“Uma imagem vale mais que mil palavras”, a frase atribuída ao filósofo chinês Confúcio serve à perfeição quando nos referimos a Frank Netter.
Qualquer um que já tenha aberto um livro de anatomia para estudar ou apenas curiosidade de saber onde fica o baço ou entender como se dá a circulação do sangue deve ter visto uma ilustração feita por esse médico que abandonou o estetoscópio e ajudou muito mais doentes ensinando através de seus desenhos.
Para gerações de estudantes de medicina, o nome Frank Netter tem uma conotação quase mágica. A própria filha, Francine Mary Netter, em sua biografia Michelangelo da Medicina, relata um episódio na Universidade de Georgetown: “Quando ele falava, os alunos aplaudiam e se levantavam. Os alunos nunca o conheceram… mas sentiam que ele era seu professor. Seu mentor.”
Faça um teste. Se nunca ouviu falar sobre ele, pergunte a um médico o que Netter representou em sua formação. Provavelmente a resposta virá com uma boa dose de empolgação e grata memória. Ele “desenhou” a medicina com uma precisão tão impressionante que se dizia poder confiar mais nas suas ilustrações do que em exames da época.
Frank Henry Netter nasceu em Nova York, em 1906. Era um prodígio artístico que começou copiando quadrinhos na papelaria dos pais. Aos 11 anos, ele estava determinado: queria ser artista. Mas a vida tem seus caprichos. Seu pai morreu cedo, e sua mãe, querendo uma carreira “respeitável” para o filho, desencorajou a arte. Ele não desistiu. Enquanto cursava a escola pública, frequentava as aulas noturnas da prestigiosa Academia Nacional de Design. A escola era rigorosa: obrigava os alunos a estudar a figura humana por 10 minutos e só então desenhá-la, de memória, treinando a acuidade visual que se tornaria sua marca registrada.
A carga da promessa familiar se tornou ainda mais pesada quando sua mãe faleceu. Relutante, mas determinado a honrar a memória materna, matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Nova York. Fez estágio no famoso Hospital Bellevue e chegou a integrar o serviço cirúrgico ambulatorial do Hospital Monte Sinai.
Na faculdade, o artista pulsava mais forte que o doutor. Ele fazia anotações de anatomia com lápis de cor, descobrindo que aprendia melhor o assunto desenhando. Seus colegas e professores logo lhe pediram cópias. Foi nesse período que se casou com sua primeira esposa, Mary MacFadyen, uma colega de classe frequentemente retratada em seus primeiros esboços.
A decisão final veio logo após a formatura. Havia mais demanda por seu pincel de zibelina do que por seu bisturi. Netter praticou a medicina brevemente, mas, como médico recém-formado, ganhava pouco. Culpado por passar mais tempo desenhando do que atendendo, armou uma “armadilha” para si mesmo: cobrou US$ 1.500 por uma encomenda que normalmente valeria US$ 50. O cliente aceitou. Naquele momento, ele percebeu: fazer imagens era mais lucrativo do que atender pacientes. Em 1934, após apenas um ano como médico, ele viu seu último paciente e fechou o consultório para se dedicar integralmente à ilustração médica.
Sua formação dupla era uma vantagem inestimável. Netter sabia o que precisava ser visto e como simplificá-lo. O impulso definitivo aconteceu em 1937, com a Ciba Pharmaceutical Company. A empresa, buscando fornecer um serviço à comunidade médica com materiais educacionais, aproveitou o poder de suas imagens. A primeira encomenda — ilustrações para vender digitais — fez tanto sucesso que a Ciba o contratou com exclusividade por mais de 50 anos.
Netter se tornou o motor por trás dos famosos Clinical Symposia e, entre 1949 e 1991, produziu 15 atlas coloridos, hoje conhecidos como Netter Collection of Medical Illustrations. O Atlas de Anatomia Humana, que ele chamou de sua “Capela Sistina”, é uma obra extraordinária.
Ele foi um artista prolífico, criou mais de 4.000 ilustrações. Seu trabalho não se limitou a livros didáticos. Durante a Segunda Guerra Mundial, desenhou manuais que ensinavam as tropas a salvar vidas em campo. Netter também foi responsável pela “Mulher Transparente”, uma escultura em 3D inovadora para a Exposição Golden Gate de 1939.
Seu processo de trabalho era de uma disciplina rigorosa. Usando aquarela opaca ou guache e seus pincéis de pele de marta, ele planejava a imagem, consultava especialistas e esboçava em papel de seda. Passava muito tempo planejando a pintura em si, usando a técnica de começar com as cores escuras e progredir para os tons mais claros, era a parte mais rápida. Buscava a humanidade na doença. Ele descreveu a manobra de Heimlich, o procedimento de primeiros socorros no caso de um engasgo, numa gravura didática que ajudou a salvar vidas, e o sinal de Levine, quando uma pessoa interrompe suas atividades e leva a mão ao tórax, típico da angina pectoris. Na ilustração icônica, um senhor de certa idade sobe escadas ao sair de um restaurante; segura o peito em sinal de dor. Na neve que tapa o chão, um cigarro. Sem palavras, estão ali alguns dos fatores de risco para a doença coronariana. O esforço físico após uma refeição possivelmente farta, o choque com o dia frio, o tabagismo.
Netter costumava dizer que os médicos não consertam máquinas, mas sim seres humanos vivos e respirando. Seus retratos de pacientes — de crianças pungentes a pessoas com condições médicas específicas — não eram apenas sobre a doença, mas sobre a pessoa com a doença.
Metódico, fazia seus desenhos das 7h às 17h, com uma pausa para o almoço, e voltava ao trabalho à noite. “O papel em branco diante do artista exige a verdade e não tolera áreas em branco ou lacunas na continuidade”, dizia ele. Era descrito como charmoso, humilde e divertido.
Netter faleceu em 1991, aos 85 anos. Perto do fim, sua paixão pela precisão pictórica não diminuiu: ao descobrir um tumor e depois um aneurisma da aorta, ele pediu aos cirurgiões que guardassem a peça cirúrgica para que pudesse desenhá-la.
Hoje, suas ilustrações são de propriedade da Elsevier, e seu legado vive na The Frank H. Netter MD School of Medicine, da Universidade Quinnipiac, em Connecticut, Estados Unidos.
Não só desenhou o corpo humano; ele o explicou, humanizou e tornou acessível. Um verdadeiro artista, conseguiu ser mais do que respeitável, como queria a sua mãe. É considerado um novo clássico entre os melhores artífices da ilustração médica, ao lado de Leonardo da Vinci, Andreas Vesalius e Max Brödel.
Frank Netter demonstrou que nem só de lições escritas, de artigos e extensos tratados se faz o aprendizado, há também bons livros “de figurinhas” que ajudam a qualificar o ensino médico.
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Foto da Capa: Montagem do Autor

