Por conta de uma temporada de trabalho, encaixo um tempo para perambular por ladeiras de Coimbra e Porto, por ruas de Évora e Lisboa, vielas de Roma, praças de Madrid, boulevard e metrô de Paris, encontrando o similar contingente de homens e de mulheres de todo canto do mundo. De toda diversa população, me atraem em especial atenção as mães e seus rebentos: poderosas negras africanas puxando pela mão suas vivazes crianças, atentas muçulmanas conduzindo carrinhos com animados bebês, lépidas orientais seguidas por cordiais adolescentes, zelosas latino-americanas advertindo garotada já comportada. Do atual primeiro-ministro da Inglaterra e dos reinos unidos a ela, passando pela cirurgiã de plantão no Hospital Universitário de Coimbra, pelo jovem cantor francês de sucesso e incluindo o trabalhador que martela a reforma de uma renascentista vila romana, percebe-se claramente a pluralidade de etnias e tipos de corpos; colorido com o qual já convivemos há muito tempo nas grandes cidades do Brasil, com a diferença de que a multidão das línguas faladas constitui uma santificada Babel: há ocasiões nas quais, por vários minutos, não se escuta o idioma nacional do local. Pelo que se vê nesses lugares, aquele mundo europeu de tipos pátrios característicos, de peculiares fenótipos nacionais, não mais reveremos.
Outra faceta da vida desses povos que também capturou meu olhar foi a mistura étnica de casais: nos cinemas, nos bancos das praças, nos gramados ao pôr do sol, o bem-querer se aninha sob os mais plurais tons de pele, os mais diversos arranjos de afetos. As gerações futuras terão, de berço, leques de múltiplas referências e de matrizes culturais.
Contudo, essa era de inovadoras diversidades é ainda o tempo no qual ressurge os mais retrógrados nativismos e discriminação. Não é que o segregacionismo não existisse antes: a questão é que o estado crônico a que chegou o faz manifestar-se, agora, enquanto discurso e pauta política, sem máscaras. Grupos disputam o poder dos governos e Estados tendo como bandeira a xenofobia: o racismo que visa atingir o outro mirando sua origem ancestral.
Obviamente, esses preconceitos também existem no Brasil: conheço pessoas negras que sofrem preconceito diariamente, numa das cidades de maior presença de população afrodescendente do país, Recife, onde eu e meu irmão já tivemos de desistir de pegar um táxi porque nenhum deles parava para nós dois: uma dupla de homens afrodescendentes. O espectro do racismo crônico assombra as possibilidades de nosso futuro enquanto sociedade brasileira. Não esqueçamos: há menos de cinco anos, o presidente da Fundação Palmares, um homem também negro, negava a tragédia da escravidão e renegava a memória de mulheres e homens negros que combateram o racismo no Brasil. E o mandatário, então eleito para presidir o país, se referia, em ato público, aos corpos das pessoas de uma comunidade quilombola usando a medida da arroba, aquela com a qual se pesa gado. Ainda não está plenamente efetiva nos discursos e pautas de nossos candidatos de extrema direita a xenofobia como bandeira; ainda não temos plenamente estabelecida uma agremiação partidária que, assim como o Chega, em Portugal, o Vox, na Espanha, ou o Rassemblement National francês, tenha o chauvinismo como fundamento de projetos de lei e de gestão de governo. Não sai da minha cabeça o inquietante pensamento de que o crônico preconceito que hoje assola essas sociedades era, não muito tempo atrás, uma envergonhada e risível possibilidade.
Entre uma tarefa e outra, inclusive a conclusão deste texto, vou ao supermercado, onde duas alegres crianças, em um idioma que me pareceu o árabe, atravessam meu caminho, requerendo dos pais o doce de preferência. Na volta, semáforo aberto para pedestres, tenho que, urgente, desviar a trajetória para não colidir frontalmente com o casal que, compenetrados um ao outro, certamente não conseguiam ver mais nada à sua frente que não fosse um futuro de desejos a gozar: consortes compostos por uma pessoa de traços sino-nipônicos e outra de origem africana.
É inquietante a paradoxal normatização da xenofobia, onde também prolifera a mais viva diversidade étnica. E o crônico desse nosso tempo é que a força da intolerância segue se naturalizando como uma realidade também tão viva que estigmatiza os sentimentos de comunhão e de altruísmo com a pecha das coisas que vivem no passado: o anacrônico.
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