Quem acha que nada acontece nos bastidores da Plataforma Sler está enganado. Todo bastidor costuma ferver e – Evoé, rima! – a Sler não é exceção, por mais que seja uma plataforma virtual, ou seja, sem espaço físico que reúna seus autores, entre cafés e fofocas presenciais.
Faz uns dias, a colunista Sílvia Marcuzzo me mandou uma mensagem. Ela revelou que tinha algo a dizer sobre a minha mais recente coluna, mas estava reticente em me falar. Eu disse sinceramente “manda bala”, mas ela veio com a delicadeza que lhe é de costume (conheço a Sílvia desde que éramos jovens e mais leitores do que escritores).
Então, num misto de firmeza e cuidado, ela sugeriu que eu não deveria ter explicitado o nome do aplicativo de transporte a que aludi numa crônica sobre a importância da conversa com os motoristas, às vezes o único espaço narrativo de um dia corrido e de poucos encontros. Eu fazia ali um ziguezague como costumam fazer as crônicas e adentrava o tema da saúde mental, especialmente no quanto está atrelada a poder contar e ouvir, talvez o mais eficaz entre os remédios.
A Sílvia encasquetou por eu ter nomeado o aplicativo, o que me levava a fazer um marketing gratuito para o dito cujo; pior, elogiava uma empresa que, com preços dinâmicos e cancelamentos de corrida, vem tratando mal os seus clientes; pior, explorando os seus prestadores de serviço. Por isso, a Sílvia usa outros aplicativos menos abusivos, os quais nomeou para mim.
Prestei atenção em cada palavra, cada argumento. Ela parecia mesmo certa e eu só poderia ficar agradecido. A sua manifestação de leitora atenta mostrava, mais uma vez, uma pessoa sensível às nossas dores neste mundo; melhor, às dores de mundo dos outros. Mas crônicas costumam ser assim: nascem quase do acaso e vão fazendo com liberdade mais ou menos consciente aquele ziguezague mencionado acima. Porque a intervenção da Sílvia, além da serventia coletiva, colaborou com o individual, trazendo o tema do quanto o outro sempre foi decisivo para a minha própria escrita.
A minha escrita até parece minha (individual), nos direitos autorais que recebo (ou não), nos prêmios que mais perco do que ganho, nos leitores que conquisto (o principal) e em tudo o mais que a cerca de dentro para fora, e vice-versa. Balela! Ela, no fundo, é coletiva, por mais que os coautores permaneçam anônimos e sem o merecido agradecimento. De exemplos ao léu, aprendi a pontuar poemas com o Mario Pirata, que também me ensinou os bastidores do ritmo e a essência da imagem. E, como estamos no cenário das palavras, permito-me um primeiro trocadilho infame, entre os exemplos ao léu: Leo Cunha vem sendo um parceiro decisivo das minhas incursões na literatura para a infância.
O manejo da ironia me foi concedido pelo Gastão Torres Filho e o resto inteiro, por Armindo Trevisan e Paulo Hecker Filho, daí – o segundo trocadilho infame – serem ambos uma espécie de pais de meus rebentos escritos. Quanto aos ensaios de psicanálise, Décio Gurfinkel é hoje um leitor atento aos meus arquivos originais. Aprendo muito com ele, e olha que só estou mencionando aqueles que encontrei ao vivo, ignorando a legião de escritores vivos e mortos que, sem nos conhecermos pessoalmente, fizeram o caldo da escrita que hoje, descontada e acrescentada à angústia de influência (Bloom foi um deles), eu posso oferecer.
Sei que estou omitindo uma pá de outros lidos ou ouvidos e que tanto me ajudaram, ou melhor, me co-construíram, mas o espaço ficou exíguo e a memória pode ser injusta. E, já que conto ainda com duas linhas, agradeço ao Sérgio Saraiva por ter me ensinado a revisar exaustivamente cada frase. É o que acabo de fazer com uma dupla satisfação: a de chegar a um texto mais enxuto e a de ter aprendido com a Sílvia, pois, dessa vez, não mencionei nenhuma vez (repetição rítmica proposital da palavra “vez”) o nome do tal aplicativo de transporte.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

