Na noite na qual se comemora o aniversário de Jesus, longe da família e driblando a possível melancolia de degustar seja lá o que fosse sem a presença dos consanguíneos e agregados, reservei lugares para mim e minha consorte num jantar oferecido por uma guia gastronômica. O rassemblement se deu no próprio apartamento da chefe, estando a mesa ornada por culinária de requintes descabidos. O coletivo, além de nós dois, era composto pela anfitriã francesa, por um casal de irmãos (o rapaz radicado na Inglaterra e a moça em Miami); um norte-americano e uma chinesa. Em certa altura, decorrente dos irmãos e o rapaz terem se descoberto conterrâneos, a turma vivencia um momento de subdivisão temática: os estadunidenses conversando sobre o tema que mais os une, os Estados Unidos; minha companheira proseando com a dona da casa, que, havendo anunciado a ascendência portuguesa, facilitou o intercâmbio linguístico; e, eu e a moça do Reino do Meio. Com quem inicio conversa, cometendo uma gafe geopolítica, pois, ao se apresentar como chinesa, perguntei, logo de imediato, como é a vida em Taiwan?
Ela, dirigindo para mim um olhar de pura isenção, diz ser natural de Pequim. Comunicando-nos pela língua pátria de Jackie Chan (que, nascido em Hong Kong, em 1954, é, portanto, britânico nato), fico sabendo que estava a trabalho, que também tinha casa na Austrália e que, em média de dois em dois anos, voltava à terra de Mao Tsé-Tung para visitar o grande clã parental.
Mobilizado pelas cordinhas que minhas ideologias soltam e puxam dentro da minha cabeça, indaguei (umas duas ou três vezes) como é que uma jovem mulher do país de Xi Jinping via esse nosso mundo capitalista e consumista, quais eram as impressões (e expressões) dos mundos de uma profissional da área de comércio que vivia entre uma urbe oriental habitada desde os Homo erectus, entre uma das capitais do mundo ocidental e a grande nação da Oceania?
Como disse, reformulei a pergunta algumas vezes, inicialmente, crendo que o estudo no idioma da atriz Lucy Liu não estava me habilitando para tal. Todavia, após uma rápida e discreta consulta a um dos norte-americanos se aquilo que eu intencionava interrogar estava realmente sendo perguntado, percebi que o problema não era o meu inglês (que, com interrupções, vem sendo cultivado desde os bancos do ci-ci-ei-ei): o impasse era que minhas questões não faziam sentido para ela. E, aquele olhar neutral com o qual me mirava não era indiferença ou qualquer distanciamento blasé, não era incapacidade de compreensão: era incompreensão, pura e simples. O substrato das minhas dúvidas são os juízos de valor sobre culturas e civilizações: é a estipulação de uma escala e métrica civilizatória. No fundo, eu estava perguntando (ou pedindo para que ela confirmasse) o que é falta e o quanto ela vê de pecaminoso em nós e no mundo? Porém, isso não fazia sentido nenhum para ela…
Meses atrás, havia sido apresentado a outras jovens chinesas. Estas não vinham de Pequim, eram provenientes do Oeste e centro. Estavam chegando a Recife para, em convênio com uma universidade pública, ministrar aulas de mandarim. Me chamou a atenção a camiseta de uma delas, estampada com a capa do LP Nevermind, do Nirvana. Seguindo a conversa na língua de Bruce Lee (nascido no bairro de Chinatown, San Francisco, EUA), disse-lhe que também era fã do grunge e perguntei quais as músicas de que mais gostava. Após uns instantes necessários ao entendimento (que atribuo à dificuldade de qualquer falante do inglês em compreender minha versão do British accent), a professora responde que não conhecia a banda de rock, que comprou o t-shirt porque achou bacana a estampa: aquela do recém-nascido quase se afogando em busca de uma nota de um dólar.
A merchand que conheci no natalício do Messias cristão e as mestras chinesas não estão evangelizando nada. Eles não querem nos converter, não querem estabelecer colônias de povoamento. Não estão militando em nenhuma cruzada moral. Não querem ser a vanguarda de nenhuma marcha esclarecedora, não são os missionários de nenhuma fé salvadora.
E, eu acho que é isso que tanto assusta a alguns ocidentais: eles não querem disputar nem fé nem credo; daí, o que fazemos nós com nossa imaginada missão civilizatória?
O ocidente vai deixar de existir porque nunca foi uma coisa real: sempre foi uma invenção dele mesmo. O ocidente inventou o oriente: é o que me disseram ter escrito Edward Said. Talvez ele ainda tenha dito, inclusive, que o ocidente idealiza a si mesmo ao inventar o oriente.
Essa divisão é criação nossa. Funcionou enquanto aquelas áreas do globo eram para onde se ia pegar especiarias. Hoje, não é mais assim: a China é a maior parceira comercial da maioria dos países do planeta, incluso USA, UE e MERCOSUL; o PIB da Índia é maior que o da Inglaterra, o reino da imperialista Rainha Vitória.
Sempre acho que a trans-hemisférica União Soviética (tão temida por tantos no ocidente capitalista) foi a derradeira tentativa ocidental de catequizar o mundo, de ser o modelo para todos, de ordenar coisas e vidas segundo uma crença, um plano espelhado numa promessa de progresso – para toda a humanidade – engendrada por cabeças da parte de cá do planeta.
Acreditando, o nosso canto ser a sociedade da eterna aurora, a luz que, exatamente todo dia, sempre renovada, vence as trevas e a tudo ilumina, a URSS foi nossa última grande elaboração, a final tentativa de uniformizar o que entendemos por ocidente e oriente sob um mesmo figurino.
O crônico do suave e implacável crepúsculo ocidental escreve a ausência do cruzado, do jesuíta, do jacobino, do missionário batista, do capa-preta comunista, e a chegada da pequinês chic e serena, da cantonesa moderna e independente.
Tempos atrás, conheci um soviético. Estava hospedado na casa de uma família amiga, também professor, mas universitário. Era final da década de 1980. De soslaio, eu escutava a conversa dele com os pais e as mães da casa. Debatiam sobre os rumos da história, lamentavam aqueles dias difíceis: já havia caído o Muro de Berlim e o desmembramento da URSS era fato já contado. Perto de partir, lembro do eslavo (branco, alto e mãos grandes) mimoseando um teclado para computador que logo em breve estaria acondicionado na bagagem de retorno. Pelas conversas, apenas aquela peça, quando vendida em Moscou, no mercado de contrabando, seria equivalente a praticamente o custo de toda sua viagem ao Brasil.
Os canhões ocidentais já não são tão amedrontadores e nossos preceitos não convencem (nem aliciam) mais ninguém. Nossas promessas perderam seus crédulos, tanto aqui dentro quanto lá fora. E, o crônico de sua falência é que, quem surge, vem sem jura nem pregação, não se sabe se quer ficar; chega sem cindir o poente do alvorecer.
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Foto da Capa: Capa do LP Never Mind / Nivana

