A linha do horizonte é infinita. Ela nos sugere infinitas possibilidades. Sem ela, estamos presos, sem saída. Nos tornamos reféns e estamos impedidos de voar.
Desertificar, asfaltar, verticalizar. Esse é o plano institucionalizado que vem se desenrolando em Porto Alegre nos últimos anos. Nossas áreas verdes, preciosidades de um tesouro verde inestimável (e patrimônio histórico!), erradicadas em segundos.
Porto Alegre já esteve entre as dez melhores cidades do Brasil para se viver. A cidade recebeu um destaque da ONU* em 2010 por ser a metrópole número um em qualidade de vida. Hoje, segundo resultados de 2024 do Imazon**, é a 12ª no ranking nacional e a 22ª em qualidade de vida em solo gaúcho. Porto Alegre já foi a capital mais arborizada do Brasil, mas não é mais; o título é frequentemente disputado e atualmente Campo Grande (MS) lidera o ranking de capitais mais arborizadas.
Ao longo das últimas gestões municipais, efetuou-se o desmonte de nossos órgãos ambientais, dentro de uma política de terceirização e privatização dos serviços públicos essenciais, aliada à venda de territórios para a especulação imobiliária, o que transformou a capital dos gaúchos num lugar desafiador para se viver.
Embalados e estimulados pela lastimável flexibilização das leis ambientais federais pelo Congresso Nacional, segue por toda a capital a supressão verde em moto contínuo. Em todos os bairros, todos os dias, os cidadãos se deparam com um verdadeiro e repreensível ARBORICÍDIO.
Árvores centenárias derrubadas como se nada fossem. Praças asfaltadas (pasmem)! Mata Atlântica suprimida para empreendimentos imobiliários questionáveis. Parques (públicos!) inteiros perdendo cobertura vegetal (histórica!) para asfalto e vagas de estacionamento.
Árvores mutiladas em nome de um suspeito e malfeito manejo de nosso patrimônio arbóreo, numa poda predatória e ineficiente.
Não aprendemos nada com a recente tragédia em nosso Estado. Às vésperas de sediar em nosso país a COP 30 e a Cúpula dos Povos, retroagimos em Porto Alegre para a Idade Média, para a Idade das Trevas, em que sucumbimos ao desertificar, asfaltar, verticalizar.
Somos uma cidade localizada geograficamente como receptáculo de toda a água da chuva que vem da Serra, e a cobertura verde que tivermos será nossa proteção contra enchentes e inundações… Mas somos ainda a Porto Alegre, em que os corpos hídricos, para nós, os arroios, são apenas mais uma lata de lixo, onde jogamos descuidadamente nossos resíduos, contaminando uma água que vamos consumir depois.
Assoreamos os rios, fazendo com que transbordem, sem a consciência de que essa água voltará para nossas casas, em forma de inundação.
Ainda cortamos árvores pela cidade, impermeabilizamos o solo e desmatamos para o agronegócio, impedindo uma drenagem urbana eficiente.
Para os ambientalistas e cientistas do clima, tudo isso é bastante óbvio, mas como conscientizar os gestores públicos e a população em geral dos serviços ambientais prestados por cada árvore da cidade?
O embasamento científico para as mudanças climáticas precisa ser contextualizado por meio de uma educação ambiental formal, que deverá ser institucionalizada em forma de Currículos Escolares Verdes, com ações educativas e formativas em escolas, influenciando positivamente suas comunidades de entorno. O comportamento e engajamento ambiental para as mudanças climáticas só acontecerão nos indivíduos com uma correta e estruturada intervenção nos currículos escolares, propiciando ações socioambientais efetivas e produtivas em todos os bairros da cidade.
Desejamos uma Porto Alegre resiliente às mudanças climáticas? Para tanto, é imprescindível a proteção de suas áreas verdes e de seus solos esponja.
Em Porto Alegre, queremos o correto manejo e cuidado com as matas nativas e com nossos arvoredos e bosques de parques e praças. Cuidado e respeito com cada árvore de nossas ruas e avenidas.
Que a poda de cada árvore seja seletiva, de acordo com sua espécie e nas épocas certas do ano.
Queremos o plantio de espécies nativas nas áreas devastadas. Queremos mais áreas verdes na cidade, em todos os bairros.
Precisamos educar a sociedade porto-alegrense para a valorização do Patrimônio Verde da cidade e dos benefícios para a saúde coletiva de seus habitantes, por meio de ação transversal e contínua nas escolas e suas comunidades de entorno.
Onde vão parar as árvores que nos são sequestradas? Na poeira dos nossos pulmões, no barulho ensurdecedor de carros e caminhões, na morte de abelhas e pássaros em nossas janelas.
Janelas sem horizontes.
Horizontes sem morros verdes, sem Guaíba: não são horizontes, são linhas-limite.
Horizontes são portas abertas; sem eles, estamos emparedados.
Sem horizontes estamos morando (e estaremos morrendo) nas fronteiras do absurdo.
Notas:
*IDHM Municípios 2010
**Índice de Progresso Social
Patricia Mansur, 57 anos, é gaúcha de Porto Alegre e inquieta desde o nascimento. No voluntariado desde os 14 anos, participa dos spins “Resíduos” e “Animais” do Poa Inquieta. Professora, mãe, mulher, ativista. Especialista em Estimulação Cognitiva para Idosos, Pós-graduada em ESG pelo IBMEC, membro voluntária da Associação Brasil sem Frestas Porto Alegre.
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Foto da Capa: Cristine Rochol / PMPA

