Nas últimas semanas, vários casos de morte de mulheres envolvendo esportes radicais, trilhas e passeios em lugares paradisíacos em meio à natureza foram noticiados. O caso da Juliana no vulcão na Indonésia, uma alpinista japonesa no Peru, uma professora que estava fazendo rappel em uma cachoeira em Andradas, Minas Gerais, sem falar nas que estavam nos balões no interior de São Paulo e Praia Grande, Santa Catarina. E eu, no meio de tantas demandas, fui provocada por uma amiga que me acompanha desde que cheguei a Porto Alegre.
– “Sílvia, mas tu precisas contar o que passou contigo, aquela vez que ficaste presa no Itaimbezinho”, provocou. Pois então, hoje, depois de mais de 30 anos daquele episódio, recordo as inúmeras vezes que estive em situação de risco e que, por conjuntura divina, não sucumbi.
Hoje, depois de mais de meio século percorrido na estrada da vida, fico pensando nos motivos que fazem a gente se lançar em situações que podem trazer sérias consequências, até mesmo a morte. Eu, se estou aqui escrevendo esse texto e nunca tive um osso quebrado, é porque não sou apenas dura na queda, quanto tenho um anjo da guarda muito atuante. Já perdi a conta de situações que poderiam ter resultado em estragos de diversas ordens.
Primeira aventura, aos 15 anos
A minha primeira aventura, quer dizer, a que fui batizada em entrar em situações embaraçosas em meio à mata nativa, eu tinha uns 15 anos. Adolescente, moradora de Cachoeira do Sul, tinha vindo passar o final de semana na casa dos meus tios. Um dos meus primos, que era fissurado por Dodge Dart, mais conhecido como Dojão, me convidou e fui com uma turma de amigos dele para passar o dia na Serra. Já na subida, na estrada sinuosa, eu fiquei apavorada com como eles andavam em altíssima velocidade com aquelas máquinas. Mas não podia dizer nada.
Depois de ter andado por alguns locais turísticos de Gramado, fomos visitar a Cascata do Caracol em Canela. O acidente geográfico é o mesmo, mas o parque era muito diferente na década de 80. A começar que o acesso era público, não se cobrava ingresso e nem havia esquemas de proteção no caminho que dava até a base da cascata.
Alguém teve a “brilhante” ideia de entrar numa trilha para chegar até a base da queda d’água por volta das 16h. Resultado: caiu a noite e nós, sem sequer uma lanterna, sem qualquer equipamento ou comida, ficamos presos lá embaixo, perto da queda d’água. Não conseguíamos enxergar qualquer caminho no meio da mata fechada. Acho que era lua minguante, estava bem escuro. Só sei que, depois de muito tentarmos encontrar uma saída para voltar, uma boa alma resolveu descer com uma lanterna para nos achar.
Não recordo direito, mas creio que conseguimos sair do mato por volta das 23h. Fiquei toda embarrada, com a roupa molhada, sapato encharcado e cheia de arranhões e hematomas. Lembro que, no outro dia, tive que usar roupas da minha tia e um tênis enorme do meu irmão para sair na rua e conseguir outro calçado. Depois dessa, ficou evidente o quanto nós fazemos coisas sem pensar quando somos jovens e estamos em turma.
Mas essa situação não foi nada perto da que passei quando fui repórter do Correio do Povo, lá por 1993 ou 1994. Naquele tempo, eu era ávida por pautas no meio da natureza. Morava num apartamento no segundo andar, no bloco do meio, que nunca pegava sol, nem tinha vista para a rua. Nenhuma planta conseguia sobreviver ali. Foi exatamente nessa época que despertei o interesse em cobrir por lados não óbvios as pautas ambientais. Recebia muitos convites para fazer coberturas de eventos, atividades no meio da natureza, no final de semana, inclusive conheci pessoas com quem mantenho a amizade até hoje, como a turma da então Comissão de Defesa do Aparados da Serra.
Repórter perdida em cânion
Até que recebi o convite de um pessoal de Novo Hamburgo para acompanhar uma faxina no Itaimbezinho. Era comum aventureiros acamparem no Parque Nacional dos Aparados da Serra e se arriscarem na descida do cânion. Naquele momento da história, muita gente ia para a região dos Aparados para acampar, não existia um monte de apetrechos de camping que se tem disponível hoje, muito menos o acesso era fácil de chegar.
A viagem foi durante a noite, tivemos que montar as barracas no escuro. Mal amanheceu, todo mundo foi acordado porque precisávamos pegar o caminho bem cedo para dar tempo de percorrer o trajeto. Ou seja, já começou bem mal a empreitada. Eu estava com sono, cansada de uma viagem estafante, cercada de pessoas que nunca tinha visto antes, a não ser o cara que conhecia de conversar algumas vezes antes, que havia me convencido para fazer a pauta.
A descida do vértice foi algo indescritível, mas superperigosa. Sem qualquer equipamento, corda ou vestimenta preparada para as dificuldades enfrentadas. Lembro que era por outubro. Já nos primeiros cem metros de descida, pra quem não sabe, o Itaimbezinho é uma fenda de 720 metros, comecei a me molhar com o spray que vinha das cachoeiras. Há várias, muitas não são identificadas de cima, outras são bem imponentes, como a Véu de Noiva.
Ninguém me deu a real do que eu poderia passar. Nem o chefe de reportagem, nem ninguém da redação ou da turma, sequer alertou sobre os perigos que eu atravessaria. E, no mais, naquele ímpeto de repórter meio “foca”, eu estava mesmo era querendo experimentar, me lançar em desafios. Ou seja, nós mesmos nos colocamos em situações arriscadas, de forma inconsciente. Naquele momento da minha vida, de vinte poucos anos, eu estava ávida por fazer pautas que me desafiassem.
O caminho foi subindo e descendo pedras de mais de dois metros de altura. Vi cobras, plantas de várias espécies que nunca tinha visto, bromélias de tipos diversos, sapos, aranhas, espetacular.
Tivemos que atravessar o rio, que se forma a partir das várias nascentes e quedas de água, diversas vezes. Em alguns momentos, todos tinham que se dar as mãos para vencer a correnteza. Até que na metade, mais ou menos do caminho, os “guias”, que eram dois que já tinham percorrido o trajeto, aceleraram o passo. Deixaram para trás umas oito pessoas, confesso que não lembro em quantos eram no total.
E eu, sem noção, bocaberta, dei minha mochila com uns biscoitos e algumas outras coisas comestíveis, minha máquina fotográfica com um filme todo já batido, para um deles carregar para mim. Estava bem difícil superar tantos obstáculos com peso nas costas. Resultado, lá embaixo não se sabia qual era a rota. Anoiteceu, nós não podíamos parar, íamos tateando, sentindo por onde dava para passar com mais segurança.
Fomos até onde não dava mais para seguir em frente. Sem lanterna. Todos com fome. Nos ajeitamos entre os sacos de lixo (não queríamos ainda deixar o que tínhamos recolhido), ficamos colados uns nos outros para tentar superar o frio, já que todos estavam enxarcados e exaustos.
Lembro que uma das coisas que mais me incomodou é que estava de lentes de contato gelatinosas, compradas há poucas semanas antes. E eu não podia tirá-las porque não tinha onde deixá-las. Meus olhos ardiam, parecia que tinha areia, mas resisti. Também não tinha noção do risco que corria ficando muito mais tempo com as lentes. Até porque não podia perdê-las, pois nem tinham sido totalmente pagas.
Pra encurtar a história, assim que o dia amanheceu, seguimos o caminho do rio. Conseguindo saber onde estávamos pisando, foi bem mais fácil encarar as dores no corpo e a fome. Como tínhamos passado a noite com receio de que começasse a chover – o que seria uma tragédia, pois o local rapidamente passaria por uma enxurrada – alguns do outro grupo, que não tinham descido, e os tais guias que nos deixaram para trás, foram atrás de nós por Praia Grande.
Não me lembro da nossa reação ao encontrar o pessoal. Estávamos esfarrapados, com as roupas que eram puro barro, eu cheia de escoriações, hematomas de vários tamanhos e sem consegui dizer muita coisa. Por pura sorte, ninguém se quebrou.
No outro dia, tive que subir de elevador um andar do prédio do Correio do Povo. Me doía tudo. Não conseguia nem levantar os braços. Cheguei ao computador, naquele tempo a tela era preta e a fonte era verde, o programa era o DOS, comecei a escrever sobre a faxina. Até que chegou meu chefe e disse: Sílvia, tens que contar sobre a tua experiência. Eis que um dos fotógrafos vem e faz uma foto minha – o jornal era P&B e o processo era por fotolito. No outro dia, a repórter tinha virado notícia. Minha aventura constou na capa do jornal.
Essa é uma das histórias, tenho algumas outras em que me coloquei em situações que poderiam ter sido catastróficas. Só que hoje estamos cercados por riscos dos quais sequer temos ideia. Por tudo isso, saber a dose certa do que conseguimos suportar é um dos desafios da vida. E quanto mais velhas ficamos, mais vemos o quanto precisamos saber encarar os obstáculos que nós mesmas nos colocamos. O ambiente em que estamos metidas geralmente é resultado das nossas escolhas.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

