Nós não morre só de tiro… nós morre pelo descaso…
Versos da MC Martina, cria do Morro do Alemão
Você vai vendo todos esses vídeos e imagens… Em um deles, que mostrava alguns corpos, estava o meu filho. Sou feirante… Era o que eu podia dar, mas ele não quis.
Você perde o filho duas vezes: uma quando ele já não consegue mais te escutar e depois quando morre.
É apavorante porque você espera todo dia acontecer alguma coisa de ruim. Se der um tiro ou se alguém soltar fogos, a gente já fica apavorado. Estamos traumatizados.
Toda vez que eu ouço a sirene, mesmo sem ter feito nada, meu corpo treme… Nós não morre só de tiro… nós morre pelo descaso…”
Essas frases aí bem poderiam ser de uma conversa entre quatro conhecidos, não? Pois é… Mas, embora ditas no mesmo cenário de guerra no Rio de Janeiro, semana passada, as declarações são de pessoas que, muito provavelmente, nem se conhecem e só têm em comum o fato de terem parentes entre os mais de 120 mortos na megaoperação e morarem nas comunidades invadidas. Ocupadas pelo crime. E pela polícia…
Abro parêntese e já volto: ninguém mais diz favela, né? Agora, é comunidade… como se a troca do substantivo pudesse adjetivar melhor as condições de vida por lá… Fecho e volto.
Pois é… Recolhidas nos sites de notícias, essas falas escancaram a sinceridade de um pai que encontra o cadáver do filho e lamenta não ter podido oferecer mais, do avô que encontra o neto criado como filho e perdido para o crime, da mulher que teme a tragédia a todo instante e de uma artista da quebrada, a MC Martina, criada no Alemão e em campanha para lançar o segundo livro de poesias intitulado Entre o Banzo e a Bala.
Por que só identifico a Martina? Porque, quem sabe, algum leitor (tem alguém aí?) a procure nas redes e colabore para a edição do livro…
Mas o que eu espero mesmo (santa ingenuidade, não?!) é que as autoridades, os especialistas, os gestores de crises, tenham prestado atenção nessas três ou quatro falas copiadas e postas aqui – existem, com certeza, outras centenas – e observem a coragem que cada uma delas mostra:
Nenhuma tem qualquer sinal de transferência de responsabilidade. São honestos lamentos pessoais. O pai que não conseguiu dar mais ao filho. O avô que não conseguiu se fazer ouvir pelo neto. Só a Martina, tremendo ao som da sirene, reclama do descaso, porta aberta para a entrada do crime que seduz o filho do feirante, o neto do aposentado…
Nenhuma referência direta à violência policial, apesar de alguns corpos decapitados, tiros na nuca…
E as autoridades responsáveis pela segurança? Consideram a operação um sucesso… Sucesso??? A operação que mirava os chefões do tráfico prendeu mais 100. Só “soldados”, nenhum comandante… Um sucesso! “Só” morreram quatro policiais. Será que as famílias daqueles agentes concordam com essa redução? Só quatro… são menos quatro maridos, quatro irmãos, quatro filhos…
Sucesso? Um evento que deixou mais de 120 mortos. Pois é… morreram. Só isso… Não vi nenhuma autoridade admitindo qualquer possibilidade de erro, de excesso.
Tem bandido nas comunidades? Claro que tem. Mas invadir, matar, prender e ir embora, resolve? A polícia vai, mata e sai. O crime fica lá… seduzindo adolescentes, pressionando adultos… Afinal, os chefões não estão naquela periferia… Onde estão? A inteligência, competente para localizar os soldados, precisa ir atrás dos generais…
Tem bandido na polícia? Também tem, né? Os mesmos veículos que cobriram a megaoperação da semana passada contam duas histórias dessa triste e altamente perigosa mistura da bandidagem com a política.
O Globo conta um diálogo que faz das investigações. Uma mulher, identificada como Danielle Silva dos Santos, integrante do Comando Vermelho segundo a polícia, articula com um dos alvos da operação – Juan Breno Malta Ramos Rodrigues, o BMW – o pagamento de R$ 15 mil a policiais que tinham prendido um “moleque”.
Manda logo, solta o moleque, diz a mulher para completar: “Que isso, BM, dinheiro depois nós botamos no lugar, nós somos uma equipe, amigo irmão.” Todo mundo identificado: a mulher… o encarregado da grana do crime. Ah! Falta o policial que pediu os R$ 15 mil… Pois é…
A outra história desse mix bandido x polícia é mais antiga. Em abril do ano passado, um major da PM carioca foi flagrado pedindo ajuda do Comando Vermelho para recuperar um carro roubado. O oficial, em conversa com o bandido conhecido como Síndico da Penha, pede a recuperação do veículo roubado. Três dias depois, o carro foi devolvido. O major continua na ativa.
Depois dessa megaoperação, os órgãos oficiais de segurança vão mudar de tática? Ou continuarão com essa estratégia de tratar as favelas/comunidades como territórios inimigos, em que as forças legais (e letais) vão, executam mandados e saem, deixando tudo do jeito que os bandidos gostam?
Saneamento pouco, escolas poucas, saúde precária, transporte ruim, pedágio para comprar gás, o gato da TV a cabo, as barricadas, as balas perdidas E os chefões numa boa…
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Foto da Capa: Tomaz Silva / Agência Brasil

