As bordas estão vivas, o centro, não. Mas o centro finge que está e, como não sabe mais criar, tenta invadir o que pulsa nas bordas — esse lugar onde o improviso é ciência, a gambiarra é método e o afeto é tecnologia.
Os centros vazios querem invadir as bordas, porém não sabem como chegar. Então o que fazem? Procuram um porta-voz.
Criam um “protagonista de borda”, de preferência com boa dicção e um discurso que caiba no PowerPoint, dão um crachá, uma hora paga e um cargo simbólico e chamam isso de inclusão. O centro vazio adora uma borda com crachá.
Adora alguém que saiba traduzir o gueto para a linguagem do edital, alguém que fale o idioma do marketing, que consiga transformar dor em storytelling, o suor em “case de sucesso”.
Mas, no fundo, o que quer mesmo é a foto. Aquela foto com a legenda: “somos um ecossistema diverso”.
Só que tem um problema: a borda tem a mancha.
Aquela mancha da vida real.
Do ônibus atrasado, do boleto, do improviso, da criação sem manual e o centro não sabe o que fazer com isso.
A foto sai tremida: sai com verdade, sai com corpo, sai com alma e o centro não tem filtro pra isso.
Seria bonito se o centro trouxesse a borda pro jogo de verdade. Se os recursos e acessos fossem distribuídos pra fazer o novo acontecer.
Se houvesse espaço pra cocriação real, e não pra “participação representativa”.
Mas o que se vê, na maioria das vezes, é uma política de cota disfarçada de convite. Uma tentativa de mostrar que as bordas agora fazem parte, quando, na verdade, continuam do lado de fora — só que com crachá.
A inovação só acontece quando o centro para de controlar o que acontece nas bordas.
Quando entende que o novo não precisa da sua chancela, mas talvez precise do seu microfone desligado por um tempo.
O que o centro chama de “ecossistema” muitas vezes é só status circulando em rede. Enquanto isso, as bordas criam com o que têm,
E seguem reinventando a cidade todos os dias, sem edital, sem palco, sem selfie.
A vida é sobre isso: sobre o ruído que o centro chama de caos e a harmonia que a borda chama de vida. Porque é ali — nas margens, nas vielas, nas brechas — que o futuro está sendo escrito, com caneta Bic e tinta de realidade.
Dreyson Queiroz é sócio e head de Cultura de Inovação na CLASH, Agile Coach, Design Thinker, Facilitador Criativo e UX Designer. Tem especialização na área criativa, com pós-graduação em Antropologia e Transformação Digital. Criador do projeto "Conta pro Queiroz", é conselheiro do Clube de Criação/ RS, integra o board da UNESCO-SOST Transcriativa, é Fellow da ACUMEN. Participa de movimentos como Corporate Hackers, POA Inquieta, Rede de facilitadores Brasil, Domos Design (Instituto Caldeira) e OpenInnovationBR.
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Foto da Capa: Agência Brasil

