Praticamente, no primeiro dia que saio para flanar por ruas portuguesas, depois de executar os encaminhamentos da chegada para uma longa estadia e da abertura dos trabalhos que objetivam minha temporada na terra de Saramago, me deparo com uma cena que já me foi muito familiar: um grupo de jovens militantes (não passavam de meia dúzia) empunhando bandeirinhas e fazendo campanha eleitoral porta a porta.
Magnetizado por uma atração decorrente seja da curiosidade, seja de alguma afinidade de esperanças, fui ter com eles. Se dividiam entre militantes do já centenário Partido Comunista Português e do Partido Verde. Inclusive, estava no grupo uma candidata à Assembleia da Freguesia. Fiquei feliz com a séria animação daquela moçada. Segui-os por umas três ou quatro portas: alguns sorrisos receptivos, algumas mãos receptoras aos panfletos ofertados, uns olhares reticentes, outros resistentes e, um e outro, hostil. No percurso, me falaram da política em Portugal, se solidarizaram com o Brasil e tentaram me explicar como é que é o sistema de representação em seu país: complexo, se comparado às nossas eleições sem voto distrital, sem lista partidária e sem parlamentarismo.
Semanas depois, veio o resultado. E, já adianto que a frente partidária da jovem candidata não logrou sucesso no pleito e que o partido de extrema direita, o Chega, se colocou como a terceira agremiação mais votada.
Antes das eleições, a poucos dias depois de ter encontrado o pequeno grupo da grande tarefa contra hegemônica, numa rua próxima àquela, passa um tipo de trio elétrico. Longe estava das dimensões dos gigantes soteropolitanos, era um caminhão pequeno, desses que levam hortaliças para os CEASAs, munido de caixas de som com um minúsculo palco montado em cima, de onde distribuía sorrisos e acenos um candidato do mesmo Chega, ladeado (em ambos os lados das calçadas da rua) de uniformizado séquito a distribuir bem editados infográficos impressos em reluzente papel couchê.
Não vou aqui rascunhar um tratado sobre o fim da democracia, o tema está tão recorrente hoje que até catedrático da conservadora universidade de Harvard publica estudos sobre a questão. Portanto, não tentarei invocar nenhuma verdade metafísica tentando explicar as incertezas de sua realidade. Sobre a democracia, acredito que é um termo que serve, dentre outras coisas, para atribuir um tipo de qualidade a um modo de relação entre pessoas ou das pessoas em meio a suas instituições. Assim, uma relação seria democrática quando é possuidora do atributo participativo, isto é, as pessoas envolvidas na relação têm a prerrogativa de, de certa forma, participar da dinâmica dos processos e da vida da instituição da qual fazem parte.
Todavia, reconheçamos: a definição acima é impotente para orientar uma análise crítica consistente sobre os intrincados e diversos processos e dinâmicas das relações de poder sobre as quais alguém, de algum modo, reconhece como democracia. O crônico do ocaso da democracia é a narração do presente no qual a participação da comunidade no trato e encaminhamento de sua própria vida comunitária não existe e parece não fazer falta nenhuma. O crônico diz do gerencialismo que substitui o processo político democrático sem deixar lembrança ou saudade.
Por sua vez, os sistemas eleitorais e delegativos seguem bem. A despeito de alguma controvérsia envolvendo a eleição de Maduro e as reconduções de Putin e Xi Jiping, nada se pode dizer da lisura técnica do pleito que sagrou o neoimperialista Trump ou o genocida Netanyahu.
Infelizmente, não é mais do presente em Recife, e de toda rede escolar de Pernambuco, o pedagógico e rico processo de eleição direta para Diretoria da Escola: isso é coisa do passado, já há algumas décadas. Agora, é natural que a gestão de uma escola pública seja uma prerrogativa iminentemente técnica, que responda primeiro às demandas administrativas pautadas por um determinado governo e que maneje essa prioridade tendo por baliza a relação com alunos, professores e mães (não são muitos os pais presentes nos assuntos escolares).
Não foi sempre assim que se entendeu a escola: um dia, ela já foi pensada também como espaço de experiência e educação democráticas, do tipo de democracia que significa participação. Já foi pensada como uma instituição que pretendia, primeiramente, formar para a prática da cidadania, que não se deve confundir com a mera instrumentalização para as disputas no mercado de trabalho.
Sou da fé que não devemos nos furtar a expressar o sentimento que nos atravessa ao estar em vida no mundo. É de todos nós (junto com toda a gente) o ofício de tentar captar os sentidos do hoje, procurar entender para onde aponta e buscar interferir no desfecho do que se possa ter como destino trágico. Acredito que esse trabalho é a tarefa da consciência democrática, que nos dias de hoje, pelo menos na minha terra natal, já não conta plenamente com a escola para essa conscientização.
Para Dione Silva Ferreira, a primeira diretora eleita do Colégio Polivalente Dom Sebastião Leme, escola pública do Ibura, bairro popular do Recife, que atualmente ainda comporta o Grêmio Estudantil Os Revolucionários.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

