“Acho muito perigoso para um artista tentar corresponder às expectativas dos outros. Acredito que, quando fazem isso, geralmente produzem seus piores trabalhos. Outra coisa que eu diria é: se você se sente seguro na área em que está produzindo, então não está trabalhando na área certa. Vá sempre mais longe na água do que acha que consegue, vá um pouco além da sua profundidade. E quando sentir que seus pés já não tocam o fundo, você está no lugar certo para criar algo excitante”, disse o David Bowie em uma entrevista não sei para quem. Não que o entrevistador não mereça ser nomeado, mas é que vi esse trecho em uma rede social e, como todos sabemos, a vida nela acontece em pedaços.
A vida na Internet é uma espécie de Frankenstein, dos dois — criador e cria —, programada para dar certo e para dar errado, o que me fascina no sentido de sermos todos feitos para cometer inúmeros acertos e erros até o momento de sermos desconectados da existência ou descontinuados se não tivermos, tal qual o narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas, meu Machado de Assis favorito, transmitido a nenhuma criatura o legado de nossa miséria. “Miséria é miséria em qualquer canto, riquezas são diferentes”, os Titãs cantam no disco Õ Blésq Blom, de 1989. E o que esse título quer dizer? Confesso que até hoje eu não sabia.
Segundo a ferramenta de pesquisa a que mais recorro, em uma língua inventada por um casal de amigos dos músicos, significa “os primeiros homens que andaram sobre a Terra”. Jorge Drexler também pensou sobre eles. Percebe-se que hoje acordei musical. Escrevo ainda de manhã. Talvez meu pesadelo tenha sido com trilha. Atravessei a madrugada sonhando que os conflitos bélicos que atingem ou já atingiram o planeta tinham finalmente alcançado o meu ‘quarto catedral’, lugar em que me rendo à ilusão de que há um seguro.
Canta Drexler: “Apenas nos pusimos en dos pies/Comenzamos a migrar por la sabana/Siguiendo la manada de bisontes/Más allá del horizonte/A nuevas tierras, lejanas/Los niños a la espalda y expectantes/Los ojos en alerta, todos oídos/Olfateando aquel desconcertante paisaje/nuevo, desconocido”. E depois disso, nos conta a História, era após era, da pré-história até agora, que o maior festival a que comparecemos é o das desumanidades. O ser humano é uma máquina de fazer o mal, arrivista e instrumentalizado para a mecânica do trucidamento de tudo e todos que se colocarem em seu caminho, incluindo a si mesmo. De vez em quando, em momentos de devaneio, não esqueçam que sou uma escritora, em frente ao espelho, convoco as Helenas que menos acesso em mim, reprimidas, em grande parte, por merecimento, para questionar o meu pequeno mundo de desenvolvimento e de liberdades.
Não sou o que pareço. Para o bem e para o mal, ninguém é, ainda mais podendo contar com um tempo tão breve de anos. Minha mãe costumava me dizer: ‘Ah, se eu soubesse aos dezoito anos o que sei agora’. Provavelmente, alguém da sua família também disse essa singela, mas relevante frase. Se houvesse um túnel capaz de nos levar para o passado, eu optaria por me visitar em uma época em que eu não havia feito ainda as escolhas irreversíveis por desencadearem e se prenderem a outras e mais outras, me fechando em um modo menos criativo de se estar e de ser quem sou. Não é à toa que o “Ser ou não ser, eis a questão”, dita por Hamlet, na peça homônima, de William Shakespeare, se tornou mundialmente repetida. Eu a escuto quase como a uma canção.
E eu, que venho pensando tanto sobre feminilidade e feminismo e que me deparo com falas violentas de outras mulheres sobre ser feminina, como se o feminino fosse um defeito e uma invenção de um Adão nascido antes de Eva, de verdade, um pai de todos os outros igualmente capazes de criar algo que não alcançam nem em dimensão orgânica nem psíquica, recebi também, agora de manhã, o link para a música A Masculinidade, do Luis Capucho, um artista pouco conhecido dentro do sistema perverso em que a cultura sobrevive e um exemplo de que é possível separar a crítica da violência, como fez o Jards Macalé, que via, no amor, um gesto político e, na arte, uma parceria compatível com a transição do fundo do poço para o fundo do posso. Verbo poder. Provavelmente, o lugar, como disse o Bowie, em que os pés já não tocam.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

