1 – Dia desses me peguei lembrando de Mari Kondo. Vocês lembram de Mari Kondo? Mari Kondo é uma personalidade japonesa que, ali pela década passada foi um sucesso global, autora de um livro best-seller e com uma série reality na Netflix. Não sei direito como chamar essa profissão que ela representava, mas da qual não era nem de longe o único exemplar, talvez “consultora de arrumação”, talvez “organizadora profissional”. Não li o livro (a vida é curta e eu ainda não li o Balzac todo), mas vi alguns episódios da série exibida ali por 2019, se não estou enganado, e a dinâmica da atração era: Mari Kondo aparecia na casa da “vítima” aleatória de cada episódio como uma mescla de espírito da floresta e Mary Poppins, e dava dicas para organizar a casa. Ela dava bastante importância ao ato de se livrar de tralhas que não eram mais necessárias e reduzir tudo ao essencial. Seu método para isso era ao mesmo tempo simples e meio constrangedor, você deveria segurar cada objeto que possuía junto ao peito e, se sentisse uma onda de “amor” por ele ou uma “faísca de alegria”, deveria mantê-lo. Se não, descartá-lo, doá-lo, reciclá-lo, etc. Aguentei uns três ou quatro programas até chegar ao episódio em que ela ajudava um casal gay masculino a liberar espaço na biblioteca e ali ela me perdeu completamente. Livros, por si só, são objetos complexos. Alguns dos melhores que eu li e que me marcaram profundamente nunca me despertaram alegria, muito antes pelo contrário, estilhaçaram minha paz de espírito.
2 – Mari Kondo não foi um fenômeno isolado. Uma década antes de sua aparição já havia um bom número de realities de “arrumação” de casa tanto na TV a Cabo quanto nas emissoras de sinal aberto. Na mesma época em que o nome de Kondo atingiu o auge da fama, começaram a circular nos canais de streaming outras séries e documentários disseminando o movimento do “minimalismo”, a ideia de que as pessoas deveriam ter uma vida menos complicada e com menos objetos materiais. Também vi alguns desses programas, e me despertaram antipatia imediata. Tudo o que foi informado ou veiculado nessas produções só me convenceu de que o “minimalismo” era um movimento burguês perverso tentando vender aos pobres em um momento de crise econômica a ideia cosmetizada de que “menos é mais”. A maioria dos advogados da ideia parecia oriunda de empresas do Vale do Silício ou do Mercado Financeiro. Ou seja, gente rica que resolve “se dedicar ao essencial” sem reconhecer devidamente que esse luxo, na atual situação econômica desta quadra do Capitalismo tardio, só é possível a quem já está com a vida ganha. Reconheço, contudo, que Kondo, embora tivesse um discurso semelhante, partia claramente de outro lugar para chegar lá.
3 – Algo que eu não sabia quando Kondo estreou seu programa, mas que depois descobri com a popularização da personagem, é que ela teve uma vivência muito intensa dentro das estruturas oficiais do Xintoísmo, a religião hegemônica do Japão, que, em seus preceitos mais básicos, carrega uma certa visão animista de mundo: ou seja, o que não apenas os seres humanos, mas muitas coisas no mundo, de animais a plantas, de rochas a objetos manufaturados, tem um “espírito” peculiar – uma ideia que está profundamente entranhada em muitas das manifestações culturais mais tradicionais do Japão. A cerimônia do chá tradicional, por exemplo, em que se toca com carinho e se reverencia todos os utensílios usados para sua preparação. Assim, fazia sentido dentro desse tipo de pensamento a ideia de Kondo de que certos objetos teriam um tipo de espírito ou de energia vital que, alinhada com a sua própria, produziria essa “faísca de alegria” que ela argumentava ser necessária para escolher o que você quer conservar com você. Isso também explica a dificuldade que a maioria dos personagens do programa tinham em entender o processo – não era apenas uma dificuldade de aplicação de uma metodologia de seleção, era um problema de tradução entre duas culturas bastante diversas.
4 – Embora o Ocidente cristão tenha por séculos sustentado um discurso contra a cobiça e o materialismo puro, havia um contrapeso dedicado a convencer todos a “aceitarem seu lugar no mundo” com base na difusa, mas implacável, “vontade de Deus”. Essa visão foi ficando cada vez mais difícil de alinhar com a ideologia que emerge com o capitalismo industrial de que “cada um pode ascender e ficar rico se oferecer ao mercado algo que seja inovador ou necessário. E, claro, hoje se tornou meio impossível essa harmonia entre pontos de vista após a ascensão da visão de mundo neoliberal seguida pela emergência do individualismo radical contemporâneo – que, não por acaso, também contribuiu para tornar palatável, entre outras coisas, os discursos da extrema-direita que hoje têm livre circulação, entre eles o de uma liberdade de expressão de fachada (só serve para eles) e o de uma retrógrada visão antivacina (porque, aparentemente, qualquer gesto que vise o bem coletivo é visto como “imposição” e “cerceamento de liberdades” por essa gente). Não por acaso, a vertente cristã que mais cresce na atualidade é a do neopentecostalismo já plenamente adaptado ao novo discurso capitalista: o pastor toma dinheiro dos fiéis como um “investimento para que Deus conceda uma vida melhor futura”, todo mundo usa terno e gravata e os templos feios e impessoais não lembram em nada igrejas, e sim escritórios de despachante (no caso dos menores) e galpões de exposição ou centros de eventos (no caso dos maiores). Não é mais um problema a cobiça – outrora um pecado capital, hoje elogiado como um sinal de determinação ambiciosa. E a teologia da prosperidade que valida a posse material desde que se reserve o óbolo para o Criador (que, convenientemente, deve ser depositado no bolso do pastor ou no cofre da igreja).
5 – Mas a crítica ao consumismo e à acumulação desmedida também é feita pelo outro lado do espectro político. As coisas (1965) é o nome do primeiro romance de Georges Perec, escritor francês que, a partir de sua estreia nos anos 1960, fez da expansão das possibilidades formais e expressivas da literatura o centro do seu trabalho, culminando na obra-prima Vida: modo de usar (1978). As coisas enfoca a vida de dois jovens parisienses no início dos anos 1960, Jérôme e Sylvie. Vivendo em um período de prosperidade material nunca vista antes na estratificada sociedade francesa, ambos são “psicossociólogos”, pesquisadores que usam ferramentas da psicologia para prospectar o pulso da opinião pública e definir as melhores formas das então emergentes agências de publicidade despertarem desejo por determinados produtos. Ambos estão cientes de que vivem uma vida ao mesmo tempo mais estável (têm situação material melhor que a das gerações anteriores de uma França eminentemente rural) e mais precária (a segurança financeira é frágil e pode ruir a qualquer momento em um mercado capitalista em que demissões e assimilações são frequentes). Assim, aceitam o consumismo como um fato dado. Não apenas ganham a vida usando o que sabem para despertar o consumismo alheio, mas também se entregam sem rodeios a ele: estão sempre à cata de prazeres e objetos materiais que não apenas confirmem seu sofisticado gosto estético, mas representem um signo material de uma ascensão social em uma das sociedades que de modo mais eficaz transformaram cultura em segregação.
6 – Perec foi parte de um inquieto grupo literário chamado OULIPO (sigla para Ouvroir de Littérature Potentielle, algo como “Oficina de Literatura Potencial”), que levou a experimentação literária a novos territórios mesclando-a com postulados e elementos matemáticos. Eram frequentes nas obras do grupo subtrações, adições ou substituições de elementos, fossem palavras ou até mesmo letras (como no romance La disaparition, do próprio Perec, escrito inteiro sem a letra “e”, justamente a mais comum na língua francesa). As Coisas está longe desse tipo de experimentação, mas já traz uma certa combinação bastante apropriada entre forma e conteúdo. Para narrar a história de uma busca de ascensão social por meio do consumo de objetos, Perec compôs uma prosa objetiva e em busca do máximo de concretude ela própria. Não há primeira pessoa, a narrativa guarda uma distância clínica, não há aprofundamento dos personagens, só a narração sóbria – que, por contraste, torna ainda mais impactante a óbvia mensagem final do livro. Jovens, boêmios, bem empregados ascendendo na vida e enchendo suas casas de relíquias e bugigangas com as quais pretendem definir-se como os burgueses emergentes que pretendem ser, Jérôme e Sylvie ainda assim não encontram nesse consumismo sofisticado a resposta para a angústia muda que assola seus dias, resultado desse mesmo consumismo. Boia a que se agarram em um mundo instável, o dinheiro é a própria prisão que os mantém apartados da vida plena que buscam, como a narrativa textualmente afirma: ““Entre eles erguia-se o dinheiro, era um muro, uma espécie de para-choque no qual iam bater a todo instante. Era algo pior que a miséria; o aperto, a estreiteza, a escassez. Viviam o mundo fechado de sua vida fechada, sem futuro, sem outras aberturas além dos milagres impossíveis, dos sonhos imbecis, que não se mantinham de pé. Sufocavam. Sentiam-se afundar.”
7 – O discurso antimaterialista é válido, ainda mais em um mundo em que aumenta a cada ano o número dos bilionários, essas figuras imorais e obscenas que acenam para o fim da humanidade nos próximos 50 anos tendo ainda assim defensores ferrenhos entre a patuleia iludida com o canto vazio da mobilidade social e financeira na atual economia contemporânea, baseada não em produtos e commodities tradicionais, mas em dados, tempo, atenção e informações. Não considero, no entanto, que ele deva descambar para a hipocrisia barata do movimento “minimalista”. Existe uma diferença entre ter o mínimo e ter o mínimo que você considera necessário. E, claro, como vivemos na sociedade individualista que já descrevemos alguns parágrafos atrás, sempre haverá noções desavergonhadamente díspares do que alguém considera “necessário”. Talvez a questão não seja ter pouca coisa, mas ter o bastante para ser usado sem que algo sobre ou fique acumulando poeira. Penso que o lockdown da pandemia – por mais precário e desrespeitado que tenha sido – ajudou muitos de nós a simplesmente reconhecer com mais precisão o que havia em sua casa – entre outras coisas porque os objetos da própria casa começaram a dar defeitos porque nunca foram antes tão usados e com tanta constância.
8 – A ideia de que objetos têm alma talvez seja um salto conceitual demasiado audacioso para a maioria de nós ocidentais do capitalismo tardio consumista contemporâneo. Mas acho que podemos todos concordar que imbuímos um pouco de nós mesmos em nossos objetos de uso constante, nem que seja pelo processo mais básico, o de fricção e desgaste. Um arranhado específico numa frigideira, testemunha de uma ocasião em que alguém se descuidou e cortou uma omelete ali e não no prato. Uma lasca em uma caneca de porcelana. Um cabo de uma colher de plástico amarelado pelo uso. Um desbotado específico no tecido de uma camisa. Um brilho de muito uso e lavagem no cotovelo de um casaco. Uma mancha pequena numa louça muitas vezes lavada e deixada para secar por si mesma em um escorredor. O próprio escorredor, de plástico escuro já ficando ruço. As roupas que sempre traem na maneira peculiar como se penduram no cabide, as formas dos corpos que muitas vezes as vestiram. A forma como às vezes você precisa corrigir no braço a trajetória de uma bicicleta depois que uma queda desalinhou um pouco os aros da roda dianteira. O sapato que vai se amalgamando confortável no pé. O conjunto de bibelôs sobre a mesa de centro, o pinguim de geladeira, o galo de geladeira, o ímã de geladeira, o desgaste leve da borracha na porta da geladeira, a própria sonoridade ronronante da geladeira depois de anos ligada. A estampa esmaecida no pano de prato pendurado num prego na parede. Acho que a grande diferença entre essa abordagem e a da xarope da Mari Kondo é que não se precisa abraçar nada, a identidade que temos com os objetos de nossa vida está posta e retorna a um simples olhar para qualquer um que não esteja afetando misticismo barato.
9 – Buscar o material é sinal de uma certa pobreza de perspectivas, mas pregar a “vida mínima” quando tantos nem esse mínimo tem é de uma falta de noção que talvez devesse valer um tapa na sua cara. Valorizar o que se tem e faz parte da vida cotidiana sem um impulso de desperdício novidadeiro pode ser um caminho do meio.
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Foto: Divulgação, Netflix

