Original publicado em 08/08/2025
A primeira impressão é de estranhamento. Os lenços repetem o rosto em agonia. Dispostos lado a lado, enfileirados, presos à parede. Um leve frêmito nos tecidos, provocado pela circulação do ar, quase imperceptível. O olhar de quem já vivenciou essa cena, mais vezes do que desejaria, enxerga o que em medicina se conhece por Cheyne-Stokes. Um padrão de ciclos que alterna períodos de respiração progressivamente mais profunda e rápida com períodos de lentidão e, por vezes, apneia. Característico de algumas condições patológicas; muito comum no estágio final da vida.
Nove dias é uma das muitas obras da exposição “Arqueografias da alma”, da artista visual Miriam Tolpolar. Ela se dedica há muitos anos à litografia, uma técnica que cria marcas ou desenhos sobre uma matriz de pedra calcária usando um lápis gorduroso. O processo se baseia no princípio da repulsão entre a água e o óleo. De maneira diversa a outras técnicas como a xilogravura e a gravura em metal, a litografia é planográfica. Isso significa que a imagem é formada pelo acúmulo de gordura na superfície da matriz, e não através de fendas e sulcos.
Nessa obra específica, Miriam registrou os últimos momentos de vida de sua mãe, Raquel: “Foram nove dias em um quarto de hospital, onde ao lado de sua cama percebi seus parcos movimentos, sua respiração, o calor e o frio de seu corpo, os fios de cabelo espalhados no travesseiro, os detalhes mínimos. Dias violentos, vivendo com minha mãe sua travessia”.
A artista não esconde a referência ao arquiteto e multiartista Flávio de Carvalho (1899-1973), um dos grandes nomes da geração modernista brasileira. Ela conta que ficou muito impactada quando, no início da carreira, conheceu a série de desenhos a carvão sobre papel intitulada “Minha mãe morrendo”. A obra foi realizada em 1947, quando Carvalho foi chamado às pressas para Valinhos, interior paulista, e, assim como Miriam, esteve ao lado da mãe, Dona Ophélia, em sua agonia e despedida. A “Série trágica” hoje pertence ao acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo – MAC.
Esse tipo de produção artística é, em geral, alvo de controvérsias. Flávio de Carvalho, por essa obra, foi chamado por Assis Chateaubriand de “o pintor maldito”. Apesar de ser um notório polemista, não parece ter sido essa a motivação de Flávio. Ao ser questionado por que retratara aquela vivência tão dura de sua própria mãe, ele respondeu: “Eu não desejava esquecer o seu grande sofrimento”.
Já no início do século XX, o suíço Ferdinand Hodler (1853-1918), precursor da pintura expressionista, criou uma série de pinturas que permitem acompanhar o processo de doença de sua amada Valentine Godé-Darel, desde o diagnóstico de um câncer ginecológico em 1913 até sua morte em janeiro de 1915. Mais do que uma visão mórbida, foi a busca de sublimação de sua própria aflição, permitiu que ele pudesse acompanhá-la e confortá-la.
Miriam Tolpolar é Mestre em Poéticas Visuais, Bacharel em Pintura e Licenciada em Educação Artística pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Foi professora no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre por mais de duas décadas. Participou de salões e bienais de gravura no Brasil e no exterior. Recebeu vários prêmios. Autora dos livros “Memória da Litografia: pedras raras da Livraria do Globo” (FAC/RS) e “Receitas da casa das tias” (Libretos).
Nessa exposição, em que usa como telas o tecido de lenços, guardanapos, panos de prato, percebem-se algumas das características das impressões de Miriam. Leveza, detalhes, nuances. Um universo feminino, afeito à delicadeza, uma sensação maternal de colo, de tias, de avós. Mas também algo de veladura, de abafamentos e mistérios, de impressões que parecem prestes a se apagar, restando apenas a memória em sua ânsia de preservação.
Os lenços que registram a despedida de Raquel tornam-se sudários, peças de pano utilizadas na antiguidade para envolver enfermos e mortos. Essa repetição de imagens, um recurso fundamental da artista, reflete a própria técnica da litografia: a reprodução de sentimentos que emergem da impregnação de fluidos vitais nas pedras do caminho. O processo também diz muito do apagamento, da finitude, a uma certeza de que a imagem perderá intensidade gradativamente à medida que as cópias são impressas, até nada mais restar. O sudário guarda o suor, assim como a litografia se faz do óleo impregnado. Para além da vida vivida, a arte inventada, o espanto e a necessidade de gravar e partilhar o afeto que não pode ser perdido.
Serviço:
“Arqueografias da alma”, de Miriam Tolpolar, com curadoria de Paulo Gomes e Jezabel Katz. Está em exposição no Centro Cultural da UFRGS, Rua Eng. Luiz Englert, 333, em Porto Alegre. Pode ser conferida até 21 de agosto de 2025, das 9 às 19 h.
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Foto da Capa: Acervo do Autor.

