Iniciando os preparativos para o almoço do primeiro dia útil da semana, enquanto esperava o microondas reaquecer as proteínas animais sobreviventes da refeição dominical, olhei para o apetitoso punhado de feijão no prato (sou um dos crédulos que o grão apura mais o tempero de um dia para o outro) e me lembrei que há uma conversa no Brasil que não corresponde de todo à realidade: que o grande latifúndio empresarial é quem produz a comida que está em nossa mesa. Pois não lembro de ter visto uma fazendo com alfaces a se perderem da vista ao horizonte, nunca vi um latifúndio de inhame, ou colheitadeira Massey-Ferguson para macaxeira.
O fabaceao de cada dia (sim, o feijão tem família nobre: Fabaceae), que honra nosso diáfano Nadir-Figueiredo, não deve nada ao agrobusiness: não existe megas fazendas de feijão assim como as já famosas as plantações de soja, do tamanho de cidades.
O Brasil colheu mais de três milhões de toneladas em 2024 (IBGE), os três primeiros maiores produtores de feijão são o Paraná, Minas Gerais e Goiás (Embrapa); No Paraná, Prudentópolis é um dos municípios que mais cultiva o grão, sendo conhecida como a Capital Nacional do Feijão Preto. Todavia, sua economia está baseada em agricultura familiar e pequenas propriedades; Pernambuco está entre o oitavo e o nono, com cerca de 95,4 mil toneladas; São João é seu município com a maior produção. Se localiza na região de outros importantes produtores: Angelim, Canhotinho, Ibirajuba, Jupi, Jucati, Jurema e Garanhuns.
De Canhotinho, a localidade de Olho D’Água é uma nas quais se lavra o congênere da fava e ela própria. E, de Olho D’Água, no Sítio Luz, D. Carminha (Maria do Carmo) roça, ara, semeia, xaxa, rega, cuida, colhe e debulha o feijão que vai para a panela de sua casa, da filharada próxima, de quem ela quiser dar e de quem comprar de quem comprou do atravessador para quem ela vendeu.
Não sei onde foi lavrada essa reserva de carboidrato que agora recebe a companhia da requentada porção do salpicão de domingo. Dessa vez, não veio de D. Carminha. Também não sei em que prato foi parar todo o feijão que ela plantou. Mas, sei que é da terra e do trabalho compartilhado por pais e filhos que brotam as mais saudáveis comidas que nos alimentam.
P.S. Na foto, D. Carminha debulhando sua safra de feijão 2025.
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Foto: André Fersil

