Nunca imaginei servir de exemplo para ninguém. Minha vida sempre me pareceu comum, meus gestos corriqueiros demais para que alguém quisesse imitar meus passos. Eu, no entanto, já fiz isso inúmeras vezes. Tentei ser igual às pessoas que conheço, quis me vestir como elas, copiar trejeitos, adotar manias. Repeti gestos, desejei gostar das mesmas coisas, cercar-me dos mesmos amigos. Fiz isso tantas vezes e com tantas pessoas que já não consigo lembrar todos os nomes em quem busquei me espelhar.
Sempre soube que projetar-se nos outros é algo típico da adolescência, mas nunca acreditei que esse hábito se restringisse a uma fase da vida. Mesmo agora, na maturidade, ainda me flagro me espalhando em outras pessoas. Esse gesto me alimenta, sobretudo nos momentos em que não sei para onde ir nem como sustentar escolhas. As feitas e as que precisam ser feitas todos os dias. Seguir exemplos é bom, mas nada se compara a ouvir que nossas atitudes inspiraram alguém a se tornar quem é. Essa revelação faz o esforço de levantar da cama diariamente ganhar sentido.
Outro dia, minha irmã me contou sobre coisas que passou a fazer inspirada em mim. “Eu te imitava em tudo”, disse. Ouvi isso justamente quando eu duvidava do valor da minha vida e achava que nunca tinha feito nada de bom. E, ao olhar para a mulher bem-sucedida que ela se tornou, senti-me realizada. Suas referências foram desde o programa de rádio que eu ouvia até a profissão que escolhi, passando pelo hábito da leitura, pela paixão pelo rock e até pelo breve, fracassado desejo de tocar violão.
Recordo-me de encontrá-la várias vezes no meu quarto, mexendo nas minhas coisas. Quase sempre acabava em briga, mas nunca em algo capaz de nos afastar. Temos nove anos de diferença, mas sempre estivemos conectadas, talvez pela convivência inevitável entre irmãs. Ela foi a irmã que esperei durante quase toda a infância, não para brincar comigo, mas para que eu pudesse cuidar dela e, de certa forma, guiá-la, sem perceber o tamanho dessa responsabilidade. Hoje entendo: enquanto eu apenas tentava descobrir quem era, ela já me observava com olhos atentos, copiando gestos, gostos, manias. Eu era só uma jovem tateando a vida, e ela, mesmo criança, colava em mim como quem coleciona pistas de um mundo ainda indecifrável.
Lembrei dessa relação ao ler Rosa & Violeta, da escritora porto-alegrense Clara Corleone. O livro, publicado pela L&PM em 2024, acompanha duas irmãs muito diferentes, mas atravessadas por dores semelhantes. Rosa, a primogênita, vive em luta com o próprio corpo, entregando-se a dietas doentias e travando um conflito constante com a mãe. O pai, amoroso e bem-sucedido, é o elo que a aproxima da irmã. Já Violeta, mais madura para a idade, mantém boa relação com a mãe, que deixa claro ter nela sua filha preferida.
Com a morte repentina desse pai, único eixo afetivo do núcleo familiar, a convivência já tumultuada entre as irmãs se torna insustentável. Rosa, cada vez mais voltada para si mesma, não consegue oferecer apoio quando a irmã pede ajuda. A falta de empatia, seguida por uma tragédia, deixa nela cicatrizes profundas e quase irreparáveis.
O romance de Clara Corleone não fala apenas da difícil relação entre irmãs, mas também da marca do machismo estrutural na sociedade brasileira, que insiste em colocar mulheres umas contra as outras, transformando cumplicidade em rivalidade, quando o que realmente poderia salvá-las seria justamente o contrário: a união. Talvez por isso o livro tenha me atravessado tanto: porque, ao contrário das personagens, eu e minha irmã aprendemos a transformar as diferenças em afeto. Nem sempre foi fácil. Brigamos, discordamos, nos afastamos em alguns momentos. Mas nunca houve entre nós espaço para rivalidade. Houve, sim, espaço para o aprendizado mútuo, para a partilha silenciosa de gostos e gestos, para a admiração que não precisa ser dita em voz alta, mas que sustenta a vida inteira.
No fim das contas, percebo que minha irmã não apenas se inspirou em mim. Ela também me deu um sentido maior de existir. Porque, se às vezes eu não sei muito bem quem sou, sei pelo menos quem fui para ela.
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