Juliana não resistiu. Morreu sozinha à espera de uma ajuda que nunca chegou, uma mão que não se estendeu, um olhar que se desviou quando mais precisava. Foi deixada para trás, não por acaso, mas por descaso. Por quem deveria ter lhe mostrado o caminho. Por quem carregava a responsabilidade de guiá-la, por colegas que poderiam, ao menos, ter parado. Qualquer um deles poderia ter feito a diferença.
Juliana sucumbiu não apenas ao cansaço do corpo, mas ao desgaste de ser ignorada por quem deveria protegê-la. Sucumbiu à dor de ser abandonada à própria sorte, esquecida no meio da neblina, quando tentava sobreviver. Partiu sem um último abraço dos pais, sem um sorriso amigo, sem o conforto de uma cama quente onde pudesse repousar. Foi embora sem se despedir de ninguém.
Juliana não teve uma segunda chance. Pagou caro por ousar ser quem era, por desafiar os limites impostos ao seu corpo feminino, à sua delicadeza de mulher. Por ocupar um espaço que tantos ainda acham que não lhe pertence. Sua morte não foi apenas uma tragédia: foi um retrato cruel de uma cultura que, diante do sofrimento de uma mulher, ainda hesita em parar.
Se tivesse ficado em casa, não teria morrido, disseram os defensores da moral e dos bons costumes. Os mesmos que apontam o dedo para qualquer mulher capaz de mudar as regras, de tomar as rédeas da própria vida. Que fingem não saber que meninas também morrem em casa, sufocando silêncios nos cômodos apertados da submissão. Morrem sufocadas pelo medo, pelas proibições, pela violência disfarçada de zelo. Estes, ainda fingem não entender que grande parte das mulheres não tem nem uma trilha nem um lar para onde correr porque o perigo está em toda parte. E o mundo, para elas, continua sendo um campo minado.
Juliana disse sim à vida, aos seus desejos, à vontade de explorar o mundo com os próprios passos. Carregou a esperança de ser livre sem ser punida por isso. Mas foi punida. Não por seus erros, mas por sua coragem. Para os que confundem proteção com controle, cuidado com vigilância, amor com obediência. Para aqueles que preferem as mulheres que dizem “não” à liberdade, às próprias vontades e ao direito de dizerem não, mas não toleram ouvir esse mesmo “não” quando lhes é dirigido. Quando retratam a vontade das mulheres que convivem com eles.
O livro Ela disse não, da autora leopoldense Kátia Müller Dickel, traz treze contos inspirados em mulheres que, apesar de dizerem “não”, sofreram violências físicas e psicológicas por seus companheiros. Publicado pela Editora Metamorfose em 2023, o livro retrata as lutas e as dores dessas mulheres tratadas como objetos por homens que se consideram os seus donos. São narrativas que denunciam relações marcadas pelo controle e pelo abuso, nas quais os agressores tratam suas parceiras como propriedade, ignorando sua autonomia. Histórias capazes de provarem que, às vezes, estar em casa pode ser mais perigoso do que estar no cume de um vulcão.
Juliana, Marins, a jovem morta depois de cair de um penhasco na Indonésia, assim como tantas mulheres retratadas em Ela disse não, teve sua liberdade desconsiderada. Sua morte foi a evidência de um sistema que falha com as mulheres todos os dias. Juliana caiu de um penhasco, mas poderia ter caído em qualquer lugar onde a negligência se disfarça de normalidade. Em qualquer esquina onde uma mulher é seguida. Em qualquer casa onde o silêncio é imposto com gritos ou com medo. Em qualquer corpo que, mesmo gritando por ajuda, segue não sendo ouvido. Sua queda foi física, mas carregava o peso simbólico de tantas outras quedas.
O sistema que falhou com Juliana é o mesmo que silencia mulheres em suas denúncias, que duvida de suas palavras, que romantiza o controle e minimiza a violência. Juliana morreu tentando viver. E é por isso que sua história precisa ser contada. Para que outras não sejam caladas. Para que o mundo, enfim, pare, olhe e escute sempre que uma mulher precisa de ajuda.
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