Uma série de desejos e acasos que não vêm ao caso levaram-nos para Israel. Mariana, minha filha, traçou o plano de passar um ano lá estudando. Ainda em meu apoio à sua mudança, entre Jerusalém e Tel Aviv, passamos a conviver naquele momento com as sirenes anunciando os mísseis disparados pelos Houthis. Em Jerusalém, felizmente, nem precisou dar tempo de sair de um banho rápido. Em Tel Aviv, foi ainda mais tranquilo. Não havia abrigo subterrâneo no hotel, mas, conforme orientações, bastaria permanecermos no vão entre os quartos 113 e 114, que seriam imunes ao acesso de estilhaços. Eram mesmo.
Depois, Mariana foi para a casa da prima Ellen, onde moram o primo Roy, seu marido, além de Naama e Nadav, os filhos pequenos do casal. E Tofi, o gatinho. Foi triste despedir-me deles, mas também foi comovente ver a filha acolhida por uma família de certa forma nova, como se famílias também fossem capazes de substituir uma pele por outra igualmente acolhedora.
Então, de repente, começou a Guerra com o Irã, sob a força dos novos mísseis que, ao contrário dos Houthis, já não podem ser inteiramente interceptados pelo sistema de defesa de Israel. A sirene toca e a família corre para o abrigo subterrâneo do prédio, onde permanecem o tempo necessário junto aos vizinhos, conversando, cantando, brincando, contando histórias e, sobretudo, sonhando a paz de um mundo em que adultos poupem crianças de bombardeios e ninguém precise viver sob a ameaça de uma destruição nuclear.
Eu vou acompanhando como posso por aqui. De certa forma, hoje em dia, não é difícil acompanhar. A televisão de onde não desgrudo mostra em tempo real o que está acontecendo, assim como o WhatsApp e seus relatos pessoais de estresse, medo, incerteza. Sei que não é como estar lá e, às vezes, pode parecer até pior.
Dia desses, no momento de uma trégua que aparentava ser maior, minha filha foi comprar pipoca e refrigerante para as crianças e se viu surpreendida pelo som estridente da sirene, em plena luz do dia, o que até então não vinha acontecendo. Foi acolhida pelo abrigo mais próximo, próximo do mercado, e cheio de desconhecidos. Com humor, contou-me quase ao vivo que estava fazendo novos amigos.
Coração apertado, eu mal pude rir. Meu corpo voltava a dar os seus sinais incontestes de como anda se sentindo e que incluem uma dor no fundo da barriga que costuma vir durante o dia. Chegada a noite, mudam os sinais e vem uma espécie de alucinação. Ouço ecos de sirenes que não existem na realidade de Porto Alegre, mas chegam nítidas aos dois ouvidos. Como psi, venho mudando minhas ideias sobre elas, que sempre foram no sentido de esbatê-las com o bombardeio de remédios de longo alcance. É que, em grande parte, sou tomado pelo sentimento de que não posso explodir a verdade do meu coração, em pleno miolo do corpo.
As sirenes soam realmente para mim. Corpo e coração não mentem, e eu corro para o abrigo mais próximo que, no meu caso, é escrever. Ao primeiro punhado de palavras, o som da sirene já está menos estridente.
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Foto da Capa: wallart.org.il

