Certa vez, o Verissimo escreveu que os sonhos são filmes realizados por diretores ensandecidos. O espectador que se vire para entender. No meu caso, o psicanalista… Tentei retomar o assunto diretamente com ele, quando viajamos juntos em um fusca amarelo para uma Feira, em Santa Maria. Ele não foi muito efusivo na resposta, e a Lúcia logo entoou outra história, estimulada pelos olhos empáticos do Fernando Neubarth. Até hoje não consigo explicar a realidade de havermos entrado em cinco naquele fusca (tinha ainda o robusto motorista), provando que os diretores, fora das telas, também podem ser ensandecidos na própria vida.
Voltando aos sonhos, eles também podem ser didáticos. Dia desses, digo, noite dessas, sonhei com uma atmosfera enfumaçada, assustadora. Eu cruzava uma floresta fechada, acompanhado de quem já não lembro. Só sabia que sentíamos fome, indo na direção de um restaurante promissor, situado na cidadezinha mais próxima. Aves farfalhavam como se fosse cair uma tempestade. Um grasnido aqui, um ruído acolá, sugerindo que algo muito grave estava para acontecer. Não deu outra na obra onírica daquele diretor previsível. Ao chegarmos na frente do restaurante, ouvíamos gritos do tipo POLÍCIA, MÃOS PARA O ALTO e outras cositas coercitivas até que o suspeito foi saindo do restaurante. Reconheci-o na hora. Era o Pablo Morenno, escritor e editor de alguns de meus livros para crianças.
Com aquela sensação tão real que alguns sonhos não evitam, lembro que, apesar da certeza de sua inocência, eu me senti impotente para ajudar o amigo e cheguei a pensar o que seria de todos os livros editados por ele, incluindo os meus. Aí é que está! Aquele sonho, na vigília, logo me pareceu transparente. Foi quando pensei que os livros são as armas mais potentes e perigosas contra o fascismo ou uma sociedade desigual e não pensante. Por isso, ao longo da História, são os principais alvos de Governos autocráticos que se valem de armas concretas para acabar de uma vez por todas com qualquer manifestação cultural, incluindo as abstrações em forma de livro, pois nos levam a pensar e a sentir, portanto a questionar e a não se submeter.
Freud, por exemplo, com um humor de Verissimo, comentou que observava no nazismo uma certa evolução na humanidade, declarando que agora limitava-se a queimar seus livros, e não ele. Uma ironia triste, mas com esta esperança alegre de que uma criança leitora jamais seria submissa aos pais e, depois, a seus substitutos. Um leitor tende a votar melhor e até mesmo a não permitir, dentro do que lhe cabe, que destruam o Planeta onde vive. Imagino que a polícia do meu sonho defendesse os interesses letais de algo ainda pouco lido, dentro de mim. A salvação, certamente, era a arma do Pablo, ou seja, os livros que ele portava, ilegalmente, naquele cenário.
Fiquei tão grato que, ao acordar, decidi escrever um novo texto para entregar ao editor. Já tinha até nome: o cavalo leitor. Seria a história de um equino que lia, logo jamais poderia ser encilhado e submetido aos humanos. Ele seria bem mais humano do que os próprios homens. Mas achei a história didática demais e decidi, antes de escrevê-la, incrementar as minhas leituras sobre o assunto até que me permitam fazer um texto tão interessante que mesmo os espíritos mais libertos desejem lê-lo.
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