Para Luís Augusto Fischer, que o instigou.
Para Freud, a narrativa pode ser a representação finalmente consciente, depois de percorrer tanto caminho inominado. A chegada ao símbolo, enfim. Mas Freud é um narrador aberto e vale também para ele a narrativa como brincadeira da criança, mesmo no adulto. E brincam de quê? Do que precisarem.
A criança – Freud ainda – precisa brincar da angústia de se separar da mãe, iludindo-se um pouco mais, durante a ausência, de que a volta não tardará ou até mesmo já aconteceu. Quanto ao adulto, cada um terá a sua necessidade particular nesta brincadeira, mas é bastante comum que seja lidar com a morte. Um narrador enorme, grande amigo de Freud, o Romain Rolland, chegou a escrever que “escrever mata a morte” e que, no fundo, todos os seus colegas brincam disso.
Não houve psicanalista importante que não deu, direta ou indiretamente, o seu pitaco sobre o que narrar significa. Melanie Klein, uma das criadoras da psicanálise na infância, retomava a rota da formação de símbolos, necessidade maior de toda mente humana e curiosa, posta em equações. Em meio a respostas impossíveis, restaria narrar, com direito a integrar, nesta posição contante, o contraditório de nossos sentimentos em relação primeiro ao seio da mãe e, depois, a ela toda.
Para Donald Winnicott, a narração era uma das grandes pontes necessárias entre o bebê e a mãe para que essa ajude aquele a se desenvolver, uma ponte transformada, mais tarde, em espaço (potencial) para se separarem. De acordo com Wilfred Bion, a vitória do pensamento, onde quando, finalmente, depois da ajuda de alguém (a mãe de novo, devaneando), conseguimos digerir o impensável. Na esteira dele, um escritor seria aquele que já pôs para dentro essa função materna e pode agora pensar sozinho, com direito, nos melhores casos (os mais lidos), a converter-se até mesmo na mãe de um suposto leitor, a quem ajudará a pensar.
Quanto a Jacques Lacan, a narrativa é apenas toda a sua obra, ou seja, o inconsciente percebido como uma linguagem com todos os seus utensílios entremeados: o real, o simbólico, o imaginário. Logo vemos que narrar interessa a todos os psicanalistas que, desde Freud e Breuer, vivem disso, acreditando ainda que todo sopro de alguma cura possível passará pela linguagem (a “talking cure” ou cura pela palavra).
Felizmente, linguagem e narrativa que se prezem são abertas, insaturadas. Nada as desvenda, fazendo com que a gente siga lendo, ouvindo, narrando, escrevendo. A todas essas, somos todos Sherezades contumazes, construindo juntos a ilusão de adiar o fim do mundo. Na pior das hipóteses, estaremos nos preparando para ele, por mais que não se mate uma morte.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

