Chegamos em Portugal no início de 2022 e ficamos dois meses na casa do meu irmão, Filipe, enquanto nos ambientávamos e decidíamos onde morar. Sua generosidade nos aquecia em pleno inverno, fevereiro. Fomos acolhidos eu, Luigi e Sol – suposta mistura de Chow Chow com Golden Retriever.
Depois de uma rápida passagem pela Ericeira, nos apaixonamos pela pequena vila de pescadores e surfistas. Definimos que era ali que queríamos enraizar. Encontramos um apartamento que aceitava cães – veja bem, aqui cachorro é filhote; cachorro adulto é cão – mas havia vinte e oito pessoas interessadas. Fomos os primeiros a visitar e, felizmente, os donos, mais ou menos da nossa idade, gostaram de nós e resolveram não receber mais ninguém e alugar – aqui, arrendar – para a nossa família.
Pequenas coisas precisavam ser consertadas na casa, mas, como tínhamos pressa para mudar, combinamos de ir arrumando com o tempo. Num telefonema, a dona do apartamento me perguntou: “Já arranjaram o autoclismo da sanita?”. Fiquei tentando raciocinar. Pedi para ela repetir. Alguns segundos de silêncio, meu cérebro em pane, até que por exclusão compreendi: a descarga da privada estava com um pequeno vazamento. Arranjar é consertar. Autoclismo é descarga. Sanita é privada. Anotado.
Poucos dias depois, ao passear com a Sol, uma senhora se aproximou: “Ah, que linda menina, posso fazer uma festinha?”. Uma festa? Para comemorar a beleza da minha cachorra? Fiquei confusa enquanto ela avançava para afagar a cabecinha dela. Tive que intervir – a Sol é maravilhosa, mas temperamental como todo Chow Chow, e não gosta de ser tocada por estranhos. Festinha é fazer carinho. Achei encantador.
Algumas semanas depois, Luigi convidou um colega do novo trabalho para jantar. Fiz uma moqueca de cação com arroz e farofa de dendê, muito elogiada pelo português. Em determinado momento, perguntamos se ele tinha filhos. “Sim, um puto e uma rapariga”, respondeu. Choque. Constrangida, mudei de assunto rapidamente. Só após ouvir os termos mais algumas vezes ao longo do ano é que compreendi: puto é menino, rapariga é menina. Nada de obsceno.
Durante nosso primeiro verão, na praia jogando frescobol (que aqui certamente tem outro nome, ainda desconhecido por mim), a bolinha rompeu. Fui em busca de um durex no hotel ali em frente. Ao alcançar a recepção – aqui, receção – dei bom dia e disse o que precisava. A moça (palavra que não devemos usar em Portugal) me olhou com uma expressão estranha e respondeu, encabulada, que não tinha. Insisti: onde poderia arranjar um durex? Era urgente. Ela repetiu, ainda mais desconcertada, que só na farmácia. Agradeci e fui embora. “Farmácia?”, pensei. “Aqui é tudo diferente mesmo.” Como não havia nenhuma por perto, desistimos do jogo e fomos dar um mergulho no mar. Meses depois, descobri: durex aqui significa camisinha. O nosso durex é fita-cola. Agora entendo a reação da recepcionista – sem querer, reforcei o estereótipo das brasileiras, no qual algumas pessoas ainda acreditam.
Já em meados de 2023, comecei a trabalhar para uma revista local. Precisava entregar três artigos bilíngues – em português e inglês. Tomei o maior cuidado para não imprimir gerúndios no texto e evitei palavras que sabia serem brasileiras. Mandei o primeiro artigo para o editor-chefe. O texto em inglês voltou sem nenhuma observação. O texto em português veio com setenta e dois comentários. Senti o sangue subir para o rosto, o coração disparou. Meu primeiro trabalho como colunista, e eu não sabia escrever? Abri o arquivo: esporte > desporto; compartilhar > partilhar; climático > climatérico; nômade > nómada; lugar > sítio. Entre muitas outras correções. Depois disso, passei a escrever primeiro em inglês e só então traduzir para o português de Portugal. Funcionou muito melhor – quando escrevo direto em português, as ideias saem, inevitavelmente, em brasileiro (que é a língua do meu pensar).
O trem é comboio, ônibus é autocarro. Tênis é sapatilha, calcinha é cueca, cueca é boxer. Abobrinha é curgete. Celular é telemóvel. Imagina não ter a palavra dengo para aqueles domingos em família. Cafuné. Gambiarra. Borocoxô. Fuzuê. Xodó. Fofoca. Garoa. Cochilo. As diferenças linguísticas também são formas distintas de estar no mundo. Acho que a ausência de certas palavras revela a ausência de certas experiências, de certos sentimentos. Não é apenas que chamamos as coisas por nomes diferentes. É que, às vezes, algumas sutilezas simplesmente não existem do outro lado do oceano.
Todos os textos de Helena Ruffato estão AQUI.
Foto da Capa: Acervo da Autora.

