Herbert Marcuse desloca o núcleo da contrarrevolução para o nível dos instintos, apoiando-se de maneira criativa nas formulações freudianas. Em Um Ensaio sobre a Libertação, ele argumenta que a dominação capitalista não se sustenta apenas pela força da ideologia ou pela manipulação da consciência. Mais profundamente, enraíza-se na estrutura pulsional do sujeito, isto é, no modo como desejos, aspirações e padrões de comportamento são modelados desde o processo de socialização primária.
Inspirado em Freud, Marcuse, em Eros e Civilização, distingue entre a repressão necessária — aquela mínima exigida por qualquer forma de organização social — e a mais-repressão, que é própria do capitalismo. Esta última não apenas limita os instintos, mas os redireciona, deformando-os em direção à produtividade, ao desempenho e ao consumo. Retomando o capítulo Um fundamento biológico para o socialismo?, presente no já referido Um Ensaio sobre a Libertação, Marcuse mostra como o resultado desse processo é a formação de uma moralidade introjetada, uma espécie de predisposição instintual para o capitalismo.
Antes mesmo da consciência crítica e da ideologia, o sujeito já se encontra moldado por uma matriz psíquica que o ajusta à lógica da mercadoria. Essa predisposição se manifesta como caráter, tornando-se um obstáculo estrutural à revolução: o instinto age como elemento contrarrevolucionário. A recusa ao sistema, nesse sentido, fracassa porque o próprio sujeito tem sua vitalidade organizada de acordo com os princípios do capital.
Outro ponto importante é que o consumo, longe de ser apenas uma prática econômica, é vivido como construção simbólica do corpo e da personalidade. O indivíduo “se forma” enquanto sujeito no ato de consumir, confundindo a realização do eu com a aquisição de mercadorias. Assim, a forma-mercadoria deixa de ser apenas uma categoria econômica para se inscrever como categoria libidinal, estruturando o próprio modo de desejar.
Dessa forma, a tarefa revolucionária não se limita à crítica da Indústria Cultural, nem à denúncia da alienação imposta pelo mercado, tampouco à análise da mudança de racionalidade desvelada por Horkheimer e Adorno. Todos esses pontos são fundamentais, mas permanecem insuficientes se não houver uma transformação mais profunda: a reconfiguração da própria base instintual.
Em outras palavras, não basta resistir culturalmente; é necessário promover uma mudança no nível pulsional, que reoriente a energia vital para uma predisposição ao socialismo em lugar da predisposição ao capitalismo. Tal transformação pressupõe, evidentemente, mudanças culturais, mas vai além delas. Trata-se de instaurar novas formas de sensibilidade, novos modos de prazer, novas maneiras de experimentar o corpo, o mundo e o outro.
Somente assim seria possível libertar o ser da lógica da mercadoria e abrir espaço para um princípio de realidade qualitativamente diferente daquele que sustenta o capitalismo. A revolução, portanto, não é apenas um processo político ou econômico, mas também libidinal e antropológico. Significa recriar as condições de formação do sujeito, deslocando os instintos de uma base repressiva e agressiva para outra, solidária e voltada ao instinto de vida.
A verdadeira efetividade da revolução dependerá, assim, da capacidade de transformar não apenas as instituições, mas o próprio tecido pulsional que sustenta a subjetividade. Só quando a predisposição ao capitalismo for superada por uma predisposição ao socialismo, inscrita nas camadas mais profundas da vida psíquica, é que a liberdade poderá deixar de ser promessa e se tornar realidade concreta.
Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo e professor universitário. Atualmente, é mestrando em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar pela ESUDA. Dedica-se ao estudo aprofundado de temáticas concernentes à Psicanálise Kleiniana, Marxismo, Teoria Crítica e Escola de Frankfurt. ralfsouzapsi@gmail.com
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Foto da Capa: Marcuse.org

