O primeiro registro escrito que se tem em português do termo “nepotismo” data, ao menos é o que me informa o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de Antônio Geraldo da Cunha, do século XVIII. Sua origem está na palavra latina “Nepos”, que significava “neto”, mas cujo sentido foi gradativamente também se ampliando para incluir “sobrinho” – principalmente após o período de Augusto, no qual a palavra “nepotes” era usada para quando um homem de posses mas sem filhos adotava os filhos de seu irmão ou – mais comum – irmã e os tornava seus herdeiros…
Numa sociedade como a que temos no Brasil, somos, infelizmente, bastante familiarizados com o termo, mas mesmo se não fôssemos, saber a origem do termo seria o bastante para intuir seu significado: alguém que obtém vantagens devido a suas conexões familiares com alguém que ocupa uma posição de poder ou influência. E, curiosamente, a acreditar no que dizem as gerações mais novas, em um tom alarmista bastante específico dos jovens, esse talvez seja o principal problema do mundo artístico e cultural contemporâneo.
Nepotismo gerou a expressão muito bem sacada Nepo Baby, que, com seu poder de síntese de seu significado, logo tomou lugar no discurso corrente com ainda mais força do que palavras que o pensamento político recente tornou slogans, como “mansplaining” ou “gaslighting“, com a vantagem de que, ao contrário desses outros termos, que precisam de um processo de tradução e contexto para fazerem sentido a um neófito, Nepo Baby é muito fácil de compreender intuitivamente, embora tenha sido cunhado primeiro em inglês. Qualquer sociedade de terceiro mundo sabe o que é nepotismo, e vivemos em um mundo de hegemonia colonial americana, de modo que a palavra “baby” já está praticamente incorporada ao nosso próprio idioma há décadas.
Contexto
Agora, a discussão que a palavra levantou precisa sim de algum contexto. Basicamente, a partir ali do início dos anos 2020, a internet olhou em volta e descobriu, como se fosse uma grande novidade, que uma das maiores indústrias audiovisuais do planeta, a dos Estados Unidos, estava tomada de jovens talentos que eram filhos de alguém com fama e/ou conexões, tornando seu caminho muito mais fácil em um ecossistema árido para quem está começando. Em um ambiente de mídia em que o jornalismo foi entregue ao formato abastardado das “listas” popularizadas por aquele veículos de triste memória como o Buzzfeed, logo a coisa escalou de discussões no Twitter para compilações de como o futuro da indústria do cinema pertence aos “nepo babies”: Maude Apatow, estrela de Euphoria, filha de Leslie Mann e Judd Apatow; Maya Hawke, de Stranger Things, filha de Uma Thurman e Ethan Hawke; Lilly Rose-Depp, do recente Nosferatu, filha de Vanessa Paradis e Johnny Depp; Zoe Kravitz, de Pretty Little Lies, filha de Lisa Bonet e Lenny Kravitz; Jack Quaid, de The Boys, filho de Meg Ryan e Dennis Quaid; Lewis Pullman, de Thunderbolts, filho de Bill Pullman; Margaret Qualley, de A Substância, filha de Andie McDowell; Patrick Schwarzenegger, de White Lotus, filho do Exterminador do Futuro em pessoa (vocês sabe e eu sei que aqui eu usei um truque bagaceiro pra não ter que escrever aquele sobrenome duas vezes); Dakota Johnson, a Madame Teia, filha de Melanie Griffith com Don Johson – e enteada de Antônio Banderas. A lista pode seguir indefinidamente porque esses são só os exemplos mais famosos – e, portanto, os que eu conheço. Se você me disser que falta um monte de gente nessa lista que eu não fiquei sabendo, você provavelmente está certo.
A discussão sobre por que esse tipo de jovem talento representa um problema vem imbuída em um espírito presente nas “grandes discussões” de Twitter, uma combinação de uma insuspeita seriedade de fundo com uma certa fachada superficial – afinal, quem se importa com atores?
Mas o fato de esses atores serem hoje uma grande parte do rosto público da indústria de cinema dos Estados Unidos deixa a nu um problema que é considerado estrutural: esse nepotismo, por mais que muitas vezes os envolvidos garantam não ter havido “interferência” dos papais e mamães famosos na carreira do jovem prodígio, bom, a própria genealogia já trabalha a favor. Maya Hawke, por exemplo, antes de estourar em Stranger Things, foi escalada para um papel pequeno como um dos abobados da Família Manson em Era uma vez… em Hollywood, de Quentin Tarantino. Qual terá sido a extrema dificuldade de conseguir uma audição com esse prestigiado e inacessível diretor que fez três filmes com a mãe dela, Uma Thurman – e que, aliás, manteve com essa atriz em particular uma relação tão próxima que provavelmente viu Maya crescer?
Homogeneização
O resultado é uma homogeneização do perfil de jovens astros – algo que espelha outras indústrias visuais mundo afora. O escocês James McAvoy já comentou em uma entrevista recente como a paisagem dos intérpretes britânicos de sua geração foi dominada por egressos do topo da pirâmide social, vindos de escolas de elite e com um histórico familiar de luxo e privilégio – talvez seja isso que explique, por exemplo, a visão algo estereotipada que uma das pessoas oriundas desse grupo, Emerald Fennell, atriz e diretora, tem do choque de classes – expressa em Saltburn.
Embora essa pareça uma questão estrangeira que em nada afeta a sempre periclitante cinematografia nacional, mesmo Fernanda Torres precisou endereçá-la durante as entrevistas de sua campanha pelo Oscar de Melhor Atriz. Mas, no caso dela, o fato de estar concorrendo aos prêmios internacionais que sua mãe disputou com um filme do mesmo diretor três décadas antes ajudava a enquadrar a questão de forma menos problemática – isso e o fato de que Ainda Estou Aqui era um representante de um cinema periférico no contexto global – embora não seja nada periférico no contexto brasileiro.
Fiquei fascinado pelos desdobramentos desse debate, não pelo que ele discute, mas pelo que ele deixa de fora.
O não dito
Não acho que haja nada de fundamentalmente errado na forma como o debate vem sendo enquadrado. Hollywood vive uma crise de criatividade que leva às repetições desesperadas pelo que deu certo antes, sejam personagens e franquias de sucesso anterior comprovado, sejam refilmagens para um público contemporâneo de produções em janelas de tempo cada vez menores. Que isso se estenda aos elencos parece seguir a mesma estratégia – que é pautada, como aparentemente qualquer pauta furada contemporânea, pela força dos algoritmos.
Considerando a proliferação de mídias e canais dedicados aos aspectos mais mundanos e superficiais do cinema enquanto indústria, escalar para um filme um ator que tem laços familiares com alguém muito conhecido ajuda a criar de antemão um buzz que ocupa espaços na mídia sem nem precisar desembolsar jabá, veja só. É de se perder a conta, por exemplo, quantas são as notícias veiculadas por sites famélicos de cliques sobre como qualquer uma dessas crias se parece com seus pais famosos.
Aqui entra um pouco da minha má vontade pessoal com a forma como a internet está matando o jornalismo. Qualquer um que trabalhe no ramo sabe os critérios tradicionais para veiculação de uma notícia: fatos fora do comum, personagens fora do comum, temas de grande e ampla importância, informações cotidianas úteis ou coisas que despertam a curiosidade de um grande número de pessoas. Ok, por esses critérios, celebridades de cinema se enquadram entre “personagens fora do comum”, mas antes de se espalharem os sites online de enrolação 24 horas com sua necessidade infindável de conteúdo, havia um certo entendimento tácito de que coisas banais não eram notícia mesmo quando aconteciam com pessoas fora do comum – isso, claro, voou pela janela ainda antes do Caetano estacionar o carro no Leblon. Considerando que partimos do consenso básico de que celebridades são pessoas – e não alienígenas reptilianos, como acreditam partes das bolhas do delírio extremista radical contemporâneo – submetidas aos mesmos processos biológicos comuns à maioria de nós, luto muito para entender por que alguém se parecer com os pais biológicos é notícia, quando essa costuma ser a norma para a grande maioria dos habitantes deste planeta. Novas interpretações sobre genética são, claro, notícia, mas os fatos mais básicos da biologia não deveriam ser.
O que me chama a atenção nesse assunto, como eu disse, não é o que está em debate, é a forma como a discussão foi apropriada, como praticamente tudo hoje em dia, como uma cortina de fumaça da guerra cultural – o que se expressa no que fica de fora da polêmica.
Notícias sobre a proliferação de Nepo Babies começaram a circular ali a partir de 2021, e logo foram anexadas a uma espécie de programa da direita americana para expor a chamada “hipocrisia liberal”. Pela ótica desse tipo de crítica, Hollywood, de onde partiram duras críticas à ascensão de Donald Trump, adora apontar as desigualdades e privilégios alheios, sem olhar para o próprio umbigo – é fácil querer políticas mais inclusivas e menos privilégios enquanto ainda existe um mecanismo nobiliárquico em ação para garantir que a neta do Charles Chaplin tenha uma carreira (o exemplo nem é hipotético, a moça se chama Oona Chaplin e até é boa atriz).
E sim, é uma crítica válida, mas a onipresença desse assunto na mídia, com a cunhagem desse termo que, como eu disse, em termos comunicativos e expressivos é muito bem-sucedido, concentra a questão do nepotismo familiar na indústria cultural e parece não olhar para o campo dos nepo babies por excelência: a política.
Prioridades
Me parece menos grave que o filho de Jason Momoa esteja escalado para o próximo Duna pela proximidade de seu pai com Denis Villeneuve, mesmo sem ter experiência alguma, do que o papel fundamental que os dois filhos mais velhos de Donald Trump ocuparam na sua gestão anterior e ocupam nesta. Aqui mesmo no Brasil temos o caso de um ex-presidente golpista que não apenas parece não ter aprendido nada de nada sobre assuntos do país em três décadas de vida política como também encaminhou para o mesmo campo seus três filhos inúteis (com um quarto tentando ir pela mesma vereda). Não são poucos os políticos que tentam se beneficiar não apenas de seu sobrenome vinculado a um político de popularidade, mas às vezes o fator “júnior” se estende ao nome completo – o caso recente mais emblemático sendo o ex-prefeito de Porto Alegre Nelson Marchezan Jr.
Filhos de atores, diretores e músicos terem a vida fácil para lançar seus próprios projetos é, a seu modo, um problema com seus desdobramentos específicos. Mas acho que, no topo das atuais prioridades, estou mais preocupado com o tanto de filho, júnior, neto e até sobrinho que está se apresentando para ocupar um cargo pago com dinheiro público e conseguindo emplacar a narrativa fofinha de “continuidade e tradição”….
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.
Foto da Capa: Dakota Johnson / Divulgação

