Delicados botões se libertavam das gavinhas agarradas ao velho muro de pedras, se projetando ao encontro do sol gentil da primavera. As flores do maracujá não podiam mais esperar para se abrirem. Grossas pétalas verdes começaram a mostrar sua intimidade: coroa roxa em filigranas se oferecendo às abelhas e beija-flores. Ísis observava, dia após dia, a evolução da flor. E sentia a promessa do fruto tal como a do eu novamente no seu íntimo.
Longos meses haviam se passado. Úmidos e gelados, de sombras permanentes. Para Ísis, os dias do outono e do inverno foram mais compridos do que a claridade delimitava, as noites mais curtas do que a escuridão desenhava. A casa – com o longo corredor que findava em janelas de grades brancas, voltadas para o lago cinza prateado –, um casulo de hipóteses na sofreguidão. Distâncias infindáveis a garota percorreu nos vinte metros do corredor em linha reta. Atorado no meio por três lances de escada, ora davam seguimento, ora invertiam sua busca. As torneiras domésticas transformadas em fontes inesgotáveis de água purificadora, para mãos lavadas à exaustão. O pai – a todos curava com seu estojo metálico de injeções que fervia sobre o fogo – lhe aplicava, delicadamente no braço, uma substância roxa para o sistema nervoso central. Mas nada podia com os olhos de abismo da filha.
Muitas vidas ela viveu. E, a cada uma, seu corpo endurecia na grama orvalhada, saturado na consciência exausta de violência e poder. Ísis tremeu o frio crônico das crianças nas ruas; chorou o sorriso jamais esboçado no rostinho dos órfãos de leprosos; andou atrás do pequeno índio barrigudo de nariz escorrendo; tentou responder aos tambores embaixo da terra vibrando a negritude de lamentos milenares; escondeu-se atrás da porta do quarto e, como cachorro raivoso, rosnava em silêncio para os pais e o irmão, que lhe pareciam fantasmas se movendo a esmo pela casa. Quando ela vagava pelo teto do seu quarto rosa e branco, enxergava-se deitada, imóvel, na cama. Com o passar do tempo, começou a sentir saudades de quem quer que fora. Falta daquele corpo ali, tão perto e tão distante. Então, admitiu dar a mão para uma fada azul disfarçada de psiquiatra e entrou em um labirinto de adivinhação sobre si mesma.
Meses depois, num dia muito claro do final daquele inverno de trevas, Ísis sentou ao sol e recomeçou a ler. Escolheu a trilogia O Tempo e o Vento. Amava o vento tanto quanto Bibiana Terra Cambará – “As coisas acontecem quando venta”, dizia a velha senhora de Erico – e todas as manhãs, página após página, a história daquela gente verdadeira lhe contornava um universo paralelo. Levantava-se do chão, onde se acomodara de encontro ao sofá com almofadas e manta, e, da janela de grades brancas, contemplava o largo e belo lago. A cada 24 horas cumpridas pelo carrilhão da sala de jantar, angustiava-se menos com os navios que riscavam as águas encrespadas pelo Minuano, em direção ao lugar bonito para onde também gostaria de ir.
A primavera avançou e Ísis agora alternava o último volume do Arquipélago com breves passeios no pátio. Caminhava devagarzinho, absorvendo o brilho do sol no olhar opaco. Acompanhava as borboletas amarelas em seu livre vôo desorientado. Estancava diante do muro de pedras e introjetava o desabrochar da flor do maracujá. A polinização tomava lugar também no seu coração. Sentia o eu voltando, como um barquinho solitário, que é apenas um ponto dentro do nevoeiro, e vai se aproximando lenta, muito, muito lentamente da margem do lago.
No final do verão, Ísis se resignara com o curso ininterrupto da vida, que segue como o rio entre as pedras limadas, a despeito de todas as violências e injustiças. A garota juntou suas partículas no seio da família, estruturou as memórias e voltou à universidade para recuperar o ano perdido – precisava seguir rumo ao futuro, mesmo que ainda não o conseguisse sonhar.
Todos os textos de Vera Moreira estão AQUI.
Foto de Capa: Bigdodd11 – Pixabay

