Chegou o carnaval. Folia na rua, como há em Olinda, Recife e em muitos outros lugares do Brasil. Blocos e troças esparramando gente por avenidas, becos e esquinas.
Sem falsa modéstia: esse folguedo de pessoas brincantes derramadas nas vias é criação do povo brasileiro. Tem muito entrudo bacana pelo mundo afora, mas essa com-fusão é coisa nossa.
O Carnaval nos instaura a nova esperança: esconjura o espírito doente do mundo. O fantasma crônico que assombra nosso tempo presente vai de retro com a chegada da alegria. É bem verdade que o mau e o mal sempre estarão nos rondando como uma possibilidade efetivável, porém, também sempre estará em nosso horizonte o alvorecer do bom e do bem.
Quem vem para a festa acaba deixando o preconceito para muito atrás do final do cordão. A diversidade inebria: é gente de toda cor pulando o que lhe seja frevo. É corpo negro, branco, pardo; não só indígena, oriental e nórdico, é ET, bruxa, marciano, fada, vampiro, zumbi e perna-cabeluda! É abraço de todos os braços, beijos de todas as bocas e beijos de tudo que é beijo!
O carnaval de rua é a epifania da pura democracia: é a participação do povo nas trativas e encaminhamento de sua própria celebração comunitária. O reinado de Momo não se dá a gerencialismos. Pode-se até administrar os desfiles na Sapucaí, os trios elétricos no Farol da Barra, os camarotes na Guararapes e, ainda, casarões em Olinda. Todavia, a festança é muito além do que isso. Não dá para superintender o alvoroço que salta e samba nos asfaltos, pavimentos e areias.
A folia de rua é uma das maiores contribuições que damos ao mundo. A sofisticada ideia de pecado é uma invenção da parte ocidental do planeta; então, não deixa de ser justo que tenhamos inventado também o carnaval. E, já que nossas promessas de progresso para toda a humanidade andam meio desacreditadas, que propaguemos, pelo menos, o que é por essência fantasia e ilusão.
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Foto da Capa: Prefeitura de Olinda

