O escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald disse à escritora Gertrude Stein, nascida também nos Estados Unidos, mas criada na França, que é fácil seduzir os velhos. Essa frase está no livro Paris França, que ela começou a escrever no verão europeu de 1939, um pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial, em que morreriam mais milhões de jovens, mas não quero falar sobre conflitos bélicos neste momento. Deveria porque, enquanto escrevo e você me lê, em onze países, homens, mulheres e crianças vivem sob violência, terror e morte.
Gertrude Stein, para quem pouco sabe sobre ela, ou nada mesmo, foi a mulher mais influente no meio intelectual parisiense da primeira metade do século XX. Frequentavam a sua casa e o seu coração artistas como: Pablo Picasso, Salvador Dalí, Ernest Hemingway, todos homens inteligentes e talentosos. Talento é uma das coisas mais intrigantes da espécie humana. Os outros animais, mesmo os mamíferos, não têm talento para nada. “Não é que eu seja muito inteligente, é que fico mais tempo com os problemas”, disse Albert Einstein. Por certo, brincava. A minha existência seria vergonhosa se cálculos matemáticos dependessem dos meus neurônios. Por algum motivo, no pacote do meu DNA, quem dá as caras são as palavras.
Gertrude Stein tinha fascínio pelas palavras de uma sílaba. De vez em quando, me pergunto por que alguns vocábulos precisam de mais, enquanto uma dá conta dos significados de, por exemplo, mãe, pai e pão. Os três, de certa forma, fontes de alimento em nossas existências, como a escrita e as nossas famílias, que, por vezes, queremos esquecer. Talvez, para ter algo de peso para depois lembrar. Não sei.
“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, escreveu o russo Liev Tolstói em Anna Karenina. “Na França, a vida em família nunca é tão vivida em família quanto nas férias. A família é sempre a família, mas, durante as férias, é uma família ampliada e isso é exaustivo”, escreveu a Stein. Que atire a primeira pedra quem nunca se irritou com uma frase a mais ou a menos da sogra, do irmão, do pai, do sobrinho, com o latido do cachorro, e acabou perdendo a paciência e indo no ‘rim’ de alguém. A pior coisa que um ser humano poderia fazer contra um parente, segundo o meu pai, era dizer a ele algo cruel. Bondoso o meu pai. E puro. Não sei se viu o filme Parente é Serpente, do Mário Monicelli. Eu vi e revi. Não que eu tenha algo contra a instituição família. Tenho e estimo a minha do meu jeito, o que não implica necessariamente vínculos constituídos por laços de sangue.
Annie Ernaux, escritora francesa contemporânea, escreve, com frequência, sobre o seu núcleo familiar e essa coisa idealizada de ter de se identificar e pertencer a um grupo de iguais, dentro do padrão ‘sangue do meu sangue’ e outras declarações excludentes e segregadoras. Se não estou enganada, na Bíblia, no livro do Êxodo, está o mandamento que diz: “Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá”, como se todos os pais e mães merecessem o apego e o respeito dos filhos e das filhas, essas, volta e meia, abusadas e violentadas justo por quem deveria protegê-las de todo o mal.
Aqui, no nosso país tropical e abençoado por Deus, de acordo com matéria da Agência Brasil, no período de 2021 a 2023, foram registrados 164.199 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes até 19 anos, sendo 87,3% dos registros de vítimas do sexo feminino. Em 2023, houve uma média de uma ocorrência a cada oito minutos. E quem foram os agressores? Os dados indicam que 67% das meninas foram violentadas dentro de casa, em 85,1% das vezes por um familiar, quase sempre o pai ou o padrasto, que, não raro, responsabilizaram a vítima pelo desejo e impulso sentidos, tal qual tenta o personagem Humbert Humbert, do romance Lolita, escrito pelo russo Vladimir Nabokov.
Para Humbert Humbert, a culpa do que sente é de Lolita, doze anos no início do livro, e de uma outra menina, Annabel, a quem ele define como ‘primordial’ por ter sido seu ‘primeiro amor’, uma garota morta antes que eles pudessem consumar o seu relacionamento. Portanto, uma falta, mesmo ele sendo um homem de meia-idade e um velho em relação à Lolita, impossível de se superar. Vem da ausência de Annabel, ele alega, a sua obsessão por meninas. De ninfetas, Humbert Humbert as chama. Como as ninfas retratadas na mitologia grega, irresistíveis sedutoras de deuses, quanto mais de mortais, Lolita, para ele, é que é a vilã. Argumento bastante usado, a gente sabe, para a cafajestice e patifaria institucionalizadas pelo patriarcado e os senhores de suas perversões.
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Foto da Capa: Atriz Sue Lyon como Lolita, no filme de Stanley Kubrick (1962)

