O Caduceu, na antiga Grécia, estava na mão de Hermes e simbolizava os mensageiros e os embaixadores. Esculápio, na tradição greco-romana, era o Deus da Medicina e também trazia o Caduceu como símbolo. Na Roma antiga, Hermes passou a ser Mercúrio, o Deus do Comércio e, hoje, o símbolo semelhante ao da medicina é visto no frontispício das Associações Comerciais de todo o mundo.
Não é de estranhar, portanto, o fato de que na agenda da Organização Mundial do Comércio (OMC), apresentada na conturbada reunião de Seattle (1999), tinha como destaque a privatização total da assistência à saúde, da educação e dos benefícios sociais (‘The Lancet’, 27 de novembro de 1999).
Esse atual enfoque prioritário da OMC reflete a crescente importância do setor de serviços no comércio mundial, principalmente com o proporcional declínio irreversível dos lucros na agricultura, na indústria e no comércio em relação ao setor financeiro.
De acordo com a própria OMC, o setor de serviços, do qual a assistência médica faz parte, participa e contribui com dois terços da economia da União Europeia e da metade de suas exportações para o resto do mundo. Nos Estados Unidos, o quadro é semelhante. Os serviços já são um quarto das exportações e contribuíram, nos últimos cinco anos, com um terço do crescimento da economia americana.
Os conglomerados financeiros transnacionais, os bancos e certos capitais de malcheirosas procedências estão apostando no sucesso econômico da prestação de serviços públicos e todos se engalfinham numa cruenta competição para abocanhar a parcela considerável das verbas que, do Primeiro ao Terceiro Mundo, flui dos contribuintes para os cofres estatais.
Uma importante entidade americana prestadora de serviços informa que ‘estamos progredindo nas negociações propiciadoras de oportunidades para os negócios nos mercados de assistência à saúde em outros países’ (‘ibid’). A delegação americana em Seattle disse mais: ‘Os Estados Unidos são de opinião que existem oportunidades para negócios comerciais dentro de todo o espectro da prestação de serviços médicos e sociais, incluindo hospitais, serviços externos, clínicas e assistência médica domiciliar’ (‘ibid’).
Albergadas no cavalo de Troia da OMC, estão as multinacionais da indústria farmacêutica e as tais de medicinas de grupo pré-pagas. Mas a expansão dessas empresas depende da abertura dos mercados nos serviços tradicionalmente prestados pelo estado. Para isso, a OMC e o Banco Mundial adotaram políticas asseguradoras desse gigantesco pulo de gato comercial. E, como canta a Zizi Possi:
‘Lá do alto do telhado
Pula quem quisé
Mas só o gato que é gaiato
É que cai de pé’.
E os governos do Terceiro Mundo, inermes e ineptos para resistir, ainda afofam o terreno para o pulo dos grandes e bulímicos gatos das finanças transnacionais. Sabe-se que estão sendo realizadas reformas nas instituições do estado, no sentido de permitir a captação dos fundos dos serviços públicos governamentais por empresas privadas, embora tais reformas sejam apresentadas ao contrário, isto é, as empresas é que, ‘compungidas e magnânimas’, auxiliariam e desobrigariam os governos de pesados encargos sociais.
Em toda a América Latina, hospitais e os serviços ligados à saúde da população, como o SUS, estão sendo ameaçados pela competição de provedores comerciais que objetivam prioritariamente o lucro. E o “managed care” faz parte dessa visão empresarial da assistência médica.
Afinal, o Caduceu – nestes chaplinianos tempos modernos – parece até situar-se melhor nas mãos de Mercúrio do que nas de Esculápio.
Franklin Cunha é médico e membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
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Foto da Capa: Mercúrio, por Artus Quellinus - Wikipedia

