Foi postado em diversas redes sociais, jornais, grupos de whats o texto abaixo, com pequenas variações, sobre uma definição para chamar pessoas acima dos 60 anos “ativas”, criada na área de marketing: NOLT, New Older Living Trend ou Not Old Like That.
Idadismo, presente!
Frente ao sucesso do texto, fiquei refletindo sobre o caminho árduo que ainda temos para eliminar o idadismo na sociedade brasileira.
O que é Etarismo, Ageísmo ou Idadismo
Idadismo, Etarismo ou Ageísmo são palavras sinônimas para o mesmo fenômeno social que assombra a sociedade e que se manifesta como estereótipos (como pensamos), preconceitos (como sentimos) e discriminações (como agimos) com relação a (qualquer) idade (da infância à velhice).
Esse fenômeno pode se manifestar de diversas maneiras, no geral, de maneira negativa, mas também se manifesta de forma positiva:
– Pessoas idosas são estagnadas, lentas, enquanto que jovens são ativos e curiosos.
– Pessoas idosas são mais sábias do que as jovens.
– Jovens são mais bonitos que pessoas mais velhas.
– Crianças não sabem o que falam.
– Adolescentes são rebeldes;
– Pessoas jovens são mais inteligentes.
– Pessoas idosas são infantis, tornando-se “cada vez mais crianças e dependentes” quanto mais velhas ficam.
– Jovens gostam mais de festas do que pessoas mais velhas.
– Pessoas idosas são maduras e as jovens imaturas.
– Jovens são alegres e inquietos, cheios de vitalidade, enquanto que pessoas idosas são cansadas, ranzinzas, deprimidas.
– Pessoas mais jovens são saudáveis.
– Envelhecer é adoecer.
Por conta dessas crenças e da maneira como nos sentimos, nosso comportamento com relação a nós mesmos e com as outras pessoas é regido. Vamos bater o olho nas pessoas e julgá-las para determinar como nos relacionar. Na medida em que iremos decidir se são mais “joviais”, portanto, mais curiosas, ativas, bonitas, saudáveis, inteligentes, serão mais bem avaliadas. Na nossa sociedade, ser perfeito é buscar a juventude, a jovialidade.
Assim, na nossa sociedade, reconhecer-se uma pessoa que envelheceu, ter carimbado o “rótulo de idoso”, é motivo de vergonha.
Procuram-se novos nomes, Perenials, Ageless, NOLT, Melhor Idade, Maduros, outros tantos, para se nominar essa pessoa que envelheceu, pois Velha e Velho, Idosa e Idoso, carregam o sentido verdadeiro que a sociedade não quer aceitar: o do envelhecimento.
E, nessas novas nomenclaturas, também encontramos o idadismo; suas palavras demonstram a dificuldade de aceitação da velhice. Elas mascaram a velhice.
E de novo, de novo, de novo (lembram dos Teletubbies?): diversidades das velhices!
Quando citamos 50+ ou 60+, precisamos lembrar e considerar que também estão aí incluídos os 70+, 80+, 90+, 100+, e cada uma dessas faixas etárias tem suas próprias características, genericamente. Porém percebo que poucos fazem essa relação, pensando apenas pela “base”.
Quando tratamos de diversidades de velhices, precisamos considerar que temos uma maioria de mulheres, negras, pobres (aposentadas ou recebendo BCP), urbanas, periféricas. Mas não apenas essa maioria, há toda uma diversidade socioeconômica, religiosa, de gênero, neurodiversa, com deficiências, entre outras características.
É importantíssimo considerar que todas essas características são transversais e se interseccionam. Somos heterogêneos.
No texto diz o seguinte: “Os NOLTs voltam a estudar, aprendem novas tecnologias, fazem cursos, iniciam uma segunda ou até terceira graduação. Muitos abrem novos negócios, empreendem, mudam de carreira ou transformam antigos sonhos em projetos reais. Não esperam mais “o tempo passar”; fazem o tempo acontecer.
São pessoas que cuidam da saúde, da mente e das emoções. Viajantes, leitores, voluntários, criadores, líderes de grupos, mentores e aprendizes ao mesmo tempo. Encaram desafios com maturidade, mas também com coragem — aquela coragem que só quem viveu bastante desenvolve.”
Considerando as diversidades das velhices e a falta de políticas públicas (acesso a moradia, saúde, educação, acessibilidade, transporte…), vale lembrar que, entre os 34 milhões de pessoas acima dos 60 anos no Brasil, a grande maioria não consegue acessar um estilo de vida como o descrito no texto sobre os NOLTs.
Os Nolts
As tentativas de libertar as pessoas idosas de paradigmas negativos sempre são bem-vindas. Afinal, o idadismo é justamente o fenômeno social que julga as pessoas com base na idade, prejudicando-as por isso. Porém, vejo com muito cuidado a forma como isso é feito.
No entanto, minha percepção com relação a essa nova definição do NOLT é a de que coloca as pessoas 60+ numa caixinha de onde nunca saíram, a de que precisam performar um papel jovial.
Outra percepção foi o desejo de retirá-las do “rótulo de idoso”, negativo na avaliação do texto, para colocá-las num outro rótulo, pretensamente melhor, o de “NOLT”, mas ainda assim, uma gaiola, uma etiqueta estereotipada.
Fiquei com uma dúvida: E quem não performar como um NOLT? Será rotulada como pessoa idosa? Pessoa “carregada de ideias ultrapassadas sobre limitações e fim de ciclos”?
Dos limites e fim de ciclos
Se há algo que se torna muito presente com o envelhecimento, e talvez seja esse um dos principais marcadores dele, é a percepção do limite e do fim de ciclos, do tempo de vida que resta aos pais, do fim de um casamento, da saída dos filhos de casa, do fim da saúde dos joelhos e articulação dos quadris, da menopausa, do aumento dos efeitos do álcool na gente.
Quem envelhece convive diariamente com diversos “marcadores de tempo”, nos comprimidos da caixinha de remédio que aumentam, no número de médicos anuais que cresce para fazer seu check-up, nas oportunidades do mercado de trabalho que rareiam até sumir, com as notícias de amigos e parentes que adoecem ou que partem dessa para melhor.
Todos que envelhecem, e tomara que todos nós fiquemos bem velhinhos e com saúde, sentirão os efeitos dos limites e fins de ciclo. A diferença está em como lidar com eles: com otimismo, gentileza, aceitação, humildade, raiva, prepotência, isolamento?
Uma das grandes lições a serem aprendidas no envelhecimento é que, mesmo fazendo tudo que é possível ser feito, alimentação saudável, atividade física, sono, boas conexões sociais, ainda acontecerão perdas e os limites irão se impor sobre a gente, mas que – apesar deles – poderão haver propósito, haver projetos e haver muita vida. Se a gente persistir.
A ironia disso é que a pessoa tanto mais irá lidar melhor com seus limites e finais de ciclo quanto melhor aceitar seu envelhecimento e a condição de “idosidade” dela.
Old is beautiful
Individualmente, nessa sociedade idadista e que preza tanto a juventude, aceitar o envelhecimento e acolher a “idosidade”, chamar-se de Velha e Velho com orgulho, é um ato revolucionário de rebeldia e coragem.
Brasil afora luta-se em grupos de idosos, universidades, fóruns, conselhos, coletivos, movimentos, para que pessoas idosas se apropriem de suas identidades e velhices.
Enquanto isso não ocorrer, será mais difícil os processos de conquista de direitos já constituídos, como moradia, saúde, acesso à cidade. Afinal, uma população que não se reconhece idosa fica dispersa, enfraquecida e, não se articulando, nada conquista, correto? Mas estamos falando da população que mais cresce no país! Imagina se ela se articulasse. Imagina se ela se apropriasse do poder que possui.
Enxergo um caminho a ser percorrido.
Olho para os movimentos das comunidades negras, LGBTQIAPN+ e feministas, e para o orgulho crescente de pertencimento existente. São exemplos. Sei que é complexo, lidamos com o Idadismo. É um sistema na sociedade que deseja mantê-lo. Mas esses movimentos, cada um a seu modo, lidam com preconceitos gigantescos. Há que buscar estratégias, colaboração, conexão e articulação.
Olho para agências de marketing e comunicação, que atuam na área da economia prateada, e percebo que ainda há um distanciamento da área da gerontologia e da longevidade. Há necessidade de alinhamento de conhecimentos e estudo nessa área. É possível criar, planejar, comunicar sem cair em armadilhas idadistas e unindo conceitos das duas áreas de conhecimento, mas para isso é preciso ir além da superfície.
A gente é o que é
Ao longo da vida vamos construindo nossa história. Na velhice chegamos ao capítulo final, no qual ainda há muitas páginas a serem escritas, de aventura, choro, amor, trabalho, estudo, descanso, risadas… Se esse capítulo atravessaremos com sentimentos em que vão predominar a amargura, vergonha, frustração, medo ou orgulho, leveza, amorosidade e gratidão, dependerá da forma como encararemos a nossa idosidade. Como você é?
Abaixo, o texto completo sobre Nolt
“Não é idoso. É NOLT.
A nova forma de se dirigir às pessoas 60+ ativas nasce de uma realidade que já está diante de nós. Esse público não se reconhece mais no rótulo de “idoso”, carregado de ideias ultrapassadas sobre limitações e fim de ciclos. Surge então o NOLT — New Older Living Trend — pessoas que seguem vivendo com propósito, curiosidade e vontade de evoluir.
Os NOLTs voltam a estudar, aprendem novas tecnologias, fazem cursos, iniciam uma segunda ou até terceira graduação. Muitos abrem novos negócios, empreendem, mudam de carreira ou transformam antigos sonhos em projetos reais. Não esperam mais “o tempo passar”; fazem o tempo acontecer.
São pessoas que cuidam da saúde, da mente e das emoções. Viajantes, leitores, voluntários, criadores, líderes de grupos, mentores e aprendizes ao mesmo tempo. Encaram desafios com maturidade, mas também com coragem — aquela coragem que só quem viveu bastante desenvolve.
Os anos não são vistos como peso, mas como bagagem. Experiência não é limite, é diferencial. Eles erram menos por medo e tentam mais por consciência. Sabem que recomeçar não é voltar ao início, é avançar com mais sabedoria.
Chamá-los de NOLT é reconhecer que envelhecer mudou. É afirmar que essa fase da vida não é sobre encerrar capítulos, mas sobre escrever os mais autênticos. Porque viver bem depois dos 60 não é exceção — é tendência.”
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Foto da Capa: Gerada por IA.

