O educandário, Colégio Costa e Silva, corria com bom renome pelas conversas dos genitores e com fama de impiedoso pelas bocas da meninada. Localizado num dos morros de Recife, o prédio fora projetado com os grupos das salas em níveis inferiores em relação ao edifício das secretarias e escritório da direção, que se projetavam austeros e sóbrios na altura da rua principal. Estreando a primeira década de existência, o menino tentava disfarçar seu desconforto ao descer a longa rampa que dava acesso ao escuro passadiço, ao qual se abriam e se fechavam, uma ao lado da outra, as avantajadas portas das classes. As carteiras altas (os pés mal alcançavam o chão), a luz amarelada das lâmpadas de filamento e o aziago ruído monótono do ventilador de teto agouravam no menino pressentimentos dignos de qualquer estória de Stephen King.
O quadro de suspense pintou suas cores mais cinzentas ao deparar o infante com aquela disciplina notória em retardar as férias e em manchar de encarnado o boletim de notas: a matemática; cujo docente, do alto de sua autoridade, acionando sua racional didática, já na primeira aula, apresenta, naquele momento de recepção, toda a complexidade abstrata que os perseguiria doravante: “A Matemática é a lógica materializada por meio dos símbolos!”.
Na mente daqueles jovens, a incógnita aberta por essa máxima só não era mais misteriosa do que as razões que justificavam o funéreo paletó preto trajado pelo docente naquele ambiente carente de frescor.
À aula das exatidões numéricas, seguia aquela que disputava com a primeira o torneio da rigidez: a disciplina de Língua Portuguesa. Sua regente, lábios finos e olhar regulador, também neste encontro inaugural, anuncia que, doravante, a inobservância às regências verbais e nominais, escritas e, principalmente, faladas, incorreriam na pena de se ter que escrever a frase correta na lousa, durante o recreio e na quantidade de vezes que a pedagogia da mestra dosasse. Além do que, ainda neste exórdio, toda expectativa em ser conduzido aos prazeres da literatura fora frustrada diante da determinação de se fichar o Ubirajara de José de Alencar.
Certo dia, o atraso na passagem de um docente para outro e o desentusiasmo com a aula que seguiria atentara à oportunidade de se evadir. O que era clausura e isolamento imposto pelo corredor, agora estariam a seu favor: as portas fechadas das outras salas, a pouca luminosidade no vão e o afastamento do prédio da administração seriam seu resguardo. Cauteloso, sai do cômodo caminhando lentamente, quase raspando a parede, passa pela frente das outras turmas escutando ruídos de vozes. Viu a luz que vinha do nível superior iluminando a entrada da rampa de subida no fim daquele semi-subterrâneo.
Antes de dobrar a quina da parede e dar o primeiro passo para sua ascensão, todavia, tropica, praticamente enlaça-se com a diretora.
A gestora era uma das autoridades civis daquele bairro, afora ser a única pessoa que tinha telefone em casa. Já trabalhava naquela escola desde os tempos em que a genitora do menino estava nos bancos escolares: conhecia todos os cantos e recantos dos muros aos corredores, que costumava percorrer atenta e silenciosa, olhar espreitando professores e alunos, cuja severidade antecipava àqueles infantis pecadores o que poderia advir no dia do Juízo Final.
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Foto da Capa: Arquivo Agência Brasil

