Dentro do nosso corpo, tudo flui e acontece intensamente ao mesmo tempo que cumprimos rotinas simplórias ou ações extremas. Um assombro. Quase nunca pensamos nisso, pois dispomos de mecanismos que nos permitem executar várias tarefas no “piloto automático”. É muito útil, necessário inclusive. É um princípio biológico de economia, pois seria verdadeiramente desgastante – talvez até mesmo impossível – se precisássemos empreender toda uma nova gama de cognições a cada vez que fossemos escovar os dentes, lavar a louça ou dirigir um automóvel. Mas não desperdiçar cognições – em que até os ratos de laboratório se tornam especialistas – pode nos levar também a nos acomodarmos. Por preguiça cognitiva, entregamo-nos a um padrão de percepções. E isso molda nossas expectativas. Acabamos vendo as coisas como nos ensinaram a esperar que elas sejam vistas, desdenhamos da capacidade da mente. [1]
Para melhor apreciar a dimensão do que acontece dentro de nosso corpo, vamos ver alguns números. São 10 trilhões de células, com respectivos sete octilhões de átomos, que se movem para ir à sua feira preferida comprar batatas – sete octilhões são o sete mais 27 (vinte e sete!) zeros à direita. Agora vamos lembrar das aulas de biologia na escola, quando estudamos as células: membrana plasmática, citoplasma e núcleo. Uma estrutura complexa, tendo na mitocôndria um dos componentes mais interessantes: “casa de força” responsável pela respiração celular, que gera a energia. Pois cada uma dessas 10 trilhões de células está em atividade ininterrupta dentro de nós. É tão magnífico que vale relembrarmos em detalhes – basta lançar no Google “estrutura da célula” e teremos um zilhão de referências.
Vamos adiante e imaginar 400 mil átomos radioativos se desintegrando dentro de nós ao mesmo tempo que corremos atrás do ônibus ou nos levantamos, impetuosamente, num estádio de futebol, urrando pelo gol do nosso time. Ou como temos força e foco para surfar uma onda, enquanto através dos poros da nossa pele – só no rosto são 300 mil poros – estão acontecendo inúmeras e velozes trocas de íons e gases com o oceano, de forma muito seletiva, absorvendo da água o que está em baixa no sangue e enviando para o mar o que está sobrando?
Outra imagem: quando começamos a ondular e rebolar em uma pista de dança, é porque o nosso córtex auditivo fez uma inspeção de localização espacial, ressonância, ritmo, volume, tom, timbre e harmonia e definiu que o ruído, chegado à orelha pelo ar na forma de moléculas, não é de uma britadeira e, sim, música! O processo todo do nosso ouvido é igualmente fabuloso – jogue no Google “ouvido humano” e lá vêm outro zilhão de referências.
Não podemos deixar de citar a adrenalina, esse hormônio soberbo que explode diante do perigo, desencadeando o famoso “luta ou fuga”. A adrenalina aumenta nossa pressão arterial, ritmo cardíaco, glicose no sangue e direciona o fluxo sanguíneo para onde é mais necessário à proteção nas situações de risco. Como pode, então, acontecer de nos jogarmos numa perigosa enxurrada para salvar um outro de se afogar? Quem decidiu isso? Nós ou uma entidade sobrenatural que nos habita? Aliás, essa é a pergunta que não quer calar: como continuamos a ser “nós mesmos” enquanto nosso corpo vai trocando todas as células a cada sete anos, não restando praticamente nenhuma das células velhas? Para a psiquiatra junguiana Marie-Louise Von Franz (1988, pág. 116), “algo em nós, como uma substância psíquica essencial, carrega nossa identidade no decorrer da vida. É isso o rio, esse misterioso fluxo da vida.” [2] Mas como pode a nossa mente se coordenar para tomar decisões e aprender – ou mesmo meditar – enquanto temos 85 milhões de neurônios ocupados em fazer, cada um, suas cerca de 10 mil sinapses particulares, a cada segundo? Etc., etc. e etc.!
Talvez não paramos para pensar nessas coisas, porque, do contrário, teríamos vontade de nos jogar na cama e pedir um soro na veia. Mas o corpo dispensa vigília, é de sua compleição realizar tamanha obra, sem alarde algum. Foram bilhões de anos nos compondo através do processo evolutivo, que abarcou partes ou mesmo tudo de cada espécie, animal e vegetal, que já habitamos. Chegamos a esse nível de complexidade do corpo humano. [3] A exuberância é a nossa casa.
Somos energia que move a carne com força fenomenal. No ciclo inicial, parece inesgotável – basta observarmos as crianças e os filhotes em suas brincadeiras motoras –, mas segue progressivamente se consumindo através dos anos até a completa dissolução na atmosfera, reintegrando-se à energia cósmica. Como a belíssima bolha de sabão que nasce do sopro, toda colorida na luz do sol, que parece tão frágil, mas vai se alargando com perfeição e, então, vai subindo pelo ar, flutuando graciosamente até o seu momento de estourar e se diluir na atmosfera. Um corpo nasce e morre, mas isso não significa início e fim, pois, mesmo que sejamos vida neste planeta enquanto um corpo, somos energia do universo – e isso não é uma questão religiosa dogmática.
[1] MOREIRA, Vera. (des)Condicionamento. Porto Alegre: Plataforma Sler, 2023.
[2] VON FRANZ, Marie-Louise. O Caminho dos Sonhos. São Paulo: Cultrix, 1988. Pág. 116.
[3] SHUBIN, Neil. A história de quando éramos peixes: Uma revolucionária teoria sobre a origem do corpo humano. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008.
MUKHERJEE, Siddartha. O gene, uma história íntima. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. O médico e biólogo Mukherjee comenta que “há imensos trechos de DNA intercalados entre os genes dos quais não se conhece ainda a função, mas talvez possam contar toda a nossa história, dos antepassados recentes a tempos muito, muito remotos – boa parte do genoma humano não é particularmente humana.”
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Imagem da Capa: Ruslan Batiuk / Freepik