
Em 2024, a expectativa de vida brasileira para as mulheres atingiu 79,9 anos e 73,3 anos para os homens. A expectativa de vida ao nascer dos brasileiros em 1980 era de aproximadamente 62,5 anos.
Vejam como a longevidade é uma conquista crescente e um movimento que, iniciado na década de 70, rapidamente já nos transformou numa das populações mais envelhecidas do mundo. Estudos baseados no Censo de 2022 e projeções da Organização das Nações Unidas – ONU indicam que o Brasil já figura entre as seis maiores populações idosas do mundo.
Porém, frente aos nossos 35 milhões de brasileiros acima dos 60 anos, entre os quais 4,6 milhões de “superidosos” (pessoas com mais de 80), onde está o investimento de longo prazo para o envelhecimento da sociedade no geral?
Investimento que deveria estar em todas as áreas das políticas públicas, da educação à economia, do trabalho à assistência social, da saúde à cultura. E para todas as idades, pois longevidade é tema que precisa ser abordado desde a infância, como estabelecido no Estatuto da Pessoa Idosa e indicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Oferecer dignidade na velhice pensando em políticas com recortes de raça, sexo e renda se torna fundamental num país tão desigual como o nosso, em especial na área da saúde e assistência social.
Precisamos de um SUS, Sistema Único de Saúde, e de um SUAS, Sistema Único de Assistência Social, que atuem com planejamento unificado, de maneira integrada e de longo prazo, frente ao tamanho dos desafios que teremos pela frente.
Um exemplo?
Um dos fenômenos do envelhecimento brasileiro é a feminização da velhice. Mulheres vivem por mais tempo do que os homens. Eles morrem mais cedo, no geral, por conta da violência no trânsito e da violência urbana, morrem mais cedo, ou, ainda, por crenças machistas que dificultam o autocuidado, por imaginarem que ir ao médico para prevenção é demonstração de fragilidade e vulnerabilidade. Daí que mulheres viúvas, separadas, divorciadas, solteiras são a maioria da população idosa.
Outro aspecto dessa feminização é a baixa remuneração. Por causa do machismo estrutural, que remunera menos a mulher ao longo da sua trajetória profissional, se ela conseguir se aposentar, será com uma renda menor do que a masculina. Isso se traduz em uma qualidade de vida precária.
Um terceiro aspecto é o abandono. Nas velhices periféricas, por exemplo, ela pode ser a fonte de subsistência da família. Mas, quando adoecida, não terá quem a cuide, pois os membros da família não terão condições de cuidar dela porque precisam trabalhar e ganhar dinheiro. Nas famílias mais abastadas, o cuidado delas será terceirizado.
Também há um número cada vez maior de pessoas idosas sozinhas, por conta das novas configurações familiares. A taxa de natalidade atual é de 1,6 por mulher. E as uniões entre casais estão cada vez mais fluídas. Hoje já encontramos filhos únicos precisando se virar nos trinta para cuidar dos pais idosos (muitos separados). Imagine no futuro.
Um parêntese
Não podemos jogar para as pessoas e as famílias a responsabilidade de pensarem privadamente sobre o cuidado no envelhecimento. É papel do Estado, ou seja, nosso, garantir que quem não possa pagar por seu cuidado possa manter sua dignidade.
Sinto tristeza quando escuto pessoas criticando que não veem retorno dos seus impostos, como se essa relação fosse apenas uma relação entre dar e receber em troca por algo pessoal. Entendo que precisamos ter a certeza da boa gestão dos recursos públicos, para isso realizar o controle social. No entanto, penso que deve haver uma prioridade nesse investimento, onde em primeiro lugar, o dinheiro deveria ir para quem é mais vulnerável, mais frágil e atender ao maior número de pessoas.
Nesse sentido, se nem sempre o dinheiro do imposto que paguei “não chegar para mim”, mas estiver “beneficiando a quem mais precisa”, compreendo que estarei fazendo um papel de cidadã dentro da sociedade.
E daí?
É preciso planejamento. É necessário pensamento estratégico para o envelhecimento. A gestão pública enfiar a cabeça no buraco como avestruz não resolverá os desafios que temos pela frente.
Cito algumas ideias de projetos para gestão pública federal e estadual realizarem de maneira coordenada, que não são excludentes e que estão aí há anos. Mas até hoje não foram colocadas em prática de maneira planejada, na velocidade e volume necessários.
· A capacitação de servidores para atendimento de pessoas idosas para enfrentamento ao idadismo estrutural, diminuindo a violência.
· A inclusão da disciplina de gerontologia, cuidados paliativos e finitude nos cursos da área da saúde.
· A disponibilização de diferentes tipos de moradia para pessoas idosas, desde aquelas autônomas, que podem conviver em coliving, como instituições de longa permanência para pessoas com diferentes níveis de autonomia e independência.
· A implantação de Centros Dia, para estimular a socialização das pessoas que optarem por morar em suas residências, e apoiar em outras políticas públicas, desde campanhas de vacinação a programas de formação profissional.
· A criação de equipes multidisciplinares para atendimento domiciliar de pessoas idosas.
São projetos importantes para um Brasil que, em 20 anos, está envelhecendo o que a França levou mais de 100 anos para envelhecer, que promoverão transformações sociais relevantes, inovadoras. É preciso vontade; a necessidade é premente.
Este é um ano de eleições estaduais e federais. Quais serão os candidatos propondo programas específicos para essa realidade? O seu candidato alguma vez fez algo a esse respeito no mandato que cumpriu?
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.

