A infância é um laboratório infindo de aprendizados e modelos que funcionarão como marcas a serem impressas na mente de uma criança. Aprendemos a nos comportar, aprendemos a dizer obrigada e por favor, aprendemos a controlar as necessidades básicas, o que é certo ou errado, o feio e o bonito. E sim, aprendemos a mentir. A mentira é pouco falada quando se pensa na formação da personalidade de uma criança. Ela aprende rápido que adultos mentem. Que prometem comprar o brinquedo “na volta”, que um dia a criança vai entender o motivo de não poder comer a sobremesa antes da hora da refeição.
Mas, além dessas mentirinhas do desenvolvimento que os adultos contam, a criança aprende que outras mentiras também começam a fazer parte de sua vida. Ela vê, ouve, entende. Mentiras explícitas e implícitas. Aprender a mentir não é de todo mau. É que ninguém ensina a diferenciar a tal “mentirinha do bem”, que supostamente seria com a intenção de não magoar uma pessoa com uma verdade desnecessária que pudesse ser dura demais.
Cazuza já dizia que mentiras sinceras lhe interessavam, e talvez ele estivesse certo. Mas a mentira sincera machuca no segundo tempo, depois de achar-se com o jogo ganho. Eu não acredito mais em mentiras sinceras, sinceramente. Acho isso uma maior mentira ainda.
Até hoje lembro nitidamente, como se fosse ontem, do dia em que aprendi a mentir. Ou melhor, do dia em que percebi que mentir não fez diferença, e essa dor foi maior do que ser pega na mentira, como a outra música diz. Eu estava na escola e uma grande amiga da época me chamou para acompanhá-la na aula de natação dela. Eu não sei exatamente o que de clandestino havia nesse convite – dentro da minha cabeça talvez já imaginativa – que eu entendi que deveria omitir esse convite da minha mãe. Eu não sei o que exatamente eu disse para que nem ela nem meu pai fossem me buscar naquele dia, e eu fui com minha amiga assisti-la em sua aula. Eu não lembro o que eu disse, eu não lembro como fui embora, mas uma coisa eu lembro muito bem: da angústia. Interessante como a memória dos afetos deixa um registro para além das imagens ou melhor, colada numa imagem especifica: eu lembro do ginásio, do vapor da piscina, e eu sozinha naquela arquibancada de cimento extremamente angustiada, uma criminosa, imaginando o que minha mãe estaria pensando naquele momento, culpadíssima em ter a absoluta certeza de que ela acreditou em mim e achou que eu ainda estava na escola fazendo alguma outra coisa, talvez um trabalho em grupo. Aí mora outro perigo de quem mente. A pessoa para a qual se mentiu acreditar na mentira e não se importar. Talvez a mentira tenha surgido mais como uma tentativa de ser pego do que pela necessidade de se esquivar da verdade. Até porque a verdade é um construto obtuso e multifacetado, cheio de versões. A mentiroso é muito mais alvo da mentira do que aquele para o qual se mente.
E assim, diante da minha total frustração pelo sucesso da mentira, alguns dias depois, contei a verdade daquela tarde para minha mãe, temerosa pelo castigo a ser imposto, ou quem sabe desejosa por ele para expiar minha culpa edípica à flor da pele. Eu não lembro exatamente a reação dela, mas imagino que ela deva ter rido de minha culpa e não se importado, acabando com minhas expectativas de uma punição que trouxesse alívio. Fico imaginando minha frustração em imaginar que ela nem deva ter cogitado que eu pudesse estar fazendo qualquer outra coisa que não o que eu disse estar fazendo.
Eu queria que ela tivesse chorado, ficado arrasada por perceber a própria filha mentir para ela, que me colocasse de castigo. Sei que essa impunidade fez falta, sei que ela deixou marcas na pessoa que vim a me tornar. Entendo que ela tenha sido compreensiva e até “legal” comigo, mas nem sempre é isso o que um filho ou uma filha precisam.
Essa é a lição da mentira, quando ela é bem sucedida. Não sei bem se eu propriamente aprendi, não sei se isso é necessariamente dar certo. Claro, a vida segue exigindo da gente algumas mentirinhas aqui e acolá, das sociais às mais perversas, mas a sensação daquele ginásio, e especialmente aquela da qual tenho menos lembranças nítidas no momento da confissão, certamente me trouxeram marcas que me atrapalham (ou talvez me salvem, vai saber) na hora da tentação de uma mentira que traga a ilusão de poupar momentos desagradáveis de verdades amargas que hora ou outra na vida precisam ser ditas.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

