Terminado o expediente, eu estava voltando para casa. Já era noite escura. Voltava a pé, pois, fazia um tempo, havia me organizado para isso, depois de mudar o endereço de trabalho. Era julho, ou seja, fazia um frio de encarangar qualquer caminhante, e eu caminhava em Porto Alegre. No meio do caminho, tinha um homem. Ele escarafunchava uma caçamba de lixo. Ele não estava encarangado, pois se mexia muito para fazer o seu trabalho. Em meio aos destroços fétidos que saíam através de suas mãos, apanhava o que lhe parecia aproveitável e deixava no chão, ao lado do filho, uma criança pequena, sentada na calçada. Depois enfiava tudo num saco plástico enorme que, mais tarde, carregava em suas costas. O menino não estava mal abrigado. Tinha até uma touca de lã. Que amenizava o frio que poderia sentir, mas nem tanto o que eu sentia por estarem ali, naquela hora, escarafunchando o lixo, e não em uma casa quentinha, como alguma daquelas coloridas, na rua Liberdade.
Lembrei-me de que, a oito quadras dali, eu contava com um teto, bastava cruzar a Goethe e andar mais dez minutos. Encontraria uma sopa de capeletti. E a lareira à espera de lenha e nó de pinho. Ele me deu um boa noite caloroso, depois contou-me que se mudou fazia pouco, de Matias Velho para uma pensão na Voluntários da Pátria. Disse que era meio submundo, mas estavam bem. Revezava-se com a mulher para trabalharem, ele saiu com o “maiorzinho”, enquanto ela ficou em casa com os pequenos. No dia seguinte, invertiam.
Eu retribuí o boa-noite, ouvi com atenção a história toda e perguntei se podia ajudar. Ele respondeu que sim, e a mensagem foi clara. Mas quem, hoje em dia, levava dinheiro na carteira? Abri a minha e senti que Deus, ausente até então, estava de volta. Sem que eu me lembrasse, havia uma nota de 20 e uma de 5 na minha carteira. Perguntei se estava bem para ele, pois tinha dúvidas mesmo do tamanho daquela ajuda. Ele abriu um sorrisão e disse que era uma enorme duma ajuda. Que eu não imaginava o quanto ele precisava juntar para conseguir aquilo. Depois, começou a dar detalhes do quanto e precisou falar um monte.
Não me senti dando esmola. Sabia que ele era um trabalhador, eu estava só ajudando, porque podia oferecer aquela ajuda e ele podia aceitar. Mas eu já não conseguia ouvir os detalhes de quanto ele precisava juntar para chegar aos 25, pois doía demais ser tanto e estava muito frio para quem não escarafunchava o lixo. Demos um boa noite de despedida e, olhando para o Cauã, saí pensando na minha filha que, a essa hora, estava dentro de um avião, no outro lado do mundo, acumulando a dor da minha saudade.
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Foto da Capa: Acervo do Autor.

