A abertura do desfile das escolas de samba do Grupo Especial do carnaval carioca ontem, 15 de fevereiro de 2026, teve tudo para ser recordista de audiência: nunca um domingo de carnaval mexeu tanto com a política: uns querendo aproveitar o samba para melar a eleição de outubro, outros, garantindo que samba exaltação não pode ser motivo de punição.
A primeira escola a desfilar foi a Acadêmicos de Niterói, estreante na elite do samba, com homenagem ao presidente da República no enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, que conta a história do presidente e seus feitos no governo.
Pelos espaços que ganhou e polêmicas que provocou, pode, muito bem, ter sido protagonista da abertura do desfile de domingo de maior audiência da história…
E, também quase com absoluta certeza, pode-se dizer que estará, durante bastante tempo no pós-carnaval, evoluindo no noticiário político, tendo feito sucesso ou atravessado o samba na avenida…
Lula, o homenageado, esteve no Sambódromo? Ficou só no camarote? Desceu ao asfalto para beijar a bandeira da escola e reverenciar a Rainha da Bateria e o Mestre Sala?
E a primeira-dama, Janja da Silva? Sambou no chão ou no alto de um carro alegórico? Quem estava no último carro da escola, o dos Amigos do Lula? Alguma ministra sambou, algum ministro desfilou?
Hoje, segunda-feira do Carnaval de 2026, já se sabe como as arquibancadas da Passarela Professor Darcy Ribeiro, apelidada de Sambódromo do Rio, receberam o desfile da Acadêmicos de Niterói, recém-chegada ao Grupo Especial das Escolas de Samba do Rio.
Escrevo no sábado, daí a minha dúvida: o que ecoou mais nas cabines dos jurados? O samba-enredo, cantado pelo povo petista todo em pé, ou vaias bolsonaristas incentivadas pelos que vão – alguns já foram – à Justiça Eleitoral em busca de punir Lula por algum crime eleitoral?
E a minha curiosidade: os operadores de câmeras da Globo, os repórteres e comentaristas conseguiram atender às orientações da direção da rede?
O coordenador da transmissão tinha que estar com todos os reflexos em dia. A cada indício de propaganda política, ele precisava acionar a câmera que mostrava imagem panorâmica da escola, evitando detalhes…
Quer dizer, acho que vimos muito pouco samba no pé, pouco sorriso, pouca ginga no desfile da escola de Niterói…
Para os repórteres, a orientação é ainda mais complicada. Talvez eles tenham levado, além dos microfones, bolas de cristal. Assim, podiam atender à chefia e evitar entrevistas com foliões que quisessem manifestar alguma opinião política…
Já pensou? Um bolsonarista infiltrado na comissão de frente aproveitar a transmissão da Globo para fazer propaganda antecipada para a reeleição do Lula?
Acho que tivemos pouca participação dos repórteres, orientados, também, a conter qualquer animação mais carnavalesca e manter uma linguagem sóbria e comedida…
Mas e os comentaristas? Para eles, o pedido foi de que evitassem frases que soassem como empolgação… Agora, como conter a empolgação com o rufar dos tambores? Com o ronco da cuíca, o som dos repiniques, o choro dos cavaquinhos?
Será que a abertura do domingo do carnaval carioca, além de ser a de maior audiência, foi a mais monótona dos últimos tempos? Pode ser.
Mas monotonia é o que não teremos no pós-carnaval da Acadêmicos de Niterói. Se os adversários de Lula tentaram impedir o desfile da escola, imagine o que vão fazer depois do desfile.
Material para embasar denúncias de propaganda antecipada não há de faltar. Afinal, nenhum folião presente no sambódromo teve que cumprir orientações de sobriedade na cobertura do desfile.
Ninguém foi proibido de entrar nas arquibancadas, nos camarotes com celular ou câmera. E cada um pode produzir o material que mais conviesse ao seu interesse, gravar e editar as entrevistas que bem quisesse com gente da escola ou de fora dela.
A esta altura, os portais de oposição ao Lula, os sites dos partidos (o Missão, o PL e o Novo), da senadora Damares Alves (Republicanos/DF) e do deputado federal Kim Kataguiri (União/SP), que já foram ao TSE tentar denunciar propaganda antecipada e abuso de poder político, já estão bombando com o que eles consideram provas de abuso…
O julgamento do desfile no sambódromo acontece na quarta-feira. Sem possibilidade de pedido de vistas… Estreante na elite, é difícil que a Acadêmicos de Niterói consiga uma boa colocação. Há quem aposte em voltar ao segundo grupo…
O resultado político do desfile da Acadêmicos de Niterói não tem data definida. Vai depender das denúncias, dos prazos do Ministério Público Eleitoral.
Que vem chumbo grosso contra Lula, acho que ninguém duvida.
Mas a assessoria do presidente deve estar segura de que uma hora ou pouco mais de carnaval não põe em risco o tetra campeonato do político que mais venceu os desfiles eleitorais no Brasil.
Imagino que tenham levado em consideração o alerta da presidente do TSE, ministra Cármen Lúcia, de que a festa do Carnaval não pode ser “fresta” para crimes eleitorais e que há um “risco muito concreto, plausível, de que venha acontecer algum ilícito.” E completou a ministra: “Esse não parece ser um cenário de areias claras de uma praia, parece mais ser o cenário de areia movediça. Quem entra, entra sabendo que pode afundar.”
Será que os adversários de Lula não vão usar esses alertas como refrão de um desafinado coro contra a esquerda?
Ah! Quem vai presidir o TSE no período eleitoral é o ministro Nunes Marques, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. O vice? André Mendonça, também das hostes bolsonaristas…
É… este pós-carnaval, pré-campanha eleitoral, pode virar uma duradoura quarta-feira de cinzas…
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Foto da Capa: Cris Lucena / Acadêmicos de Niterói

