Veio da poeira, na obra do 1401. Não protegeram o sensor de alarme na hora de serrar um móvel. Foi pó para tudo quanto é lado e a inteligência artificial do aparelho aqui é burra e ainda não distingue alhos de bugalhos. Não, não é spoiler, embora este será mesmo o fim do texto. Mas o fim aparente. Na essência, nem acabará.
Tocou, enfim, o alarme e descemos eu, Ana e Boris, como manda o figurino. Quer dizer, o protocolo de segurança. Ou seja, pelas escadas, nada de elevador. Vínhamos do 1201, dois andares abaixo, mas ainda com muito degrau pela frente, sem contar a necessidade de levar o Boris no colo e protegendo seus ouvidos, pois os cães são muito sensíveis aos sons estridentes.
Fomos bem até o décimo, quando topamos com o engarrafamento humano. Era o seu Sami, 92 anos, com duas muletas na frente e uma cuidadora de cada lado. Esta é a hora em que se testa uma empatia e nisso meus pais sempre me ensinaram a ser aprovado. Sem empatia, em uma questão de vida e morte como aquela, poderíamos até pedir licença aos outros três e descer rápido, no nosso ritmo ainda não nonagenário.
Não o fizemos. Fomos atrás, em bando, respeitando a ordem de chegada ao corredor e à vida, com o vício inveterado de psicanalista que confia no poder da palavra. Nossa palavra, portanto, ia dando força para a fraqueza do seu Sami, ótimo, assim mesmo, o Senhor está indo muito bem, falta pouco, está quase lá.
Terminado o episódio (não, não é novo spoiler), ainda tenho dúvidas de se ele ouviu. Seu Sami estava tão concentrado nas muletas em frente e no apoio ao lado, que os olhos não desgrudavam do próximo degrau. E ainda haveria uma multidão de próximos. Ali pensei que ele não pagou para ver se o alarme era falso, como o não spoiler já revelou, e tantas vezes tinha acontecido no prédio. Seu Sami não permaneceu em casa com seus 92 anos, encolhido para a pedreira de 10 andares. Nem rompeu o figurino-protocolo e pegou o elevador, contraindicado em casos como esse. Ele tinha o olhar e fazia os esforços de quem, aos 92, queria muito viver.
Isso ainda estava estampado no seu sorriso, quando chegamos todos, sãos e salvos, no térreo. Podendo agora nos olharmos de frente, ele nos deu um sonoro bom dia, acariciou a cabeça estressada do Boris e abriu o celular para avisar a família de que estava bem e pronto para a próxima aventura. Agora sim terminamos, sem spoiler, embora tanto desejo de viver aos 92 possa ser uma espécie de poeira que desativa os sensores de todos os fins.
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Foto da Capa: Reprodução da Internet

