Escrevo para você, adulto, adulta, assim como eu, membro dessa aldeia. Por favor, leia com atenção essa carta e sinta comigo o peso da responsabilidade individual e coletiva que nos cabe. Tenho me perguntado: que aldeia estamos sendo para nossas crianças? Também me questiono se os membros da nossa aldeia compreendem que a formação de um indivíduo não acontece apenas dentro das quatro paredes de casa, mas na interação com a escola, com a família estendida, com os amigos e até mesmo com a sociedade em geral.
Gostaria de dizer que possuo muitas posições, enquanto membro dessa aldeia, assim como você. Sou psicóloga, sou dinda de seis “crianças” incríveis, sou prima, sou tia, amiga, vizinha. Na realidade, sou aquela que não perde a oportunidade de escutar uma criança. Posso dizer que concordo, e muito, com outro membro de nossa aldeia, Renato Noguera(1), sobre a necessidade de desconstruirmos a visão que muitas vezes reduz a criança a um “vir a ser” ou a um sujeito incompleto. As crianças são incríveis, e em contato com elas, eu também escuto a sua aldeia. E é nesse ponto que nós, membros dessa aldeia, devemos nos questionar.
Há quem diga que só brinco. Há quem pense que as crianças não falam. Há quem acredite que criança só quer doce, brinquedos e que seu mundo é à parte do nosso. É por isso que escrevo a você, também para convidar a revisitar a sua criança, mas, acima de tudo, que respire e olhe à sua volta. Perceba o que você transmite diariamente às crianças que convivem com você. Nossa posição precisa ser ativa nesta aldeia, pois é por meio das crianças que percebo como o racismo, o machismo, o classismo e diversas outras violências se infiltram no brincar, nas relações com os amigos e na forma como elas se percebem e são percebidas pela sociedade.
Esses aprendizados silenciosos e, muitas vezes, não ditos, mostram a importância de pensarmos sobre o letramento da infância. Quero muito te dizer que aqui, a palavra “letramento” vai muito além de decifrar letras ou palavras. Eu estou falando da capacidade da criança de ler o mundo de forma crítica, entendendo as mensagens que a “aldeia” envia sobre raça, gênero e classe.
Crianças negras, indígenas e brancas, todas elas sendo letradas… Que investimento transformador! Eu vislumbro dias melhores! Para isso, porém, precisamos pensar nas transmissões diárias, conscientes e inconscientes, e que muitas vezes reproduzem os estereótipos e preconceitos que as cercam. Pode ser no lápis de “cor da pele”, na divisão de brinquedos por gênero ou nas expectativas sociais. O lápis de cor bege é um exemplo perfeito desse aprendizado. Por anos, ele foi rotulado como “cor de pele”, um rótulo que carrega uma mensagem perigosa: a de que existe apenas uma única cor de pele que é a norma, e que essa norma é branca. Um simples objeto escolar se torna, assim, um agente de apagamento da diversidade racial. Se a cor da pele é uma só, onde ficam os tons de marrom, preto, amarelo e vermelho? Essa pergunta ecoa não só nas salas de aula, mas na formação da identidade de cada criança. Alexandre Rampazo (2), outro membro, nos mostra com muita sensibilidade como compreender essa situação pelo ponto de vista de uma criança.
É fundamental que as crianças sejam expostas a diferentes realidades, para que entendam que a beleza e o sucesso não se resumem a um único ideal de corpo, estilo de vida ou status social. Romper com essas bolhas significa apresentar à criança a pluralidade de famílias, profissões, moradias e histórias.
Como psicóloga que busca uma psicanálise decolonial e, acima de tudo, como pessoa, me sinto profundamente implicada em ações antirracistas e no questionamento das desigualdades. Nossa aldeia precisa, sim, ser questionada. Não está adiantando acolher a criança aqui na segurança do consultório se, ao sair, ela se depara com um mundo hostil e excludente. Meu trabalho não é apenas curativo, mas também preventivo e ativo, buscando construir uma aldeia mais justa e inclusiva para as nossas crianças.
Antes de encerrar, quero salientar que construir uma infância mais saudável e livre é um trabalho coletivo. A Psicologia até nos oferece a escuta e as ferramentas para decifrar as dores e os desafios de ser criança neste mundo, mas a verdadeira transformação acontece na nossa “aldeia”, e o principal agente de mudança é cada um de nós. Que possamos criar uma aldeia em que a criança não precise se encaixar em caixas, mas possa, simplesmente, ser ela mesma, feliz e livre das amarras dos preconceitos.
Me despeço e conto com você, pois, como diz o provérbio africano, “é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança”.
Um abraço repleto de carinho,
Camila Araujo
Referências:
1. Professor universitário e escritor, Renato Noguera possui vivência familiar griot, é doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professor do Departamento de Educação e Sociedade, do Programa de Pós-Graduação em Filosofia, do Programa de Pós-Graduação em Educação, Contextos Contemporâneos e Demandas Populares (PPGEduc) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e pesquisador do Laboratório de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Leafro).
2. Alexandre Rampazo, entre outras obras, é o autor de “A cor de Coraline”, livro que tem o Selo Seleção Cátedra 10 Unesco de leitura - 2017 e foi finalista do Prêmio Jabuti 2018, na categoria Infantil e Juvenil.
Camila Araujo é psicóloga clínica (CRP 07/26551). Mestranda em Psicanálise Clínica e Cultura na UFRGS. Especialista em Psicanálise e Relações de Gênero: Ética, Clínica e Política pelo IPPERG; Especialista em Problemas do Desenvolvimento na Infância e Adolescência pelo Centro Lydia Coriat; E em, Neurociências, Educação e Desenvolvimento Infantil pela PUCRS. Idealizadora e Membro do (Re)começar Espaço Interdisciplinar. Instagram: psico_camilaaraujo
Todos os textos de membros da Odabá estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

