Vivemos em modo fast-forward.
Na “sociedade do desempenho”, descreve Byung-Chul Han, substituímos o velho “tu deves” por um corrosivo “eu posso” — e nos tornamos chicotes de nós mesmos, exauridos pelo excesso de positividade que se disfarça de liberdade. Burnout, ansiedade e culpa são os novos impostos pagos à lógica da autoexploração.
Valores viraram etiquetas editáveis; princípios, linhas de código que se comentam quando atrapalham o fluxo. A política — lugar de tecer o comum — degringolou em reality show onde todos gritam, ninguém escuta. Os coletivos, antes pólvora de mudança, fragmentam-se em bolhas que se cancelam ao menor atrito.
Mas, antes que o cinismo nos engesse, ecoa a voz da antropóloga Margaret Mead: “Never doubt that a small group of thoughtful, committed citizens can change the world; indeed, it’s the only thing that ever has.” (1)
Se o mundo parece grande demais, lembremos que toda virada histórica começa na mesa de poucas pessoas obstinadas.
Para amar esse mundo em fraturas — e não apenas suportá-lo — vale ouvir bell hooks: amor é ato político que não convive com dominação; não é sentimento fofinho, é escolha diária de justiça relacional. “Love cannot exist in any relationship that is based on domination and coercion.” (2)
E quando o diálogo vira ringue, entra a Comunicação Não Violenta de Marshall Rosenberg: “No núcleo de toda raiva há uma necessidade não atendida.” Reconhecer necessidades, nossas e alheias, é atalho para a humanidade perdida entre likes e lacres.
O chamado do ser do inquieto
Ser inquieto é recusar a anestesia do scroll infinito.
É afiar o ouvido para a dor que ecoa nas entrelinhas.
É tecer pontes onde o algoritmo ergue muros.
É trocar o cansaço da exaustão pelo cansaço da criação — o único que, ao fim do dia, nos devolve algum sentido.
Não estamos aqui para concordar com tudo.
Estamos aqui para reformular perguntas, sem medo do atrito que polimenta ideias.
Porque a verdadeira luta não é contra o outro —
é contra tudo que nos desumaniza.
N.E.
(1) “Nunca duvide que um pequeno grupo de cidadãos atenciosos e comprometidos pode mudar o mundo; na verdade, é a única coisa que já fez isso.” (tradução livre)
(2) “O amor não pode existir em nenhum relacionamento baseado em dominação e coerção.” (tradução livre)
Dreyson Queiroz é sócio e head de Cultura de Inovação na CLASH, Agile Coach, Design Thinker, Facilitador Criativo e UX Designer. Tem especialização na área criativa, com pós-graduação em Antropologia e Transformação Digital. Criador do projeto "Conta pro Queiroz", é conselheiro do Clube de Criação/ RS, integra o board da UNESCO-SOST Transcriativa, é Fellow da ACUMEN. Participa de movimentos como Corporate Hackers, POA Inquieta, Rede de facilitadores Brasil, Domos Design (Instituto Caldeira) e OpenInnovationBR.
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Foto da Capa: gerada por IA.

