Acredito que celebrar tem relação muito estreita com se lembrar. Então, preparei algumas notas para este mês de novembro. No Brasil, o 20 de novembro marca a data da morte de Zumbi dos Palmares e o Dia da Consciência Negra. Aqui na Argentina, no dia 8 de novembro, se celebra o Dia Nacional dos Afro-argentinos – sim, eles existem! – e da Cultura Afro. A data escolhida homenageia María Remedios del Valle, “capitana” e “madre de la patria argentina”.
1) Para uma pessoa negra, às vezes, a melhor preservação contra o racismo é não aceitar falar sobre ele. Principalmente, de graça.
2) Tu, pessoa negra, quando entras em uma loja e não és atendida no mesmo tempo em que as pessoas brancas o são, considera algumas coisas. Pode até ser porque pensam que tu não ofereces grande perigo, não pensam que vais roubar nada. Por outro lado, tampouco creem que tens poder aquisitivo para levar algum produto. Então, não investem nada de tempo e atenção em ti. Vale a pena insistir?
3) Por outro lado, outras vezes, uma forma de ser seguida dentro de lojas não vêm do pessoal da segurança, mas do atendimento. A moça da loja não veio te atender rápido por ser tão atenciosa. Ela, provavelmente, quer resolver o teu problema tão logo possível e “limpar” a tua presença negra do ambiente.
4) Não te assusta o fato de que essas atitudes podem vir, justamente, de irmãos racializados tentando sobreviver em meio à branquitude.
5) Tampouco permitas que te patologizem dizendo que estás paranoica. O mito da democracia racial é apenas isto, um mito, mas ele provoca um status quo, uma estrutura que arrasta toda uma discursividade hegemônica. Ainda assim, é uma quimera, tipo bilionário benevolente e unicórnio.
6) Se tu, assim como eu, tens uma criança branca como enteada, esteja preparada para te olharem com desconfiança. Se pensarem que você é a babá, até é pouco. Podem realmente considerar sequestro. Cuidado!
7) Não acredita na diversidade quando enfiarem (ou perpetuarem) uma única pessoa negra ou oriental em um grupo massivamente branco. Como ensina Sueli Carneiro:
“Assim, para os publicitários, por exemplo, basta enfiar um negro no meio de uma multidão de brancos em um comercial para assegurar suposto respeito à diversidade étnica e racial e livrar-se de possíveis acusações de exclusão racial das minorias”[1].
8) Se a tua pele é mais clara, como a minha, não penses que estás a salvo ou que essa passabilidade significa que o racismo não te atravessa de várias formas. Muitos brancos vão dizer que tu nem és tão negra assim, justamente para deslegitimar as tuas lutas que, obviamente, não são exatamente as mesmas dos irmãos retintos, mas estão em continuidade. Não deixes nada te separar da tua negritude. Lembra que os porteiros, os seguranças e os policiais são a melhor banca de heteroidentificação racial.
9) Honra as tuas origens negras do teu jeito. Não existe uma única música negra, um único gosto musical negro, uma única espiritualidade negra. Encurralar as pessoas negras em nichos culturais é uma tática de segregação e de isolamento. Aquilombe-se sempre que possível, mas não aceite mais nenhuma forma de colonização.
10) E, sim, pessoas negras podem ser ateias e não acreditar nas forças místicas dos orixás, mas tomá-los como mitos estruturantes de enorme importância na cultura negra, em vez daqueles greco-romanos.
Viva Zumbi, viva Dandara e viva María Remedios del Valle!
[1] Carneiro, Sueli. “Negros de pele clara” (2002) In: Carneiro, Sueli. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011.
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Foto da Capa: María Remedios del Valle / Reprodução de Redes Sociais

