Estamos em pleno festejo natalino. Para muitos, trata-se de uma festa dos cristãos católicos ou de denominações religiosas que adotam o cristianismo como confissão. Para mim, não obstante sua importância religiosa e as memórias afetuosas que essas datas evocam em minha vida, é um momento histórico extremamente significativo.
Imagine, amigo leitor, uma jovem judia humilde, prenhe, e um José qualquer do povo, andarilhando de terra em terra, buscando observar a prescrição legal do recenseamento. Sem apoio e abrigo, acabam assistindo a sua criança ser parida numa estrebaria. Agora, ponha-se a pensar que esse guri, contrariando toda expectativa de sua época, torna-se um grande líder de seu povo e defensor de seus direitos fundamentais. Quando nos concentramos a refletir sobre o Jesus histórico, visualizamos um judeu crescendo numa sociedade agrária sob o domínio romano, não pertencente às elites dominantes. Digamos, num ambiente hostil e profundamente opressor, forjou uma interpretação inclusiva do judaísmo, anunciando um “reino” cuja regra principal era a vida plena e digna. Sua vida coerente e comprometida o levou à máxima penalidade ordenada pelo governador Pilatos: a morte de cruz.
O historiador Alex Bohrer defende que “hoje, nenhum grande pesquisador defende a não existência de Jesus”. Apresenta-o como um andarilho pobre, um campônio que incluiu mulheres e empobrecidos em seus discursos – um homem deveras fascinante. Sobre esse menino, Fernando Pessoa escreveu: “Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava”.
Ele é o humano que é natural, Ele é o divino que sorri e que brinca e, por isso, é que eu sei com toda certeza que Ele é o Menino Jesus verdadeiro.” E o retirante nordestino a escutar o anúncio novidadeiro “Compadre José, compadre, que na relva estais deitado: conversais e não sabeis que vosso filho é chegado? Estais aí conversando em vossa prosa entretida: não sabeis que vosso filho saltou para dentro da vida? Saltou para dento da vida ao dar o primeiro grito; e estais aí conversando; pois sabeis que ele é nascido.”
Afinal, o que mesmo celebramos com pompa, sob um céu iluminado de lâmpadas a piscar e milhares de presépios exibindo um bebezinho branquinho, corado e gorducho, envolto em mantos alvos? O que se esconde por trás da intensa troca de presentes que sobrecarrega o velho Noel e comovem os espíritos mais sensíveis? E o que dizer, então, do templo sacrossanto do capital – onde com certeza jamais entraria, ou seria parido, o menino de Zé e Maria – a empreender promoções que seduzem as turbas, mobilizadas pelo “sentido do Natal”? O que comemora? O intenso investimento de municipalidades no intento de atração de turismo e captação de recursos… Festejam o quê?
Aí lembramos a simplicidade do recém-nascido, que um dia agradeceu ao Pai por ter escondido coisas – a sabedoria, a exemplo – aos sábios e entendidos, e tê-las revelado aos pequeninos (Mt 11, 25). A propósito, a jovem Maria reconheceu que Ele “olhou para humildade de sua serva” (Lucas 1, 46-48). Mira, amigo que me lê: estamos diante de uma cena que coloca em questão o nosso mais nobre sentimento: uma mulher dando à luz nos escombros marginais no mundo dos que se dizem humanos e, paradoxalmente, uma criança a quem não resta espaço digno de recepção no mundo da vida. Ele será o tal Jesus de oposição.
O que celebramos, então? Talvez nossa vulnerabilidade. Quem sabe, a fragilidade de nossa suposta humanidade. Para a cristandade, é a chegada do Deus-menino tornado homem, como entendeu Santo Atanásio: “Deus se fez homem para que o homem se tornasse deus”. Diz Filipenses (2,7): “Deus toma a nossa semelhança humana, torna-se igual a um homem, para nos tornar semelhantes a si mesmo”, ou seja: trata-se de uma convocação à participação na natureza de “divina” de Deus. Seria isso? Poderia ser a demonstração cabal e inequívoca de nossa dignidade?
O pimpolho assemelhado a tantas e tantas crianças pobres e excluídas que nascem aos montes todos os dias, que padecem de tudo, que morrem aos milhares sem sequer nos incomodar, continua a lançar seu lamento persistente nos recantos obscuros da existência. Não seria a poesia do cocho um apelo eloquente à desgraça que condena tanta gente? É uma monstruosa verdade: perdemos a sensibilidade ao grito dos empobrecidos. Fazemos festas, damo-nos as mãos, partilhamos achados e conquistas… sempre com nossos pares. Saramago, em seu “Ensaio sobre a Cegueira”, reconhece que “uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”. Estamos cegos nesse pandemônio de individualismo e consumismo que nos preenche. Somos surdos e silenciosos quando o imperativo é defender o empobrecido.
A festa do Natal é um convite ao encontro amoroso entre as pessoas, de solidariedade com os sofredores. É um momento de comensalidade em que o pão da vida clama pelo fermento social do afeto traduzido em condições objetivas para uma existência saudável e digna. Como lembra Luc-Ferry “em tempos de desumanização, é lembar-se de cuidar de si, do outro e do mundo”.
O Jesus histórico – homem da resistência e da luta – é motivo da celebração de todos. O Deus-menino, na simplicidade de sua chagada, na escolha de genitores oriundos das classes populares, anuncia a vida nova e o homem novo que só a justiça será capaz de inaugurar.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

