Não quero me reunir com as amigas para falar da minha aparência, do meu peso ou da minha idade. Muito menos trocar ideias sobre maquiagens ou produtos de beleza que só me cobrem com uma camada a mais de silêncio quando o que mais desejo é gritar.
Não gasto mais o meu tempo percorrendo lojas físicas ou virtuais em busca da roupa mais bonita, mais sensual, mais desejável. Escolho visitar bibliotecas, livrarias, museus ou qualquer outro lugar que me ajude a afirmar a minha verdadeira identidade.
Não me seduzem dietas milagrosas, cirurgias invasivas nem o esforço exaustivo em academias na tentativa de alcançar um corpo que não reconheço como meu. Silicones, cílios postiços, botox, peelings e outros procedimentos estéticos nunca estiveram entre os meus objetivos. Não cabem no meu bolso, nem na minha história e muito menos nas minhas prioridades.
Escapo de uma roda de conversa quando os assuntos se limitam aos melhores produtos de limpeza, aos métodos infalíveis para tirar manchas de roupa ou aos cuidados com a casa, embora lavar, cuidar, organizar também façam parte da minha rotina.
Nem sempre estou interessada em falar sobre gravidez, parto, maternidade ou sobre o segundo filho que ainda insistem em me cobrar. Às vezes eu quero apenas me desvencilhar dos rótulos que tentam, constantemente, colar em minha pele.
Quero falar de política, de economia, de problemas sociais. Quero opinar, intervir, sugerir sem que isso seja visto como afronta ou inconveniência. Sem precisar me desculpar ou pedir licença para ocupar um espaço que, por costume, ainda é dominado pelo masculino.
Não quero que falem da minha imagem, da roupa que visto, dos bens que não possuo. Prefiro chamar a atenção pelo que penso, escrevo e pelo quanto amadureci ao me tornar quem realmente sou.
Não vou mais me esconder atrás das convenções nem das regras de boa conduta que me ensinaram como obrigação. Há muito tempo deixei de ser a boazinha, a menina de família, quietinha, certinha, educada demais para não incomodar. Não evitarei parecer malcriada se essa for a única forma de soltar a minha voz, nem me manter calada diante de tudo que me aborrece.
Dispenso a manipulação disfarçada de cuidado, os conselhos carregados de preconceito, os falsos votos de felicidade. Não aceito mais a divisão entre as que podem ser julgadas e as que devem ser respeitadas. Priorizo o desconforto da autonomia à tranquilidade de uma proteção que, em troca, sempre cobrou silêncio.
Renuncio ao tom baixo na fala, ao sorriso discreto e a tudo aquilo que me disseram não ser coisa de mulher. Não quero mais caber em lugares pequenos, quero existir inteira, com a voz que tenho, no volume que for necessário, mesmo que isso desagrade.
Quero me espelhar e me somar a outras mulheres. É nelas que busco a coragem que, por vezes, me falta. Mulheres batalhadoras, exigentes, sinceras. Mulheres que escrevem, sentem e transformam em palavras aquilo que por tanto tempo nos mandaram calar. Mulheres que apoiam, falam de si e encontram inspiração umas nas outras. Mulheres que não odeiam mulheres e não enxergam como rivais as suas semelhantes.
Por isso, minha primeira leitura de 2026 só poderia ter sido um livro escrito por uma mulher. Em Minotauras, a porto-alegrense Lígia Sávio escreve com o corpo inteiro seus poemas nada suaves que expõem, sem rodeios, o desejo de romper com o labirinto construído e sustentado por séculos de patriarcado. Ao avançar pelos versos, reconheço esse percurso estreito de paredes altas e saídas vigiadas, e me deixo atravessar por um eu lírico que recusa o lugar imposto, questiona a lógica social e religiosa que insiste em tratar o masculino como medida de todas as coisas.
Minotauras é a ruptura das imposições. É um convite à escolha consciente pela liberdade e pela vida. Para tornar visível essa tensão que percorre o livro, recorro ao poema “Minha deia”, um dos meus favoritos:
Não me conformo
com a forma
que me impõem
forma
aparência
acessível
agradável
dispensável
acessória
maternal
parental
familiar
assexual
no ágon da vida
quero ser
a principal
a que imola
a que mata
a que foge
no carro dos deuses
não me peçam
pra não latejar
Em versos curtos, o poema condensa o que sustenta toda a obra: a recusa em ser moldada para caber em padrões, a rejeição do lugar secundário e a afirmação de um corpo e de uma voz que já não aceitam domesticação. Nas paredes do labirinto há marcas deixadas por outras mulheres que passaram antes, feridas abertas que ainda sangram. Saí desta leitura sem respostas, porém mais atenta e disposta a continuar na mesma estrada: lendo, apoiando e me inspirando nas tantas mulheres que encontro no caminho.
Todos os textos de Andréia Schefer estão AQUI.
Foto da Capa: Lígia Sávio / Acervo Pessoal.

