Gosto de compartilhar as coisas boas que encontro. Já citei várias vezes nos meus textos as ideias da filósofa Lúcia Helena Galvão e do psicólogo Rossandro Klinjey, e agora encontrei o diálogo deles dois no podcast “Alma Talks”. Neste encontro, Lúcia Helena faz perguntas para Rossandro e eles vão trazendo para a conversa mensagens de grandes pensadores. Recomendo muito que você assista na íntegra este episódio. Para aguçar a sua curiosidade, compartilho aqui partes dessa conversa na qual eles falam sobre Deus, sabedoria, humanidade, valores e o comportamento do indivíduo.
Quando Lúcia Helena questiona Rossandro sobre a sua visão de Deus, sua resposta é simples e direta: “Deus é um sentimento amoroso que sustenta toda a vida no universo, que não aponta nossas quedas, mas que dá a mão para levantar”. Um enorme contraste com a visão que reduz o Sagrado a um meio para conquistas materiais, ou pior, a uma propriedade exclusiva de grupos! Isso nos leva a perguntar: usamos o nome de Deus para unir ou para excluir? Para acolher ou para julgar?
Falando sobre a vida e a humanidade, eles comentam que diariamente a vida nos oferece o caos e a dignidade, desejando que a gente possa escolher a dignidade e ser fator de soma na vida das outras pessoas. Rossandro conta que, quando uma antropóloga foi perguntada sobre o achado que poderia ser considerado o início da civilização humana, em vez de citar o domínio do fogo, a pedra lascada ou alguma outra coisa que a história nos conta, ela mencionou um “fêmur cicatrizado”. Segundo a antropóloga, quem quebrava uma perna era deixado para trás como boi de piranha, morria por não conseguir mais escapar dos predadores e prover sua alimentação. Foi quando alguém cuidou de quem sofria que o homem se tornou humano. Lúcia Helena lembrou que, por muitos anos, os cientistas acreditaram que a razão do sucesso dos Sapiens era que eles teriam o cérebro maior do que os Neandertais. Hoje se sabe que o que garantiu a sobrevivência dos Sapiens foi porque eles eram colaborativos e enquanto os Neandertais eram individualistas, viviam cada um por si.
Falando do nosso comportamento, Lúcia Helena chama a atenção para o fato de que hoje as pessoas não querem crescer, evoluir emocional e eticamente. Muitas pessoas se veem como uma “obra pronta”. Consideram suas limitações e instabilidade emocional como sentenças perpétuas. Rossandro acrescenta que ninguém nasce com compaixão, nós a desenvolvemos. As virtudes são como os músculos, precisam ser desenvolvidas exercitando. Evoluir é como diz a composição “Maior”, de Dani Black e Milton Nascimento:
Eu sou maior do que era antes
Estou melhor do que era ontem
Eu sou filho do mistério e do silêncio
Somente o tempo vai me revelar quem sou.
Rossandro lembra ainda que todo crescimento pessoal gera algum tipo de perda de pertencimento. Alguém que deixa de beber terá problemas no relacionamento com os seus amigos que continuaram bebendo. Tem um conjunto de forças que tentam impedir que uma pessoa evolua. Mas, quanto mais consciente a pessoa estiver de quem ela é e do que quer para a sua vida, melhor será a sua própria companhia.
E o que seria, afinal, sabedoria? Rossandro respondeu: “É o uso que eu dou ao que eu aprendi, com propósito”. Aqui eles discutem a diferença entre intelectualismo, que geralmente é associado ao conhecimento acadêmico, e a sabedoria, que popularmente é atribuída a alguns idosos. Lúcia Helena diz que o intelectualismo sem aplicação não serve para nada. Sobre a diferença entre o intelectual e o sábio, considera que quanto mais intelectual a pessoa for, tende a ser mais arrogante. Por outro lado, quanto mais sábia ela for, tende a ser mais humilde.
Chego ao final dessa imersão nesta conversa com ideias tão profundas, onde somos convidados a contemplar nossa própria condição: não um monumento acabado, mas sim escultores da nossa própria existência. Assim, poderemos aprender com nossas limitações e fazer a escolha consciente pela dignidade. Que o nosso crescimento e sabedoria nos guiem para exercitar diariamente o músculo da compaixão e aceitar as perdas decorrentes das nossas escolhas. Quanto a Deus, que não seja nossa fonte dos desejos, mas o braço que nos ergue quando tropeçamos nas nossas imperfeições.
Referência:
- Podcast Alma Talks – Lucia Helena Galvão e Rossandro Klinjey – Filosofia para Viver -EP#006
- “Maior”- música de Dani Black e Milton Nascimento.
Todos os textos de Luis Felipe Nascimento estão AQUI.
Foto da Capa: Reprodução do Youtube.

