
Não foram apenas São Paulo e Caxias do Sul que receberam levas de imigrantes italianos no início do século passado: Belo Horizonte também os acolheu, vindos para trabalhar nas obras de modernização daquela que dividia com Sampa a condução dos destinos da República do Café-com-Leite. Operários que ergueram na periférica região de brejos da capital mineira um pedacinho de sua velha Itália; lugar que ficou conhecido como Lagoinha (brejo não é uma palavra que cai bem) e que fazia vizinhança com o canto onde se instalaram, pouco depois, outros imigrantes: os gringos do Colégio Americano (Batista) Mineiro.
Assim, foi entre mineiros e protestantes americanos que um patriarca de ascendência italiana, Serafim Vorcaro, se torna um pastor batista, concebendo e conservando toda sua família nos círculos evangélicos, associando sua grei ao crescente rebanho do também reverendo Márcio Valadão, sacerdote-mor da grandiosa Igreja Batista da Lagoinha, que, dentre seu mar de fiéis, tem o diácono Pedro, que é nordestino.
Pedro chega a BH pelo Baixo Jequitinhonha ainda criança, os parentes fugindo da seca, da fome e da miséria. Ele, o pai e os irmãos mais velhos arrumam trabalho de ajudante nas muitas obras que se erguiam na capital mineira.
Foi numa folga de domingo que ele conheceu a congregação de Serafim, que era pai de um rapaz que estava entrando no ramo dos negócios imobiliários e que já o tinha visto passar em algum canteiro de obras. Aos poucos, ir para a igreja ia se tornando a sua realização: ouvir a pregação da promessa de prosperidade enchia sua alma de gozo e esperança. Naquele santuário, as promessas não caíam no vazio: lembrava do tanto de ave-maria e novena que rezou para uma chuva que nunca veio, para uma seca que nunca terminou. Mas, ali, não. Ali, prosperava a cada trabalho concluído. Aprendia sempre uma coisa nova: já deixara de ser mero ajudante, tornara-se auxiliar de pedreiro, pedreiro e auxiliar de mestre de obra.
Progrediu ele e a igreja.
A denominação se ampliava em templos e rebanho, a família de Serafim progredia: Henrique, o filho dos negócios imobiliários, agora tinha linhagem formada e era, cada vez mais, abençoado com a expansão dos empreendimentos.
Neste interregno, a fé de Pedro era reconhecida por seus irmãos de credo: aquele tímido rapaz que chegara praticamente sem saber ler, iniciou estudos na Escola Bíblica Dominical, dirigiu cultos de oração, assumiu funções junto ao pastor e foi, por mérito, eleito diácono; a prosperidade era o sentido de sua teologia.
A bênção que a tudo e todos enriquece sobejava com o tempo: a Igreja de Lagoinha multiplicou-se em diversas congregações, adquiriu rádio, gravadora e programa na TV. O manto da bonança e da riqueza agasalhava a abençoada e conservada família Vorcaro; multiplicam-se as bem-aventuranças do patriarca, pastor Serafim, do filho Henrique e do neto, Daniel, que tornara-se banqueiro e pessoa muito importante, amigo de ricos e poderosos.
O diácono via isso tudo como a realização da promessa que se cumpre verdadeiramente, da bênção que engrandece a todos que têm a fé verdadeira.
Do clã, Daniel foi o que alcançou o mais alto cume do sucesso. Contudo, Pedro se consterna ao saber que, não seguindo o exemplo do profeta que lhe inspira o nome, o neto não emudeceu leões e nem se imunizou para o convívio na fornalha de pecadores. A soberba nublou seus olhos. Tal como Sansão e o filho pródigo, pôs a perder o poder e tesouros que lhe foram confiados.
Consternado, o velho diácono reforça suas orações a favor da linhagem do seu antigo pastor, se solidariza à vergonha da viúva e avó, se irmana ao pesar de Henrique.
Reunida sua parentela para o almoço dominical, admoesta todos, em especial os netos, sobre o perigo da vaidade. Resignado com a condição de pecado que condena todo humano, agradece aos céus por ele e seus filhos serem trabalhadores dedicados e honestos, por nunca terem sido jogados diante dos pórticos da luxúria e da sedução.
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Foto da Capa: Igreja Batista de lagoinha / Divulgação

