“Eu calço eh 37/ meu pai me da 36.” Raul Seixas
Entre os fenômenos mais impressionantes desta vida, consta a velocidade do crescimento de um filho. É realmente supersônica. Hoje, dizemos 5G. Piscas um olho e vapt: já não mamam. Piscas o outro e vupt: menos gengivas e todos os dentes no lugar. Ou, pior, os donos da boca não querem mais entrar no carrossel. Pouco mordem por fora, mas por dentro é só questionamento. E não adianta fechar os dois olhos: eles não desejam mais andar de mãos dadas, especialmente se podem ser vistos neste estado mimoso para um espectador e intragável para eles. Pode ser irreversível.
Dia desses, um fez cara de nojo para o que eu mostrava. Eu ainda era a mesma pessoa capaz de apontar o frescor de cada descoberta, a poesia de toda prosa, o alumbramento. Depois, fez ouvidos moucos para o que eu contava. Justo ele que, há não muito tempo, considerava-me o maior dos oradores. Chegava a imitar meus gestos, minha voz. Gostava de ouvir que parecia a minha miniatura. E só não me aplaudia porque não era um teatro. Era a vida em si, em perfeito estado de um filho admirando o pai, sem a necessidade de demonstrações explícitas.
Agora, segue o seu caminho, dono de seus passos. Se vacila, se olha para o lado, não estou ali. Se estou ali, perdi o estado de exemplo. Já torce, e não para o time que eu torço. Já vota, e não no partido em que eu voto. Não crê no que eu creio e argumenta, solidamente, a própria crença a ponto de me fazer duvidar do que estou crendo. Se aponto Deus, vê o diabo, e vice-versa. Mas o tempo é tão veloz que até isto serenou. Ainda ontem, quando eu insistia em uma bobagem qualquer, passou a mão na minha cabeça como eu passava na sua, há não muito tempo. Depois, alcançou-me carinhosamente um copo d’água, como tantas vezes eu fiz para ele, anteontem ainda. E, quando eu discordei com veemência de outra bobagem qualquer, aquiesceu com inédita paciência.
Vejo em meu rosto a rota tresloucada do que o tempo faz com afinco e furor. O espelho, memória atenta, conta-me tudo. Mas nada vinca tanto quanto um filho em movimento. Ainda ontem, sonhei que eu corria atrás dele na pracinha, perto de casa. Estranho, porque a casa não existe mais. Nem a pracinha. Acordei com o celular gritando. Era o filho perguntando sobre a consulta para o meu joelho. E, mesmo que a sua voz já fosse grave, a saudade acalmou como no tempo da voz fina. Até me deu uma vontade de voltar a correr atrás dele, em qualquer pracinha, nem que com um joelho só.
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