Há algum tempo deixei de comemorar certas datas. Quando descobri que, em grande parte, elas não passavam de estratégias para impulsionar a economia em determinados períodos do ano, perdi a crença no romantismo fabricado e vendido junto com elas. O Dia dos Pais é uma delas. Sei que essa tradição existe há mais de quatro mil anos e acredito que, naquela época, o sentido atribuído à comemoração fosse outro. Hoje, porém, o que vejo é um apelo comercial que transforma afeto em presentes caros e compras parceladas. Uma corrida desesperada para agradar o melhor pai do mundo com um delicioso almoço de domingo e uma grande quantidade de objetos que ele nem sabia que precisava, mas a mídia o fez acreditar não ser possível viver sem eles. Não importa que no resto do ano esses filhos e pais pouco se encontrarão, o importante é o momento. E no meio de tudo isso vem a dor daqueles que não se enquadram na ficção das famílias das propagandas comerciais.
Meu filho tem um pai maravilhoso. Meu pai foi o melhor que eu poderia ter, mas nunca precisei de um dia específico no calendário para me lembrar disso. Há quem insista que o Dia dos Pais é uma data de união, mas, desde criança, sempre percebi a fragilidade dessa afirmação. Lembro-me dos meus pais discutindo sobre onde passar o dia, dilema que, anos mais tarde, repeti com meu marido. Na casa do meu pai ou do seu? Inevitavelmente, o casal se divide, arrastando junto os filhos, que, sem poder de escolha, vão almoçar na casa do avô paterno com o pai, afinal, “é o dia dele”. Enquanto isso, a mãe segue sozinha para a casa do próprio pai, que lamenta a ausência dos netos e, sem querer, instala na filha um desconforto. Quando o casal decide não visitar nenhum dos dois, as chantagens emocionais logo chegam de ambos os lados, e um domingo que poderia ser apenas mais um se transforma num campo minado de culpas e cobranças. E não adianta prometer que “outro dia” todos poderão se reunir, porque aquele dia, carregado de simbolismo, já terá passado, tornando-se cada vez mais difícil explicar que é só mais um dia no calendário e ele não resume nem potencializa o sentimento de ninguém.
O Dia dos Pais aumenta, sim, o sofrimento de quem convive com uma ausência. Ao fazer essa afirmação, refiro-me ao sofrimento de quem recorda um pai vítima de câncer, ou da menina que, exatamente na data em que deveria comemorar, sepulta o pai que cometeu suicídio. Falo da filha que mora em outro país e, por causa de uma enchente, não pôde se despedir do pai falecido. Lembro do filho que fez de tudo para que o pai continuasse vivo, mesmo sabendo que isso era impossível. Choro pelo pai que, todos os anos, no início de agosto, conviverá com a lembrança de ter enterrado o filho em um Dia dos Pais. Lamento pela criança que fez uma lembrancinha na escola para o pai que nunca a procurou e que, ao final, foi orientada pela professora a entregá-la para qualquer outra pessoa. Recordo também o pai que pegou o filho natimorto nos braços e cuidou sozinho do seu sepultamento, enquanto a esposa se recuperava na UTI.
Não gosto do Dia dos Pais, pois não preciso de mais uma data para sentir a ausência do meu pai. Desde a sua partida há quase cinco anos, o luto ainda habita em mim e eu me sinto órfã. Como sempre busco consolo na literatura, encontrei no romance Memória de Ninguém, de Helena Machado, a identificação que me faltava. Publicado pela Editora Nós em 2022, o livro traz uma reflexão não apenas sobre o luto pela morte do pai, mas também sobre os lutos que superamos ao longo da vida. Diante da perda, a protagonista do romance, prestes a completar quarenta anos, se depara com uma crise intensa carregada de culpas e palavras não ditas. Percebe-se sozinha e incapaz de pensar no futuro e nessa solidão, repensa o que lhe foi dado o direito de escolher e o que lhe foi imposto como verdade. De volta à casa da infância, aquela que pertencia ao pai, ela é assolada por lembranças e traumas do passado: fantasmas escondidos nos vãos da memória.
A partir dessa leitura, consegui entender grande parte das dores que me atravessam. Eu tive um pai presente, amoroso e dedicado. Um pai que seria capaz de brigar com alguém para me defender. Mas nem todas as minhas dores têm a ver com a sua ausência, algumas delas são decorrentes da dependência da sua proteção. Assim como existem os pais que pouco se importam com os filhos, há também os que superprotegem e encontram dificuldades em deixar o filho crescer. Aqueles que preferem fazer pelo filho a deixá-lo aprender a se virar sozinho. O meu pai foi um pouco assim e, por isso, hoje eu tenho mais dificuldade em viver sem ele.
Enfim, sei que há quem goste, especialmente os que acabaram de se tornar pais, assim como acontece com as mulheres no Dia das Mães. Talvez meus argumentos soem exagerados, mas são o retrato sincero da forma como tenho vivido essa data. O mundo gira, as tradições se moldam e as pessoas aprendem a celebrar de jeitos diferentes. Eu, no entanto, sigo lembrando que o amor não precisa de um dia marcado no calendário para existir, e que, para alguns, essa data não é motivo de festa, mas um lembrete doloroso de tudo o que já não se pode ter de volta.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

