulheres contra as violências diárias que sofrem?
Eu, na minha posição de privilégio de mulher branca, classe média, hétero, perdi a conta das vezes em que, ao longo da vida, fui vítima de agressões em relacionamentos íntimos, no trabalho, em bares, calçadas, transporte público, etc. E olha que sempre me considerei uma mulher assertiva, preparada para situações incômodas e alerta. Mas fui e continuo sendo vítima porque sou mulher. E é reconhecendo-nos como vítimas de uma sociedade desigual porque machista, que somos capazes de ir em busca da mudança dessa conjuntura, em nível pessoal e coletivo.
No passado, mesmo sentindo desconforto, não percebia nem identificava as agressões. Credito isso à maneira como nós, mulheres, somos socializadas desde a infância, para sermos educadas, gentis, doces, cuidadoras, seres que devem buscar o bem-estar dos outros antes de nós mesmas, pessoas que precisam atender aos padrões de comportamento que se convencionou chamar de feminilidade.
Naquele passado, engoli situações em que estavam me colocando como objeto ou me desrespeitando enquanto interrompiam minha fala. Também permiti colocarem “gentilmente” a mão no meu ombro ou na perna ao solicitarem um novo projeto. Respondi que não, quando queria dizer sim, ao me perguntarem se pretendia engravidar na entrevista de emprego. Empurrei-o para longe e fugi do carro quando um rapaz com quem saía tentou me forçar a ir além do que queria, mas na época creditei a atitude dele à bebida que havia tomado. E essas foram algumas das poucas experiências.
Também no passado testemunhei uma situação da qual me arrependo até hoje. Na casa de amigos durante um jantar, começamos a escutar gritos de mulher e crianças: “Para”, “Não me bate”, “Para, pai”, “Não bate na mãe”. Todos chocados, o bate-papo parou por alguns segundos. Perguntei o que achavam de ligar para a polícia, ao que me responderam que aquele fato era corriqueiro na família, não valia a pena se incomodar. Eu me afundei no sofá mais um pouco, e me deixei ficar. Os gritos duraram mais um pouco e pararam, mas a conversa já havia retomado. Até hoje me embrulha o estômago pensar que não chamei a polícia para atender aquela mulher e suas filhas. Seus gritos ecoam em mim. Tudo isso aconteceu numa casa maravilhosa em um bairro de altíssimo padrão, de uma família composta por um casal e duas filhinhas loiras e lindas.
Felizmente, o tempo passou e fui aprendendo, de todas as formas. Saber sobre feminismo foi uma delas. E depois que a gente aprende a ver, não consegue mais “desver”.
Semanas atrás, enquanto caminhava cedinho da manhã, chamaram minha atenção os gritos de um casal na rua. Percebi que ele estava ameaçando-a. Se mexeu com uma, mexeu com todas. Fui até lá, ofereci minha ajuda para ela, pedi a ele que se acalmasse. Não resolveu. Então, chamei a Polícia Militar (190), ou Brigada Militar, como chamamos aqui no RS, que agiu prontamente. O casal estava em situação de rua. Ele ficou detido, pois estava desrespeitando uma medida protetiva. Para ela, no entanto, não souberam indicar nenhum espaço para acolhimento. Aí está um desafio que precisa de solução. De que adianta a coragem de denunciar se depois não há políticas suficientes para apoio dessa mulher agredida?
Nesse sentido, todos os esforços que hoje se fazem para a diminuição dos índices de feminicídio contra a mulher eu acho válidos e importantes. Porém, precisamos focar em prevenção se quisermos solucionar o problema. Ah, mas demora, é um trabalho de longo prazo. Isso mesmo. Afinal, até chegar ao feminicídio, é sinal de que a relação foi escalando de maneira que ela passou, não necessariamente por todos, mas com certeza por alguns dos tipos de violência, como a psicológica, financeira, patrimonial, sexual, física, até a morte dessa mulher por parte do seu agressor. Por isso é preciso enxergar a questão comportamental no longo prazo.
Por isso é aspecto essencial o letramento das mulheres a respeito dos seus direitos, de como identificar os tipos de violência com a finalidade de criar consciência e a coragem de sair delas. Aos homens, esse mesmo letramento é fundamental também. Sem a participação da sociedade como um todo, não se avançará no processo.
Nesse sentido, é necessário incluir a educação e o diálogo com crianças e adolescentes sobre a necessidade de igualdade entre homens e mulheres em casa, no trabalho, no cotidiano, para eliminar o machismo na sociedade.
Igualmente importante é o trabalho com agressores de mulheres, com o objetivo de ressocialização e tentativa de que não venham a fazer futuras vítimas, repetindo e ampliando o ciclo de violência.
Minha vida está atravessada por histórias de desigualdade e violências contra a mulher. Por causa da realidade em que vivemos, sei que ainda temos muito para construir. Ainda assim, cocriar um futuro em que homens e mulheres possam viver com equidade de gênero acredito que seja possível.
Muitos têm medo desse mundo em que o machismo será uma ordem do passado. E qualquer coisa que se faça contra isso, para esse grupo nos tornamos suspeitas, nocivas para a sociedade, pois lembra que nós, mulheres, podemos ser livres e ter autonomia sobre nossas vidas. Mas fica um spoiler: juntas seremos ouvidas, juntas mudamos o que precisa ser mudado.
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Foto da Capa: Freepik

